sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Floresta

Eu sempre digo que "uma floresta é feita de vários tipos de árvores"...
Depois que completei os meus 30 Dias Druídicos, vários membros da comunidade druídica tomaram para si o desafio e estão fazendo os deles -- até agora Wallace, Laise e Ruairí entraram, mas à medida que outros se juntarem a nós eu vou editar este post para inclui-los, de modo a tornar mais acessíveis as diversas visões sobre os mesmos temas, e quem sabe assim incentivar os outros -- sim, é de VOCÊS que estou falando!
(01/01: JP Bach também entrou!)
(03/01: hoje o Matthes entrou também!)
(08/01, com atraso: Aengus e o Druida do Vento estão conosco)
(16/01: Marcelo William começou hoje!)
(27/01: Marcílio deu o ar de sua graça ;-))) )
(25/02: Rowena entrou na dança ;-))) )
(06/03: Renata começou agora!)
(16/04: Marina se juntou a nós!)
(15/05: Juliana chegou !!!)
(11/06: Beansidhe está começando...)
(29/11: Mayra, enfim, começou!)
(01/12: Malhado aderiu!)
(16/02/16: Karla vem quebrar o intervalo!)
(09/08/16): Jully chegou ;-)

Bendita a Floresta, que cresce sem cessar
Benditas suas árvores, crescendo em diversidade
Benditas as sementes que o vento dispersa
para fazer a Floresta sempre crescer

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Solstício




Ninguém sabe porque, mas nos inícios da história humana as pessoas se mobilizaram para construir monumentos de pedra por toda a Europa, enquanto outros grupos na Oceania, Ásia e Américas eram separadamente movidos pelo mesmo impulso e criaram estruturas similares -- todas elas orientadas pelos movimentos aparentes do Sol, da Lua e das estrelas, marcando os quatro momentos astronômicos que abrem as estações do ano.
Essas culturas já não estavam por ali quando os Celtas chegaram ao ocidente europeu, mas os monumentos ficaram lá como testemunho de seu conhecimento: não seria demais achar que os Druidas se puseram a examinar as estruturas e a decodificar seu mecanismo, mesmo não tendo nada a ver com os seus construtores e nem dando importância especial aos Solstícios e Equinócios como datas rituais (as festas de Manannán em Manx e de Áine na Irlanda ocorrem no Solstício de Verão, mas não são sazonais em si mesmas)
Nós, que moramos em São Paulo, que é cortada pelo Trópico de Capricórnio, hoje perdemos as sombras ao meio-dia, pois o Sol fica exatamente no zênite nessa data e hora -- o Relógio de Sol da Universidade de São Paulo marca o momento, uma linha vertical da ponta do gnômon até a linha do Solstício, como nas fotos acima; dá para sentir o Sol como um caldeirão de onde o Fogo celeste é derramado em força total e carrega a Terra de energia vital, que transborda e vivifica a todos os seres ao ponto da sobrecarga -- calor, lentidão, o próprio tempo parece correr mais devagar nestas semanas antes e depois do Solstício -- mas esse triunfo é o começo do fim, os dias agora vão se tornando mais curtos e as noites mais longas, até o Inverno chegar seis meses depois.
O dia mais longo, a noite mais curta, eis que o Solstício de Verão chegou!

Bendito o Fogo derramado do Sol
Bendito o dia longo em que Ele reluz
Bendita a noite curta em que Ele dorme
e sonha com a Terra embebida de Luz

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Epona

Ontem, 18 de Dezembro, foi comemorado por muitos o dia consagrado a Epona, a deusa-égua, divindade pan-Céltica dos cavalos e da Soberania, cultuada até mesmo pelos Romanos após a dominação dos Celtas.
Há três temas míticos associados a Ela, direta ou indiretamente, que apontam para uma questão que tende a ser ignorada mas que é essencial para o nosso tempo.
No mito, uma Divindade hediondamente feia pede um beijo aos candidatos a herói, o que a maioria recusa: apenas o verdadeiro herói atende o pedido e descobre a beleza oculta atrás da feiúra, recebendo Dela o dom da Soberania.
No rito, o candidato a rei tem relações sexuais públicas com uma égua branca, que depois é sacrificada e cozinhada para ser servida ao povo pelas mãos do rei, que é banhado no caldeirão do cozido durante o banquete.
Na lenda, uma família nobre tem sua origem na união do ancestral com a Soberania, que assume a forma da égua antes ou depois da união.
O que há em comum aos três temas? A idéia de que a Soberania é um Poder autônomo, provindo do Outro-Mundo, que dá seus favores aos que a vêem como realmente é, olhando além das aparências (ou, como digo, com olhos-de-Druida).
E o que isso tem a ver conosco, mortais plebeus do século XXI?
Não se trata de restaurar a monarquia, ou de conferir poderes quase-reais a um líder carismático que nos livre das crises contemporâneas: os reis tiveram sua chance em seu tempo, e o exemplo alemão do que acontece quando se dá ouvidos a um carismático-mas-louco líder ainda está, ou deveria estar, bem fresco na memória.
O que este tempo parece exigir de todos nós, de cada um, é que a Soberania seja cortejada e desposada por todos, sem exceção -- que cada pessoa assuma o governo de sua casa, sua vida, seu mundo, e que todas essas vontades soberanas se aliem num pacto para governar nosso mundo numa regência compartilhada em nome da Soberania, a legítima Rainha, de quem todos seremos os consortes.
O grande obstáculo aqui está expresso nos mitos: a Soberania é horrível, e a primeira reação diante dela é a repulsa -- muitos, se não a maioria de nós, temos horror à idéia de governo, política, administração ou poder, e tendemos a explicar isso por via de um idealismo equivocado que vê o poder como sujo, vil, corrupto/corruptor, "feio" em suma, e assim falhamos no teste que Ela propôe.
Só quando olhamos com olhos-de-Druida podemos ver a verdadeira face da Soberania e entender que, qualquer que seja o nosso dán, parte dele implica em desposar a Soberania e assumir nossos deveres junto a todo mundo como co-regentes em nome Dela -- parte da força dos recentes movimentos civis pelo mundo afora, protestando contra os desmandos das autoridades constituídas, vem dessa consciência ainda obscuramente pressentida de que eles tem um mandato para governar e a responsabilidade de usá-lo bem para o bem geral, de que a Soberania não é um título vazio ou a mera promessa de riqueza ou poder, mas sim uma Deusa a ser cortejada e desposada, se passarmos no teste e nos provarmos merecedores disso.
Ainda é tempo: hoje mesmo, ofereça uma rosa a Epona, faça uma oração breve de agradecimento -- e se ela pedir um beijo, olhe bem nos olhos Dela e não recuse...

Bendita a Soberana, Rainha do Mundo
Bendita a Égua Branca na Colina Verde
Benditos os que A reconhecem como Rainha,
pois regerão o mundo em Seu Nome

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Conselhos

E para quem leu cada um destes 30 Dias Druídicos, e sentiu que algo dentro da alma ressoou em sintonia com o que foi expresso, e quer que este caminho seja também o seu caminho... que conselhos eu teria para dar?
Eu evitei de propósito falar de arqueologia, liturgias elaboradas, panteôes ou culturas Celtas, porque cada pessoa vai ter afinidade por coisas particulares e o que se aplique a um não vai servir para outro: assim, eu vou recorrer ao Budismo quando ele fala dos Três Refúgios, ou buddha, dharma, sangha, e propor equivalentes druídicos como conselho.
Dharma, "caminho" ou "lei", aqui será traduzido como "estudo": muitos livros bons foram escritos sobre as culturas Celtas, e muitos deles são disponíveis em sites como os que estão na coluna da direita deste blog -- história, arqueologia, mitologia, textos traduzidos do Irlandês, suas aplicações feitas por grupos modernos dentro e fora do Brasil: pegando emprestada dos Ásatrú uma definição, o Druidismo é uma religião com muita "lição-de-casa"...mas sempre há muita informação incorreta misturada à correta na Internet, sites que dizem que os Druidas vieram da Atlântida ou coisas piores, e aí como separar o trigo do joio?
Sangha, "comunidade", é a resposta: é importante encontrar outros seguindo este caminho, em várias listas de discussão ou blogs, e participar do diálogo nelas -- e aí não se deve ter vergonha de não saber e por isso não perguntar, pois o ditado diz "quem faz muitas perguntas parece tolo, quem não faz nenhuma pergunta é tolo"; seja via Internet, seja no contato pessoal com grupos em sua localidade, as pessoas terão prazer em responder perguntas e propor leituras; além do mais, a convivência com pessoas que pensam de modo parecido e dos laços de amizade que aí se formam são ganhos inestimáveis em si mesmos.
E Buddha, "Buda", não é o Buda histórico (para o qual não temos um equivalente druídico), mas o que os Budistas chamam de "natureza búdica", ou a condição inerente de todos os seres e coisas de partilharem do Sagrado -- no nosso caso, implica na busca pessoal da natureza sagrada dentro de si mesmo via meditação e oração e na prática da ética no dia-a-dia, ou seja, despertar o Druida interior, seja lá como ele seja concebido: talvez seja o caso de perguntar a si mesmo, "como é o meu Druida ideal?" e tentar se tornar esse ideal-de-Druida um pouco a cada dia...
Uma advertência cabe aqui: o Druidismo não é o caminho mais perfeito que todos os outros, não temos respostas prontas para as grandes questões da existência, não prometemos a libertação deste mundo imperfeito e seus múltiplos problemas -- em vez de respostas só nos propomos a fazer as perguntas corretas, em vez de fuga do mundo só oferecemos o caminho da integração a ele, em vez de perfeição nós vemos as imperfeições da vida como sendo notas da Grande Canção e nos esforçamos para ser tão afinados quanto possível...
Se o acima exposto desencorajar alguém, talvez o Druidismo não seja o seu caminho; se assustar alguém, saibam que todos nós temos de vez em quando o mesmo susto diante da enormidade da tarefa à nossa frente; se entusiasmar quem leu, é porque vocês, como tantos de nós, já estão no caminho druídico e não sabiam -- a esses, damos as boas-vindas, na melhor tradição Celta da hospitalidade, e esperamos poder ser de alguma ajuda no caminho!

Bendito quem dá o primeiro passo
Benditos os passos que o trouxeram até aqui
Bendito o Caminho seguido em parceria
para o bem de todos os seres

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Futuro

Não precisamos do Ogham, de ler os presságios, ou das Profecias de Merlin para saber de uma coisa sobre o futuro com certeza absoluta: ele virá, quer o queiramos ou não.
Estamos agora, no começo do século XXI, numa crise de dimensões planetárias: economias desmoronam, populações levantam-se contra os governos que as oprimem, a poluição e o desmatamento ameaçam alterar o clima da Terra, religiôes se enfrentam como exércitos em batalha...
E no entanto, e não por acaso, nós estamos aqui agora: nosso dán nos levou a estarmos vivos nesta era de mudanças com todas as ameaças e promessas que isso acarreta, e tendo (re)descoberto o Druidismo como sendo o nosso caminho, nos perguntamos: como agir, qual é a nossa contribuição para sanar essas crises e trazer a harmonia ao nosso mundo?
Nós somos tanto os beneficiários da herança cultural e espiritual dos Celtas quanto essa herança se beneficia de nós; do mesmo modo que o primeiro humano a pisar na Lua disse "a Terra é o berço da Humanidade, mas não se pode permanecer para sempre no berço" eu digo: os territórios Celtas são o berço do Druidismo, mas ele terá de sair pelo mundo para sobreviver.
Nós, brasileiros que seguimos o caminho druídico, temos diante de nós a tarefa de fazer o Druidismo europeu se aclimatar em solo nativo, sabendo que esse Druidismo brasileiro não vai poder ser homogêneo em vista dos vários ecossistemas e regiôes que compôem nossa terra -- cada lugar terá o seu próprio modo de ser druídico, modificado por clima, fauna, flora, geografia e geologia, assim como pelas culturas locais e pelas tribos de Espíritos da Natureza que ali se manifestam -- mas que aquilo que nos une, os laços de amizade e os ideais de um modo de vida em harmonia com tudo e todos que nos rodeiam, será sempre mais importante que essas diferenças que nos separam.
John Michael Greer escreveu em 2004 uma carta-manifesto, Druidry and the Future, onde ele lançou o desafio de que cada Druida deveria aprender e dominar três disciplinas -- ecologia (teoria e prática, como restaurar ecossistemas danificados), cultivo/criação orgânicos, sistemas de cura natural e prevenção de doenças -- e ensiná-las a mais pessoas, pois nos tempos que virão, à medida que as pessoas despertarem para a necessidade de reconstruir sua relação com este mundo e com o Outro-Mundo, será a nós que elas procurarão, vendo em nós e nosso modo de vida uma tábua de salvação nos mares tempestuosos que se aproximam.
Mas não se trata de converter todos ao Druidismo, pois a mesma diversidade que é essencial ao mundo natural vale também para o mundo cultural, um não pode ser pensado sem o outro -- não, a tarefa é mais grandiosa e difícil, o que teremos que fazer é relembrar cada cultura e religião humanas de suas próprias raízes na Natureza: fazer os Cristãos lembrarem dos exemplos de São Francisco, São João Gualberto, Santa Brígida e outros, os Judeus da missão de Adão de zelar pelo Jardim do Éden, os Islâmicos de que a Natureza é obra de Allah -- não viemos destruir, mas restaurar, e nesse respeito pelo caminho alheio devemos basear nossa missão.
Dizem que o dito Chinês, "que você viva em tempos interessantes", é na verdade uma praga rogada poeticamente; mas, movidos pela esperança de um destino melhor para nós e nosso mundo, vamos lê-la como uma promessa, de que nosso dán, orientado pela Inspiração sempre acessível a todos nós, nos conduzirá por caminhos seguros para um novo mundo...

Bendita nossa jornada, que nos trouxe até aqui
Bendito o Sagrado que nela se expressa
Bendita a missão diante de todos nós,
e a Inspiração que a revela a cada passo

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Caminho

E, tendo visto apenas um dia na vida de quem segue o Druidismo, o que podemos esperar do caminho druídico a longo prazo, como projeto de vida?
A rotina diária de oração, meditação, rito e estudo (e suas aplicaçôes ao longo do dia) vai pouco a pouco causando mudanças sutis no praticante: maior capacidade de atenção, concentração e percepção, maior tolerância ao stress e às situações e pessoas em geral, mais energia vital e disposição, maior entendimento das pessoas e da vida em geral, conduta mais ética e responsável, comportamento sociopolítico menos alienado e mais participativo -- na verdade essa é a pedra de toque para saber se um caminho espiritual é legítimo ou não: se você está se tornando uma pessoa melhor ao segui-lo, então você está no caminho certo...
Ao longo dos meses e anos, a vivência dos ciclos da Lua, do Sol e das estações, mesmo que não seja no formato ritual da Roda do Ano, vai pouco a pouco moldando o praticante, como se fosse ele a crescer e minguar, murchar e rebrotar, em harmonia com os sistemas ecoplanetários dos quais faz parte.
Mesmo os ciclos da vida humana e os ritos a eles associados -- formatura, casamento, filhos, aposentadoria -- começam a ser vistos como reflexos do ciclo vital manifestados na vida humana, estações que avançam em direção a um Inverno obscuramente pressentido, para o qual os anos de estudo e prática do Druidismo são uma preparação gradual e cuidadosa.
Pois é fato, com o qual todas as linhas druídicas concordam, que a Natureza é nossa mestra; e um ensinamento crucial dela, que qualquer pessoa com algum miolo na cabeça pode aprender com cinco minutos de observação no mato, é que todas as coisas têm um tempo de vida definido, plantas, pessoas, cidades, civilizações...
"Tudo o que nasce deve morrer", poderíamos formular o ensinamento assim -- mas ele só pode ser um guia eficaz se tiver consigo a segunda parte, "Tudo o que morre deve renascer": quando tomamos consciência de que vamos voltar a esse mundo, que "as canções de nossos ancestrais são também as canções de nossos filhos", maior é nossa responsabilidade de zelar pelo mundo que deixamos para trás ao morrer, pois é a ele que iremos voltar no tempo devido.
E nosso dán, nossa vocação, nosso dom e destino, vai se revelando a nós a cada passo da jornada, tornando mais clara a direção a seguir, como um rio no qual navegamos e cujas águas também matam nossa sede e a sede dos que vão conosco.
Parece um bom caminho a seguir, não?

Bendito o Caminho, rio que flui
Bendita a barca com que nele navegamos
Bendito quem segue o Caminho
e partilha de suas Águas com todos

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Um Dia Druídico

Depois de três semanas expondo pontos de vista sobre o caminho druídico, como sintetizar o que já foi dito? Como resumir o que é uma prática para a vida inteira em um só dia?
Imaginem como seria acordar de manhã, dar graças pela noite de sono, anotar os sonhos, fazer uma oração matinal, preparar o café da manhã abençoando o Fogo e a Água que participaram do processo, comer dando graças, tomar banho como um rito de purificação e sair à rua, prestando atenção no mundo, na Natureza e nas pessoas à sua volta.
Imaginem chegar no trabalho/escola, discretamente abençoar o lugar de trabalho/estudo, manter a consciência do que se faz enquanto se está fazendo; almoçar sozinho ou com amigos, dar graças mentalmente pela refeição e comer com apreciação, evitando desperdícios; prosseguir ao longo da tarde com a mesma postura de não ver diferenças entre o que é cotidiano e comum e o que é Sagrado.
Imaginem voltar para casa no fim do dia, jantar com bênçãos, desfrutar do convívio com a família, ler ou estudar, lavar as tensões do dia no banho, orar agradecendo pelo dia e pedindo bênçãos para familiares, amigos, conhecidos e o mundo todo, e por fim entregar seu sono à proteção dos Deuses.
E, ao longo do dia, estar presente em cada contato, cada pessoa, árvore ou animal, e estar aberto à Inspiração para saber a ação ou palavra correta para cada situação que se apresente, e perceber a beleza manifestada em cada coisa, do Sol nascente à grama nas fendas da calçada...
Tentem do seu jeito, apelem à Inspiração, e provem o gosto do Druidismo, por um dia que seja.

Bendito o meu dia, cheio de dons
Benditos os que encontrar em meu dia
Bendito este dia para eles também,
e todos os outros dias após este

Distrações

Já falamos da importância de viver conscientemente a vida em geral e o caminho druídico em particular, mas precisamos examinar porque as distrações nos impedem disto.
O fator mais importante é que nenhum de nós é, ou pode ser, Druida em tempo integral: os antigos Druidas tinham todas as suas necessidades providas pela tribo à qual serviam e não precisavam pensar nelas, estando livres para se dedicar integralmente aos afazeres do Druidismo sem distrações ou as preocupações do dia-a-dia -- mas nós temos que pensar em casa, família, trabalho/escola, saúde, contas, trãnsito, futuro, etc, etc...
Adicione-se a isso a obsessão moderna de não deixar espaços vazios no dia -- músicas no fone de ouvido, internet no celular, livros, etc -- e o problema está instalado: é só olhar os passageiros no metrô de manhã ou qualquer outro horário e essa tendência aparece muito claramente diante de quem olhar.
As mesmas pessoas que dizem se interessar pelo Druidismo (não falo dos que vão realmente seguir o caminho) mas se queixam da falta de tempo para estudar, meditar ou fazer um rito matinal são as que passam no mínimo cinco horas por dia navegando na Internet, baixando música/filmes/seriados, verificando atualizações no Twitter/Facebook, e não se dão conta da incoerência entre palavras e atos...
"Bom", dirão, mas então é proibido ter atividades recreativas no Druidismo?"
Olhem a palavra "recreação": ela mostra em si a "re-criação", o refazimento após um esforço fIsico ou mental prolongado, uma pausa essencial -- o próprio Buda alertou seus discípulos, "a corda frouxa perde o tom, a corda tensa se parte", o excesso de disciplina é tão daninho quanto a sua falta.
Parte dos efeitos de se ter uma prática estabelecida no dia-a-dia é que se ganham inúmeros lembretes ao longo da jornada diurna: da oração/meditação matinal às graças pelo almoço, da bênção do jantar ao rito no altar doméstico no fim do dia, cada ação lembra a mente que é hora de deixar outros afazeres de lado, nem que seja por alguns segundos apenas, e despertar a atenção para um outro estado de ser, outro modo de vida, cujas bênçãos irão, com o tempo, transbordando para cada instante até que a consciência desperta permaneça atenta mesmo em meio de uma festa, um filme, uma conversa via SMS, e as recreações deixem de ser distrações...

Bendito cada momento do dia
Benditas as ações entre distrações
Bendita a mente que está atenta
a cada passo e curva no Caminho

domingo, 11 de dezembro de 2011

Pisando Leve

Para preservar o ambiente local, vários parques florestais e zonas protegidas colocam o seguinte aviso:

"Não deixe nada senão pegadas,
Não leve nada senão lembranças
"

Esse conceito de "pisar leve", de minimizar o impacto que a pessoa/grupo/cultura tem sobre o meio ambiente, vem ganhando espaço na mídia já há algum tempo -- idéias como reduzir o consumo de bens e recursos, zerar seu desperdício, aumentar sua reciclagem/reutilização, eliminar a geração de resíduos tóxicos, preferir sempre o renovável sobre o que não o é, estão mais presentes na consciência coletiva: já ficou comum a cena em que um adulto joga papel ou outro lixo na calçada da rua e é ferozmente repreendido pelas crianças que estejam presentes...
Portanto, não vou tocar no assunto, desde que os que estão lendo isso, se já não estão praticando esses hábitos em suas vidas, no mínimo sabem que deveriam estar -- mas, como de costume, vou olhá-lo com olhos-de-Druida para ver o que se esconde aí.
Olhem só: essa questão aborda apenas o uso racional dos recursos naturais, matéria e energia, mas deixou de lado um bem renovável de origem humana, a informação...e se a tratássemos segundo os mesmos critérios acima expostos, o que ocorreria?
"Reduzir o consumo" e "eliminar resíduos tóxicos" se aplicam à massa de informação inútil, vazia e até mesmo prejudicial que circula em nossa cultura-- revistas de fofoca, matérias pagas de celebridades fúteis, pornografia na Internet, spams, memes sem sentido, tudo isso poderia ser descartado de nossas vidas e esse jejum, ao invés de nos prejudicar, só traria benefícios.
"Zerar o desperdício" e "aumentar a reciclagem" se aplicam à informação que passou no teste anterior: se cada informação útil, boa ou meramente bela, que ouvimos hoje, for repassada para dez pessoas, e dessas para dez-vezes-dez, mais pessoas se beneficiarão dela -- como diz uma das Tríades:

"Três coisas semelhantes: a espada enferrujada na bainha, a água estagnada no balde, o conhecimento não-utilizado na memória"

O que merece ser guardado no Santuário que Preserva só o é para ser transmitido para o bem dos outros: nunca é demais lembrar o papel do Druida como educador do povo, e todos nós, educadores por profissão ou não, partilhamos essa responsabilidade -- MAS, no espírito do "pisar leve", nossa abordagem não deve ser imposta e nem proclamada em praça pública: nenhuma religião pagã era proselitista nem fazia questão de convencer os outros na marra, diferentemente das religiões que as sucederam, assim também nós podemos nos conter um pouco e não oprimir os outros com o que sabemos, mas sim liberar pouco a pouco esse conhecimento, num processo de respeito pelos caminhos dos outros e num clima de relacionamento harmônico, zelando pelo ambiente humano com o mesmo carinho com que cuidamos do ambiente natural.
Mesmo os Deuses não descem dos céus entre trovôes e trombetas, mas se manifestam a nós por toques de Inspiração mais silenciosos que sussurros...que tal seguir o exemplo Deles?

Bendito o Caminho e nossos passos nele
Bendito o Mundo e os que nele vâo conosco
Benditos os passos leves no Caminho
que apontam a trilha aos que seguem atrás

sábado, 10 de dezembro de 2011

Trabalho

Nos tempos antigos o que uma pessoa fazia dependia apenas de quem eram seus pais e que ofício exerciam; entre os Celtas também era assim a maior parte das vezes -- com uma exceção importante: além das três funções Indo-Européias, havia uma classe à parte (registrada na Irlanda, mas possivelmente presente nas outras nações Celtas), os áes dána ou "Povo das Artes", englobando aquelas crianças inteligentes o suficiente para atrair a atenção de seus professores (que eram os Druidas) e que recebiam educação especial de acordo com seus dons, independentemente de sua classe ou família (o ditado Irlandês "o homem é maior que seu nascimento" reflete essa possibilidade de ir além das circunstâncias de sua origem).
Um olhar mais demorado sobre os áes dána revelas coisas interessantes: o nome deles deriva de dán, traduzível como arte, talento, dom, capacidade, mas também como destino ou caminho, e em português ambos os sentidos se unem na palavra "vocação", aquele dom com o qual se nasce e que é destino exercer ao longo da vida.
Este período recente da história humana (as últimas três gerações) é a primeira vez em que se pode escolher que profissão seguir, mesmo que muita gente ainda siga um caminho possível-no-momento, e não escolhido; cada vez mais é considerado crucial que o aluno faça a escolha da profissão a seguir cada vez mais cedo, com o resultante stress afetando a criança e sua família de modo crescente -- um resultado previsível disso é que muitos jovens em revolta contra tal expectativa estão deliberadamente adiando a entrada na faculdade, pondo uma mochila nas costas, e saindo mundo afora para "se encontrar"...o que o Druidismo considera é que a questão não é se encontrar, mas sim encontrar seu dán, descobrir sua parte na Grande Canção, e ver que isso pode ocorrer em qualquer campo da vida humana, e que é possível exercer seu dán qualquer que seja o seu trabalho ou ocupação.
Imaginem uma faxineira que segue o Druidismo e que, ao mesmo tempo que lava o chão, consagra a água e o desinfetante para abençoar e purificar a casa onde trabalha...ou um caixa de banco que toca o bodhrán na banda de seus amigos no fim de semana...ou um taxista que sempre tem a palavra certa para os passageiros tensos, aflitos ou com problemas maiores que leva consigo pelas ruas da cidade...ou a copeira no escritório em cujas mãos o café servido vira uma poção mágica que dissipa o cansaço e clareia a mente...ou a professora que pratica duas horas de combate de espada no fim do dia...ou...ou...(descubra seu exemplo, ou crie um em sua vida!)

Bendita a Vocação em cada alma
Bendito o Caminho que a alma segue
Benditas as Obras de mão, voz e mente
que manifestam os Dons da Vocação

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Comunidade

Vou usar dois sentidos da palavra, e começo com o mais restrito...
A comunidade druídica, no Brasil e no mundo, é uma obra em construção que está agora em fase de expansão e consolidação: quem esteve no recente II Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta, em São Paulo, pôde sentir que a semente lançada no I EBDRC (Florianópolis, 2010) cresce viva e vigorosa, já podemos nos chamar de "comunidade" e já oferecemos terreno fértil onde todos, dos novatos aos veteranos, podemos crescer e nos apoiar mutuamente em fraternidade e alegria.
Mas há a comunidade mais ampla, onde estamos inseridos quer o queiramos ou não: bairro, cidade, estado, país; trabalho, escola, serviços; família, amigos, vizinhos...às vezes é bom pararmos para fazer a pergunta: no que o meu caminho druídico beneficia a(s) minha(s) comunidade(s)?
É fácil ser Druida no meio de nossos pares, onde todos falamos a mesma língua e partilhamos de uma visão de mundo comum -- o desafio é fazer o mesmo, dia após dia, entre as outras pessoas da nossa vida que não sabem e nem entendem que raio de coisa é isso de Druidismo, ou que podem até ser hostis a ele.
Sabemos que os Druidas originais eram parte inseparável da sociedade Celta e serviam a ela com sua sabedoria e orientação: naquele tempo, a visão da pessoa usando o manto branco nas trilhas das aldeias despertava o respeito e a admiração do povo, que podia não saber direito o que é que ele fazia mas sabia que sua vida era beneficiária direta das ações do indivíduo do manto branco.
Nós ficamos numa posição mais difícil que nossos antecessores, pois não temos nem a autoridade e nem o respeito de que desfrutavam, mas no fundo da alma bem sabemos que a velha responsabilidade com o povo permanece intacta, e a questão de como exercê-la sempre surge diante de nós...
"Sair do armário" é uma decisão difícil, que nenhuma pessoa pode fazer pela outra, e que depende de quem sai, quando sai, e para quem ou diante de quem sai -- e muitas vezes os riscos implicados tornam o segredo a opção mais viável.
Mas mesmo sem assumir publicamente que seguimos o caminho druídico, ainda assim um fator pesa: é verdade que, pela infinita diversidade de linhas no caminho, ninguém pode falar publicamente em nome de todo o Druidismo, mas ainda assim cada um de nós o representa diante dos outros, e nossas ações se refletem nele, como a virtude Céltica da Integridade lembra; se você criou a reputação entre seus colegas de ser honesto, sempre ajuda os outros, nunca se mete em brigas ou fofocas, às vezes fala disso de ecologia, se um dia o seu Druidismo se tornar público eles dirão: "Ah, Fulano é Druida?...bom, se ele é, esse negócio não deve ser tão mau assim"
Os outros não vão saber do Druidismo nem mais e nem menos do que aquilo que a nossa conduta pessoal mostrar, e é pelo exemplo quieto que mais podemos beneficiá-los: uma ajuda ali, uma palavra ponderada aqui, uma invocação silenciosa num momento de Inspiração, em todos esses atos o espírito druídico da reciprocidade e da interconectividade se manifesta e neles cumprimos nosso dever com a comunidade a que servimos, mesmo que em segredo...

Bendita a Comunidade dos que Sabem
Bendita a Comunidade dos que ignoram
Bendito o dever que move os Sábios
a servir aos outros em Silêncio

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Família e Amigos

A família era o centro das sociedades Célticas, não apenas pai-mãe-filhos ou a família expandida de avós, tios e primos, mas todos os grupos familiares de um mesmo clã -- sem levar em conta os laços criados entre famílias pela prática regular da adoção dos filhos umas das outras, que eram parte essencial da educação dos jovens: só como exemplo, porque Cuchulain era filho de criação de Fergus, este foi poupado dos massacres cometidos por aquele contra os invasores do Ulster na narrativa do Táin; isso descreve um tipo de sociedade onde cada membro está ligado a todos os outros por múltiplos laços de lealdade e por isso se torna coesa e estável.
Mas hoje estamos vivendo uma situação única na história humana na qual, pela primeira vez na civilização ocidental, os laços de amizade têm prioridade sobre os laços familiares: cada vez mais as pessoas estão se afastando de parentes distantes e próximos em prol de amizades próximas e distantes, e em épocas do ano como esta,nota-se a dicotomia entre o Natal como festa familiar e o Ano Novo como comemoração entre amigos, com a balança pendendo cada vez mais para o lado deste a cada ano.
É verdade que muitas vezes, como Richard Bach escreveu em Ilusôes, "Raramente os membros de uma família se criam sob o mesmo teto", ou seja, muitas vezes só se encontra a compreensão que falte em casa no meio dos amigos -- mas C.S.Lewis disse em Os Quatro Amores que na amizade o vínculo está menos na pessoa do amigo e mais na partilha de interesses comuns, ou nas palavras dele, a pergunta que define o amigo não é "você me ama?", mas sim "você também ama a mesma verdade que eu?"
Especialmente a questão do Druidismo pode às vezes ser um divisor de águas, porque é rara a família que aceita bem quando um de seus membros se declara seguidor do caminho druídico, e frequentes são os amigos, mesmo fora do Druidismo, que acolhem bem uma declaração como esta.
Mas o Druidismo tem como um preceito claro honrar os Ancestrais, e isso inclui tanto desconhecidos mortos há milhares de anos quanto um avô ou tia falecidos ano passado, e inclui honrar os descendentes vivos desses Ancestrais, ou seja, a sua família em casa...
Isso não quer dizer que a família está sempre certa e que se devam tolerar relacionamentos neuróticos ou francamente abusivos ocorrendo em seu seio: toda pessoa é livre para se defender de agressões, venham de dentro ou de fora de casa, mas "honrar" nesse caso é reconhecer que nossas vidas têm raízes lá, que somos como somos devido à nossa família, mas que somos livres para definir nossa relação com ela e suas consequências conforme a Inspiraçâo nos guie.

Bendita a Família, dentro e fora de casa
Benditos os Amigos, companheiros de jornada
Benditos os mil laços que nos unem
para que ninguém siga sozinho

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Vida Consciente

Diferentemente dos outros animais e das crianças bem pequenas, que vivem apenas o tempo presente, nós temos as noçôes gêmeas de passado e futuro: mas isso, que deveria ser um recurso valioso da consciência humana, acabou se tornando uma armadilha mortal -- presos entre as reminiscências do que se foi e as expectativas boas ou más sobre o que virá, perdemos o foco do aqui e agora e a consciência junto com ele...
Rudolf Steiner, fundador da Antroposofia (que para mim é exatamente como o Druidismo poderia ser hoje se tivesse evoluído sem ser interrompido pela Romanização ou pela Cristandade), disse em um de seus livros que quando nós olhamos para uma paisagem na Natureza meramente como cenário de fundo, nosso olhar não-consciente paralisa e aprisiona as entidades espirituais, plantas, animais e Outras, que dela fazem parte, e exorta o observador a reconhecer a cena diante de si como povoada de vidas e consciências, para com isso liberá-las; que diria ele agora, no começo do século XXI, ao ver as pessoas que andam nas ruas das cidades e que, nas raras ocasiões em que desviam a atenção dos celulares e iPods, olham para os prédios, carros e até mesmo as outras pessoas, como sendo paisagem? Denunciaria ele essa tendência como aprisionando o espírito humano e a civilização por ele criada?
"Relacionamento", a palavra-chave do Druidismo e uma de suas incontáveis definições, pressupõe que as partes nele envolvidas o façam de modo consciente, nâo automático, presentes no aqui e agora, que é o único tempo em que esse encontro pode ocorrer e onde podemos ver o outro como ele é -- se estou consciente do espaço à minha volta e de mim mesmo, torna-se mais difícil jogar o chiclete mascado no chão e mais óbvia a necessidade de achar uma lixeira adequada, ou seja, o mundo deixa de ser apenas "esse lugar onde estou" e passa a ser tratado como merece.
Se, como vimos, o Sagrado está em toda parte quando temos o olhar atento, então o ato de prestar atenção, de viver de modo mais consciente, passa a ser devocional em si mesmo, despertando em nós a visão da Natureza, das cidades e de cada pessoa, como sendo sagradas diante de nós, aqui e agora.

Bendito o Sagrado em toda parte
Benditos os olhos abertos para vê-Lo
Bendita a vida vivida em consciência
de estar na presença do Sagrado

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Oração

Quem já conversou com Cristãos do tipo evangélico sabe que eles fazem uma distinção clara entre rezar, ou repetir preces já escritas, e orar, ou falar espontaneamente a Deus, e que eles favorecem a última em detrimento da primeira porque esta é "pagã e idólatra" (como se isso fosse defeito...); no entanto, a preferência deles por orações em voz alta, ao invés da oração mental e silenciosa, acaba justamente revivendo o que era a prática universal das religiôes pagãs antigas -- sempre se rezava aos Deuses em voz alta, com os gestos e posturas rituais corretos, e sempre se pedia "que minhas preces cheguem até Ti/Vós", ou seja, havia o risco de que elas não chegassem...
E qual é o motivo disso? Simplesmente esse: antes da Cristandade, os Deuses eram considerados como sendo mais poderosos e sábios que os mortais, mas esse poder e essa sabedoria eram obrigatoriamente finitos e também limitados pelos dons dos outros Deuses, assim não existia o pressuposto de que uma Divindade pudesse sempre ouvir as orações humanas, até mesmo as pensadas, porque os Deuses não eram nem onipotentes nem oniscientes -- foi só com a ascensão do Deus Único ao poder, e com esse poder visto como sendo absoluto e ilimitado, é que surgiu o costume da oração silenciosa, que dominou o Ocidente até há bem pouco tempo atrás.
No Reconstrucionismo Celta temos a postura de que uma certa formalidade na oração cai bem, talvez até mesmo usar uma língua Celta -- não que Eles precisem disso, mas é algo que lhes agrada; se você não puder fazer isso, orações em português são bem-vindas!
Embora saibamos que os Deuses não são oniscientes, um devoto de uma Divindade particular está "ligado" a ela o suficiente para que uma oração mental seja audível e a agrade (há um consenso entre os Reconstrucionistas de que, após dois mil anos de esquecimento, as Divindades estão ansiosas para reatar os vínculos com os seus fiéis e não medem esforços para atrair a nossa atenção...), assim, aqueles que se sentem embaraçados em rezar em voz alta em público podem fazê-lo em silêncio, como no caso da Altú Págánach, uma oração de graças para ser dita às refeições que Robert Kaucher, criador da ODB, popularizou entre os seus membros (muitos de nós, talvez todos, a rezamos todos os dias até hoje).
Comece devagar, uma prece por dia -- ao acordar, pedindo forças para o novo dia, às refeições para abençoá-las, ao se deitar agradecendo pelo que o dia trouxe, escolha o que parecer melhor; para aqueles que não têm uma Divindade padroeira (e são muitos, talvez a maioria) é perfeitamente aceitável uma oração como "Eu oro Àquele(a) que ainda não conheço: que Ele(a) me seja revelado!"; para os que já conhecem seus padroeiros, o vínculo vai sendo tecido de oração, oferendas, estudo e dedicação, um relacionamento de reciprocidade e hospitalidade mútua que abençoa tudo à sua volta...

Benditos os Deuses e os homens
Benditos os laços tecidos entre ambos
Benditas as preces, que dão forma e som
ao vínculo da Devoção entre eles

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Magia

Esse é um assunto controverso tanto dentro quanto fora do meio druídico: algumas linhas enfatizam o aspecto devocional, religioso ou cultural dos rituais e não dão muita importãncia ao lado mágico, enquanto outras dedicam boa parte do treinamento, já nos primeiros passos, ao seu estudo e prática.
A imagem do Druida como Mago é poderosa, como certos personagens bem o provam e as lendas da Irlanda o registram, a tal ponto que em Irlandês moderno a palavra para magia é draíocht, "druidismo" (e por isso, na versão irlandesa dos livros de Harry Potter, Hogwarts se torna um Colégio Druídico ao pé da letra!)
O problema é que, fora alguns itens arqueológicos, relatos de folcloristas e trechos de histórias, não se conhece nenhum sistema de teoria e prática mágica Celta que tenha sobrevivido até hoje, e assim qualquer tentativa de usar magia precisa tomar emprestadas as práticas de outras linhas ou tentar reconstruir as práticas a partir do pouco que se sabe.
Antes de John Michael Greer se tornar o Arquidruida da AODA (que enfatiza o treinamento em magia já no grau de Candidato), ele criou para a Guilda dos Magos da ADF um sistema de magia adaptado ao rito-padrão deles, bastsnte completo e eficaz.
Ian Corrigan, também da ADF, vem desenvolvendo um trabalho de reconstrução mágica em seu blog que recentemente culminou em um manual, The Nine Moons, um treinamento passo-a-passo em magia num contexto Celta, rico em teoria e prática.
Mas, dirão alguns, porque magia? Se Arthur Clarke disse que "uma ciência suficientemente avançada é indistinguível da magia", isso significa que a ùltima pode ser substituída pela primeira e portanto está obsoleta?
A questão é que ambas não são a mesma coisa, nem em seus paradigmas e nem em seus propósitos -- como foi dito com muita sabedoria por Neil Gaiman no primeiro volume dos Livros da Magia,

"Ciência é o método de falar sobre o Universo com palavras que o definem numa realidade partilhada; Magia é a arte de falar ao Universo com palavras que Ele não pode ignorar".

E se uma das definições do Druidismo é a prática da intercomunicação entre a humanidade e o Mundo do qual ela faz parte, por essa definição todo Druida é um Mago, formalizando sua prática ou não -- só mais uma citação, esta de Peter Beagle em The Last Unicorn:

"Só para o Mago o mundo é sempre fluido, infinitamente mutável e eternamente novo: só ele conhece o segredo da mudança, só ele sabe que toda coisa anseia por se transformar em outra coisa, e é dessa tensão universal que ele tira seu poder".

Leitor, você ainda é o mesmo que era quando começou a ler isto?

Bendita a Magia, linguagem secreta do Mundo
Benditos os Magos, que por ela falam ao Mundo
Bendito o segredo da Mudança
que mantém o Mundo girando

domingo, 4 de dezembro de 2011

Ciência e Filosofia

Existe uma incompreensão mútua entre os campos da Ciência e da Religião que torna difícil o diálogo respeitoso entre ambas as vertentes -- e, como tantas outras formas de incompreensão, esta emana de pressupostos não-examinados que um lado tem sobre o outro: para os cientistas, a Religião foi a tentativa primitiva e errônea de explicar o funcionamento do mundo, descartada pela verdade maior da Ciência, e os religiosos sâo fanáticos que se ressentem pelo poder que perderam sobre as massas ignorantes; para os religiosos, a Ciência é uma visão estéril e equivocada do mundo que priva a este e à humanidade de um sentido maior para a existência, e os cientistas sâo neuróticos cujo ateísmo não passa da projeção de seus traumas com a autoridade sobre a presença de Deus
(Claro que há cientistas e religiosos que nâo são partidários de tamanho extremismo, mas mesmo esses, apesar dos espíritos desarmados, ainda encontram dificuldade para o diálogo)
E talvez o maior pressuposto oculto seja a visâo dualista da existência -- o mundo material é inferior e subalterno ao mundo espiritual, assim os religiosos teriam a primazia sobre os cientistas; claro, estes negam o mundo espiritual e se consideram superiores aos religiosos por lidarem com o real enquanto aqueles só tratam do imaginário...mas e se o dualismo fosse um engano? E se não houver uma separação entre matéria e espírito, entre corpo e alma?
Justamente essa é a visão de mundo do Druidismo, para a qual o Sagrado se manifesta na Natureza e é indistinguível dela: não por acidente, descobrimos que os Druidas unem em si ambos os campos, o religioso e o científico, sem fazer uma distinção clara entre os dois.
Segundo os cronistas, os Druidas (em especial os Ovates) se dedicavam ao estudo e ensino do que era chamado de "filosofia natural" e que hoje conhecemos como as ciências naturais; as propriedades das plantas, os comportamentos dos animais e aves, os padrões do clima, a astronomia -- eles podiam predizer eclipses do Sol e da Lua com precisão, postulavam a existência de montanhas na Lua, e segundo alguns desses cronistas eles sabiam como fazer a Lua baixar dos céus e dominar o raio, o que sugere que eles conheciam a astronomia óptica antes de Galileu e a eletricidade antes de Galvani e Volta (ou talvez a pólvora, de modo independente dos Chineses?).
O meio pagão moderno tem uma reação de desconfiança, até mesmo rejeição, diante da Ciência, pelos motivos já discutidos; muitos são os que dizem que ela "tira a beleza e o fascínio da Natureza" ao querer formular matematicamente suas leis -- mas quem ler um artigo como este, que prova que a Terra e a vida sobre ela são como sâo porque temos uma Lua grande em órbita, näo terá ainda mais motivos para olhar o crescente com admiração renovada, até mesmo gratidão?
Mesmo que muitos de nós não tenham uma vocação científica explícita, me parece que um conhecimento básico de ciências, hoje mais acessível que nunca, é essencial para quem segue o Druidismo, como afirmação da unidade indissolúvel do espiritual e do material, e como meio de lançar pontes sobre esse abismo enganoso que prejudica nossa civilização -- agora larguem o que estão fazendo e vão ver a Lua lá fora!

Bendita a Natureza e suas Leis ocultas
Benditos os que buscam conhecer essas leis
Bendito o Sagrado que nelas se revela
e torna o Mundo ainda mais belo

sábado, 3 de dezembro de 2011

Ética

No meio Neopagão moderno pré-Reconstrucionismo, era já um clichê dizer que "não há restriçôes morais" e que "se não prejudicar ninguém, faça o que quiser" e que "o que você fizer, retorna a você triplicado" -- e parava aí qualquer discussão sobre ética...
Quando os Recons começaram a explorar o que realmente se sabia sobre os Nórdicos, Celtas, Gregos, Egípcios, acabaram (re)descobrindo os códigos éticos que norteavam essas culturas, e a complexidade do que encontraram estava muito além do padrão costumeiro no Paganismo até então.
Desde máximas breves como:

"Honrar os Deuses, não fazer o mal, exercer a coragem"

Ou trechos de diálogos como:

"(Somos sustentados) pela verdade de nossos corações, pela força em nossos braços, pela fidelidade de nossas línguas"

Ou poemas como este:

"O rei verdadeiro, em primeiro lugar,
É inclinado para tudo o que é bom:
Ele sorri diante da Verdade quando a ouve,
Ele a exalta quando a vê"

Ou as coletâneas das Tríades:

"Três com quem temos dívidas que nunca serão pagas: nossos pais, nossos mestres, os Deuses"

Todos os exemplos descrevem algo que já foi chamado de "ética heróica", favorecendo virtudes mais enérgicas como coragem, honra, veracidade, hospitalidade, dando espaço para um orgulho pessoal sem falsa modéstia, e sempre enfatizando a relação do indivíduo com o clâ, tribo e terra como guiando sua conduta, algo bem diferente do que Nietzsche chamou de "moral do escravo".
A ADF adotou uma lista de 9 Virtudes gerais, e parte do treinamento dos Dedicantes é escrever sobre cada uma das 9 como seja entendida pelo candidato -- um dos meus entendimentos a respeito é baseado em Aristóteles, quando ele diz que uma virtude é a média harmoniosa entre dois defeitos: por exemplo, a coragem está entre a covardia e a temeraridade, o seu excesso é tão prejudicial quanto a sua falta, e isso se aplica a todas as virtudes concebíveis.
Porque não temos mais instintos sociais inatos que nos digam como nos relacionarmos uns com os outros, como os outros animais têm, os códigos éticos são essenciais à vida em sociedade, sem a qual o ser humano não sobrevive.
Mas uma diferença importante entre as fés pagãs, em especial as Indo-Européias, e as monoteístas, é que para nós os códigos morais não vieram dos Deuses, não temos um Moisés pagão que desceu do monte com a Lei já impressa para nós: os Deuses deixam claro nos mitos que apreciam a virtude e abominam o vício, mas deixaram a nós a responsabilidade de definir esses conceitos e formulá-los em regras de conduta para o nosso próprio bem e o dos outros, tendo em mente o princípio da reciprocidade que norteia a conduta Céltica.

Benditas as Leis que regem o Povo
Bendita a harmonia que delas deriva
Benditos os Deuses que nos deram
a liberdade de escrever nossas Leis

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Poesia

O termo "poesia" engloba mais que apenas um gênero literário -- vimos há pouco que ele se aplica até mesmo a atos conscientemente feitos -- mas aqui vamos nos ater ao sentido mais comum da palavra, levando em conta que o Druidismo é, talvez, a única religião que inclui a casta dos artistas bem no centro da ordem sacerdotal, a Arte como instrumento do Sagrado...
Imaginem-se como alunos num colégio tradicional da Ordem dos Bardos na Irlanda: aprendendo poemas verso por verso, um por aula, destrinchando sutilezas da métrica e rima de cada verso, e passando horas recolhidos em suas celas, no escuro, deitados com uma pedra sobre o peito, respirando ritmicamente enquanto o verso é memorizado e acrescentado aos já guardados no Santuário que Preserva, ao longo de doze anos de trabalho duro -- para no final ter dominado centenas de poemas e histórias, e as técnicas de memorização e de se abrir à Inspiração para compor novos poemas, que seriam acrescentados ao acervo pessoal do novo Bardo e, se fossem realmente bons, à memória coletiva da Ordem.
Os Bardos sobreviveram à nova ordem pós-cristã sem muita dificuldade, diferentemente dos outros dois ramos druídicos, porque os nobres ainda dependiam da presença de poetas em suas cortes para seu prestígio pessoal e o povo bebia cada palavra narrada por eles; ocorre-me, enquanto escrevo, que isso era uma estratégia cuidadosamente elaborada onde os Bardos atraíam a si a atenção de todos e ao mesmo tempo transferiam o acervo da cultura Celta à memória popular, enquanto os Druidas convertidos nos mosteiros cristãos transcreviam os mesmos poemas para os manuscritos sem serem perturbados no processo -- quem sabe?
E nós, modernos, onde entramos nisso? Numa época em que computadores e agendas atrofiaram a memória humana, que é uma pálida imitação do que a memória treinada dos Antigos podia fazer, ainda há lugar para os Bardos de antanho?
É só ver a importância que a música, melodia & verso, alcançou na cultura popular moderna, para constatar que a sede humana por poesia, por criar mundos com palavras cantadas, não se extinguiu e nem encontrou substitutos que suprissem as carências da Alma em nossa época -- só falta um ou mais Bardos que redescubram esse lado sagrado da Arte e tornem seu talento, ativado pela Inspiração, um veículo para ele.

Benditas as Palavras arranjadas com Arte,
Benditos os que proferem as Palavras,
Benditos os que ouvem as Palavras
e com elas alimentam suas almas

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Histórias

Todo seguidor do caminho druídico conheceu uma ou duas histórias que capturaram sua imaginação e apontaram que aquele era o caminho a seguir -- sejam os quadrinhos de Asterix e as poçôes do druida Panoramix, sejam os contos Arturianos e a presença misteriosa de Merlin, sejam as obras de Tolkien e o poder oculto de Gandalf, por via do Mito que essas histórias tornam manifesto, verdades que ocupariam dúzias de páginas num tratado acadêmico são reveladas em poucas imagens que vão ao mais fundo da alma sem que esta se aperceba.
Sabemos pelos cronistas clássicos que os Druidas originais em geral, e a ala dos Bardos em particular, memorizavam centenas de histórias onde verso e prosa se alternavam, histórias de heróis que serviam para perpetuar seus nomes à posteridade, histórias de grandes batalhas, paixões e tragédias, histórias que explicavam como certas localidades ganharam seus nomes, histórias morais com exemplos de reis virtuosos e seus ensinamentos, e muitas mais.
E todas, pela tradição druídica, não-escritas, mas apenas memorizadas:

"O que é o Santuário que Preserva? É a memória, e o que ela guarda"

Um Bardo bem treinado nunca contava a mesma história duas vezes do mesmo jeito -- as partes em verso eram recitadas exatamente como haviam sido aprendidas por ele, sem mudanças, mas as partes em prosa podiam variar, ser abreviadas ou prolongadas, detalhadas ou resumidas, enfatizadas aqui ou ali, de acordo com o clima da platéia, a história da tribo que o ouvia, ou a Inspiração do momento.
Uma história assim narrada, sempre a mesma mas sempre mudando, era um ser vivo em si mesma, em renovação perpétua, e era isso que os Druidas queriam com a proibição da escrita: que, ao se abrigar no coração vivo do Bardo, a vida interior das histórias despertasse e respirasse em ciclos vitais de mudança; foi só após a cristianização que a proibição foi suspensa e as histórias foram, pela primeira vez em séculos de existência, postas no papel (pelas mãos de Druidas e Bardos entrados no seio da Igreja nascente, sabendo que o caminho oral estava fadado a terminar e desejosos de preservar as histórias, mesmo que na forma fossilizada do texto escrito), e é graças a isso que nós, herdeiros modernos deles, pudemos receber nossa herança (ainda que só em parte: estima-se que, de todos os manuscritos em mosteiros e bibliotecas da Irlanda, pouco menos de 25% foram traduzidos do Irlandês Antigo para alguma língua moderna!)
Agora só nos resta o laborioso processo de reviver as histórias a partir dos fósseis ressequidos no papel -- recitar, repetir e recordar, acalentá-las no calor de nosso coração, regá-las com lágrimas de alegria e tristeza, e soprar nelas o fôlego da Vida para que renasçam em nós, e nos contem seus segredos ocultos, e que em tempo as passemos a outros que lhes dêem abrigo em suas almas.

Benditas as Histórias e quem as conta
Bendita a Vida que respira nas Histórias
Benditos os que ouvem as Histórias
e as preservam em suas vidas

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Meditação

Como contraponto à extroversão dos ritos, devoções e criação inspirada (que formam o lado visível do caminho druídico), torna-se necessário ter um pouco de introversão, recolhimento, serenidade que equilibrem o todo, e é aí que entra a meditação.
A imagem do Druida vestido de branco e sentado em contemplação à sombra do grande carvalho nos vem tão naturalmente ao espírito que parece estranho que os historiadores Gregos e Romanos que os conheceram diretamente não tenham deixado nada escrito sobre isso...
Um texto irlandês sobre cura datado do período medieval diz que nas casas de cura (descritas como amplas, arejadas e com água corrente à mão), após o banho de vapor (não dessemelhante à tenda do suor xamânica) os pacientes eram encorajados à prática de dercad, ou contemplação, para alcançar um estado de sítcháin ou paz -- Jason Kirkey notou que "sítcháin-dercad" tem virtualmente o mesmo sentido que a expressão shamatha-vipassana, que descreve uma técnica específica de meditação Hindu e Budista onde apenas se observa a respiração e ocasionais pensamentos que se intrometam nessa observação.
Na AODA, a ênfase é dada à meditação discursiva, onde se escolhe um tema específico (uma frase, um símbolo, um conceito) e os pensamentos que surgem devem se ater apenas ao tema escolhido, sem digressôes -- essa prática tem suas raízes no Renascimento Druídico do século XVIII, e veio às Ordens druídicas fundadas naquela ocasião a partir de manuais de meditação devocional da Igreja Anglicana, mas isso não tira a validade nem desmerece a eficácia da prática em si.
Grupos mais ligados aos Culdees, os Cristãos Celtas primitivos, se dedicam à prática da recitação de "mantras", frases repetidas em Irlandês, com o uso de rosários para manter a contagem.
Eu criei uma prática meditativa baseada em Nove Palavras em Irlandês, Galês e Gaélico, que às vezes faço com um rosário de 27 contas, 3 grupos de 9, mas na maioria das vezes apenas entôo as Palavras -- no entanto, uma meditação favorita à qual recorro com frequência é a de ouvir o silêncio: concentro a atenção no fato de haver silêncio dentro de meus ossos, vou expandindo o foco para fora do corpo e à volta dele, e logo o mundo é um campo de silêncio que os sons atravessam de lá para cá como peixes no oceano, e logo eles se tornam irrelevantes diante da beleza do Silêncio, que é o outro lado da Grande Cançâo e participa dela...

Bendita a Paz e a sua Contemplação
Bendita a Mente atenta ao Pensar
Benditos os Sons que guiam a Mente
ao Silêncio que tudo sustenta

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Inspiração

Mais uma definiçâo do Druidismo: o caminho da busca da Inspiração...
Esse é um tema caro aos Druidas, antigos e modernos -- a Inspiração, que os Galeses chamam de Awen, o Espírito Fluente, e os Irlandeses de Imbas, visto como o Fogo-na-Água, e que, como suas imagens e metáforas dão a entender, reúne em si opostos aparentemente irreconciliáveis e forma com eles algo diferente e maior que a soma de ambos.
Philip Carr-Gomm escreve em The Druid Way que uma diferença entre o Druidismo e a Wicca é que esta tem como tema mágico central a união das polaridades Deusa/Deus, Lua/Sol (conforme simbolizado no Grande Rito), enquanto aquele enfatiza mais o fruto da energia gerada nessa união (às vezes simbolizado pelo Mabon, a Criança Divina), que é a Criatividade em todas as suas formas.
Há quem favoreça uma abordagem mais "quietista" da Inspiração, preferindo sentar em silêncio e esvaziar a mente à sua espera; mas parece que métodos mais ativos são possíveis.
Erynn Rowan Laurie, poetisa/Fíli e uma das fundadoras do Reconstrucionismo Celta, traduziu do Irlandês o poema do século VI "O Caldeirão da Poesia", supostamente atribuIdo ao lendário poeta-Druida Amergin, que descreve um sistema de três caldeirôes no organismo psicofIsico humano bastante similar aos chakras Indianos, e cuja ativação permite acessar e recolher em si o fluxo da Inspiraçâo -- aparentemente a ativação implica tanto em respiração rítmica quanto num trabalho quase alquímico de processamento e transmutação de duas emoçôes fundamentais, a tristeza e a alegria.
Por outro lado, talvez seja bom lembrar que a Inspiraçâo não é necessariamente um estado etéreo e contemplativo: o que Amergin descreveu em sua Canção como o "fogo-na-cabeça" e que um cronista medieval em visita ao País de Gales chamou de "furor visionário" deve ser abordado com certo cuidado -- não é à toa que a poçâo do caldeirão de Ceridwen queima o dedo de Gwion Bach e seus restos envenenam o riacho quando o caldeirão estoura!
O que estou fazendo ao escrever os 30 Dias é fruto da Inspiração no seu melhor: assim como todos os que participaram do II Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta, entre 12 e 14 de Novembro deste ano, como consequência das energias circulantes no evento fui "fecundado" pela Inspiração e ela flui sem cessar: estou escrevendo estes textos a todo e qualquer momento mais tranquilo, as palavras escorrem de meus dedos para o teclado, e acho que se deixasse o processo correr desimpedido acabaria escrevendo todos os 30 textos em menos de 10 dias sem dificuldade alguma...
E talvez devesse deixar claro que a Inspiração não pressupõe apenas obras de arte: um Druida pode ser escritor, cozinheiro, psicoterapeuta, músico, advogado, tanto faz -- a Inspiração se manifesta a cada um com aquilo que mais necessite e sempre dá frutos na vida de quem a receba.

Bendita a Inspiração sempre-fluente
Benditos os que se abrem a seu fluxo
Benditos os frutos da sagrada uniâo
entre o Fogo e a Água

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Roda do Ano

O Neopaganismo (se é possível falar de todas as suas vertentes como se fossem a mesma coisa) data o conceito da Roda do Ano de sua fundação, concebida por Gerald Gardner (o pai da Wicca) e seu amigo Ross Nichols (fundador da OBOD), onde o ciclo das estações se fundiu com as 4 Festas Célticas num todo coerente que, pelas evidências de que dispomos, nunca existiu antes do trabalho deles.
Num contexto Europeu de clima temperado com quatro estações bem definidas, a Roda gira a contento -- mas quando ela é trazida para outros países ou mesmo hemisférios, a coisa muda: como celebrar Imbolc em fevereiro no Brasil e dizer no rito "agora o Inverno começa a perder força" no calor bestial do auge do Verão? Como trazer o simbolismo da morte e dissolução do Samhain em Novembro, em pleno renascer da força vital, só porque o dia de Finados abre o mês? Que sentido há em chamar o Lughnasad de "festa da colheita" quando no Brasil em todo mês há a colheita de alguma verdura/fruta, sem cessar o ciclo? E a região Amazônica, que só conhece duas estações, a seca e a chuvosa, onde coloca os Festivais?
Há quem insista em seguir a Roda do Norte aqui por questão de tradição, e que não veja sentido em celebrar o Samhain em maio se Finados permanece em novembro; há quem inverta tudo e crie a Roda do Sul, mas que precise brigar com a incongruência de festejar o calor e a vitalidade do Beltane quando família e amigos estão mais no clima de Finados; há quem faça a Roda Mista, com as estações pelo Sul e as festas Celtas pelo Norte; e há quem deixe a Roda de lado para seguir outros calendários rituais, ou adapte as datas fixas da Roda de acordo com a sua bioregiâo -- o Lughnasad na caatinga, na Amazônia, no cerrado e no litoral vai necessariamente ser celebrado de modo diferente e em datas diferentes, e isso é bom.
Meu grupo, o Ramo de Prata, celebrava as estações de acordo com o clima, mas na hora das festas Celtas tivemos a Inspiração de comemorá-las como pólos complementares: Imbolc e Lughnasad são ambos festivais de Divindades das Artes (Brighid e Lugh) que dominam a Água (o poço de Brighid, a chuva de Lugh) e o Fogo (a chama de Brighid, o raio de Lugh), e do mesmo modo Beltane e Samhain são festivais nos quais a passagem entre este mundo e o Outro-Mundo se abre, onde o Dagda, que guarda a Vida, se une à Morrighán, que rege a Morte, e as almas dos falecidos e nascituros cruzam os caminhos entre os mundos sob a proteção de ambas as Divindades -- parece estranho ler isso escrito assim, mas garanto que quem esteve presente numa de nossas cerimônias e sentiu a polaridade unindo extremos da Roda não esquecerá tão cedo...
Quanto a mim, eu observo as estações desde antes de saber que o meu caminho se chamava Druidismo: beber o suco das amoras e cheirar o perfume do manacazinho da Primavera, comer as pitangas e colher as flores do flamboyant no Verão, coletar os cachos de uva-japonesa e as folhas caídas do plátano do Outono, ver as flores da azaléia enquanto ceifo a erva-de-passarinho no Inverno eram todas ações que faziam parte da minha vida desde sempre, e que depois foram conscientemente ritualizadas para serem seguidas até hoje.
Como em tantas coisas da prática druídica, não há uma solução que sirva a todo mundo, mas sim inúmeras oportunidades de prestar atenção no mundo à nossa volta e notar o que realmente está ocorrendo, em vez de seguir um calendário abstrato e arbitrário, e interagir criativamente em diálogo com esse mundo em mutação.

Bendito o Ano que gira na Roda
Benditos os ciclos de Vida e Morte
Benditos os que vêem em cada giro
a obra dos Deuses

domingo, 27 de novembro de 2011

Ritual

"Ritual é poesia no mundo das ações"

Essa frase de Ross Nichols descreve bem a natureza do ritual: na poesia, palavras são arranjadas de um modo específico com o objetivo de evocar uma resposta emocional específica no público; no ritual, as ações e o simbolismo nelas expresso tomam o lugar das palavras, e o público aí abrange os participantes visíveis e invisíveis do mesmo.
Outra definição é que o ritual é o mito tornado visível -- há um mito detrás de cada rito, há um rito implícito no relato de cada mito -- e se, como já foi dito, um mito se passa fora-do-tempo, o rito o torna manifesto no aqui-e-agora para que nós, que existimos no tempo, tenhamos acesso a ele.
Sendo o ritual poesia, e portanto linguagem (na qual nós falamos ao Sagrado e o Sagrado fala a nós), é necessário aprender o seu "vocabulário" primeiro: mitos, histórias, arqueologia, fantasia, fornecem as imagens e conceitos que serão articulados na forma de atos durante o rito.
Por exemplo, no meu rito matinal, no altar da cozinha, eu começo derramando água no cálice, e isso evoca as Águas primordiais fluindo do abismo universal para iniciar a Criação; acendo a vela, e isso é a descida do Fogo Celeste que é a centelha de Vida; toco a coluna da parede, e estabeleço a Árvore do Mundo como o Eixo em volta do qual o Mundo se organiza; volto-me às Direções (leste, oeste, norte, sul, acima, abaixo, centro) e defino os limites universais; invoco os Deuses, Ancestrais e Espíritos, que povoam e ordenam o Cosmos recém-criado; agradeço e encerro -- e aí posso usar a Água para abençoar a água do chá, que então aqueço no fogão que foi aceso a partir do Fogo, e à qual acrescento as ervas consagradas pela Árvore, e assim os 3 Reinos estão unidos na minha xícara: ou seja, a cada manhã eu recrio o Mundo de novo, e por este ato abençôo o meu desjejum e o dia que se inicia (e antes que alguém pergunte, esse rito não demora mais que um minuto completo -- não são necessárias horas de incessante recitaçâo de versos em alguma das línguas Celtas!)
Claro, um ritual como este pressupôe um altar doméstico, tempo, privacidade e silêncio para ser executado como o descrito: e se um desses fatores, ou todos, faltarem, isso significa que não é possível fazer rituais?
Pensem naquela meditação do sangue e dos 3 Reinos...agora, imaginem que ela seja aplicada à xícara de chá (ou café) que vocês recebem de manhã em casa ou tomam na padaria da esquina ou ao chegar no trabalho, com as visualizações correspondentes e recitada mentalmente em alguns segundos: feita com a intenção correta, essa cerimônia é tão eficaz quanto a outra (e conta com a vantagem de poder ser feita diante de outras pessoas sem atrair atenções indesejadas!)
Diversidade, aí, continua sendo a palavra-chave: cada um de nós vive em condições de vida diferentes, e a solução que serve para uns não vai ajudar aos outros, assim sendo cabe ao indivíduo observar seu ambiente e rotina de vida e ver o que pode ser modificado para facilitar a prática e o que não vai mudar e exige que o indivíduo se adapte à situação do melhor modo possível, sabendo que de qualquer modo Deuses, Ancestrais e Espíritos dão valor maior à boa vontade de quem tenta se aproximar Deles como puder.

Bendito o Rito, forma visível do Mito
Bendito o Sagrado presente em cada Rito
Bendita a linguagem na qual o Sagrado
se expressa diante de nós

sábado, 26 de novembro de 2011

Espíritos da Natureza

Provavelmente o culto dos Espíritos da Natureza é o mais característico do meio pagão em geral e druídico em particular (pois todas as crenças, mesmo as monoteístas, adoram a Divindade e de algum modo honram aqueles que se foram, mas só as de cunho animista reconhecem que a Natureza é povoada de seres de outra ordem de existência e lhes prestam reverência).
Mas essa questão é, talvez, a mais mal-compreendida e sujeita a distorções e erros de todo o tipo, talvez porque Eles se manifestam como sendo Outros, num estranhamento mútuo que levou nosso relacionamento com Eles a ser, digamos assim, mais tumultuado que com os Deuses ou os Ancestrais.
Por exemplo, o que há de comum entre os altos, lascivos e ferozes Sídhe das colinas da Irlanda e as minúsculas fadinhas da era Vitoriana, de asas de borboleta e véus de gaze?
Porque a tradição da Irlanda é ambivalente quanto a Eles, aconselhando a lhes ofertar leite com mel na soleira da porta de casa para atrair suas bênçãos mas evitando a todo custo chamá-los pelo nome "fadas" e usando eufemismos como a Boa Gente, o Povo das Colinas, em seu lugar?
De que modo os contos de Perrault e dos irmãos Grimm vieram a chamar as entidades benfazejas que ajudam Cinderela e a Bela Adormecida de "fadas madrinhas", quando o folclore irlandês registra dúzias de orações e simpatias cujo único propósito é evitar que os bebês recém-nascidos sejam raptados pela Boa Gente?
Porque Morgana, irmã do rei Arthur, é sempre chamada de Fada (e até hoje a miragem das costas do Adriático, que pôe em risco a navegação, é chamada pelos marinheiros de "fatamorgana")?
Autores como R.J.Stewart e Kathryn NicDhàna observaram com muita propriedade que as Gentes não são um grupo monolítico e coerente, mas sim incontáveis tribos diferentes, algumas delas declaradamente hostis aos humanos, outras amigáveis e até dispostas a trabalhar em conjunto com eles, e uma maioria que alterna entre a curiosidade e a indiferença por nós -- aí caberia o discernimento, por parte do humano interessado, de saber claramente que tipo de ser ele está contatando dentre a Boa Gente e como lidar com ele, e levando em conta que nós somos tão "alienígenas" para eles quanto eles para nós, e que por isso eles podem nos causar dano sério com a maior das boas intenções justamente por causa dessa ignorância básica sobre nós, sem qualquer má-fé implicada -- como diz o ditado, "prevenido é preparado"
Mas o mundo dos Espíritos da Natureza inclui outros seres: por exemplo, as entidades animais, vegetais e minerais que o xamanismo chama de Aliados de Poder são desta ordem, e após milênios de interação com os xamãs um protocolo de cooperação mútua e um sentimento de boa vontade entre ambas as partes já está bem estabelecido e oferece um caminho seguro para quem quiser seguir (desde que com a devida orientação); dentro de certa medida, o mesmo vale para os Elementais da Magia Cerimonial ou os Devas da Teosofia.
O que eu posso dizer é que, quando criança, eu sabia que podia chamar o vento ao abrir os braços devagar, e ele sempre vinha -- eu tinha a intuição que não era coisa minha, mas de um Outro que fazia o vento e vinha ao ser chamado pelo gesto -- e hoje ele é um dos seres com que eu cultivo um relacionamento, sabendo dele nome, símbolo e tudo, mas não os conto a ninguém (as lendas dizem que se o humano trai a confiança da entidade e revela seus segredos, o vínculo se rompe e a entidade se afasta, com sorte sem retaliação...).
Só posso dizer, a quem se interessar em seguir o caminho de um relacionamento mais profundo com a Natureza, que se escolher bem seus guias e tratar a relação de modo honrado, as portas do Outro-Mundo se abrirão...

Bendita a Natureza e seus Espíritos guardiâes
Benditos os Espíritos e aqueles que os amam
Benditos os vínculos de confiança mútua
a serem tecidos entre nós e Eles

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Ancestrais

No meio druídico, costumamos falar não de um tipo de Ancestrais, mas de três: os do Sangue, de quem viemos, os da Terra, que habitavam aqui antes de nós, e os do Espírito, todos os que contribuíram para a nossa formação -- ou, na liturgia do meu grupo,

"Ancestrais do Sangue,
Cujos ossos formaram os nossos,
Ancestrais da Terra,
Cujos ossos são o solo que pisamos,
Ancestrais do Espírito,
Em cujos ossos a Sabedoria foi escrita"

Mas há dois aspectos, um material e um espiritual, que raramente são abordados nessa questão dos Ancestrais...
Primeiro, façam as contas comigo: cada pessoa viva teve 2 pais (2 elevado a 1, ou 2^1), 4 avós (2^2), 8 bisavós (2^3) e assim por diante, mais ou menos 3 gerações por século -- o problema é que, ao chegarmos na trigésima geração (2^30), lá pelo século XI, o número resultante é muito superior ao da população mundial da época...e o que significa isso? Apenas que houve superposiçäo das árvores genealógicas, com consanguinidade associada, e assim dois estranhos juntos no elevador hoje tem com certeza matemática centenas de ancestrais em comum -- claro, quanto mais se recua no tempo maior é a comunhâo ancestral, até culminar na Eva Mitocondrial, a Ancestral comum a todos os humanos hoje vivos...
Segundo, geralmente o culto aos Ancestrais pressupõe que todos eles estão juntos no Outro-Mundo, numa comunidade coesa e sempre crescente; mas, se a reencarnação for uma realidade (e há controvérsias no meio druídico sobre isso), então boa parte deles voltou ao nosso mundo e talvez ande entre nós, talvez até como nós mesmos, talvez volte em breve como nossos filhos e netos -- uma frase da OBOD, citada por Philip Carr-Gomm, diz

"As canções de nossos ancestrais são as canções de nossos filhos"

...e então, como ficamos diante disso tudo?
Eu faço oferendas aos Ancestrais toda Lua Nova, e rezo a eles agradecendo por minha vida e pelo que de bom me ocorreu, e rezo por eles, onde quer que estejam, aqui ou lá do outro lado; mas agora vejo que, quando honramos os nossos Ancestrais, honramos os de todo mundo também, incluindo a Eva, cujos ossos dormem na Terra, cujos genes circulam em nosso sangue, e cujo espírito segue rumos desconhecidos...

Benditos os Ancestrais, Sangue, Terra, Espírito
Bendita a Fonte comum a todos que vivem
Benditos os laços que unem vivos e mortos
numa Família diante do Sagrado

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Divindade e Crença

Para falar das Divindades, näo vou falar dos panteôes dos povos Celtas, mas vou fazê-lo por um caminho algo tortuoso, para o que peço a paciência de quem me ler.
Dizem que uma imagem vale por mil palavras...






Pergunto: quais são as cores do arco-íris?
Se os que me lêem são ocidentais modernos, como deve ser o caso, dirâo "sete": vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil, violeta -- no entanto, esse "meme" das 7 começou com Isaac Newton, criador da moderna teoria do espectro das cores, e que estabeleceu o número sete para fazer par com as sete notas musicais e os sete planetas clássicos.
Goethe, criador de uma teoria alternativa das cores, diria "seis" com a exclusão do anil.
Chineses, e depois os Japoneses, diriam "cinco", fundindo azul e violeta, fazendo par com os cinco Elementos do Taoísmo e as cinco notas da escala pentatônica.
Os Nórdicos antigos, falando da Bifrost, a Ponte do Arco-Íris, diriam "três", vermelho, amarelo, azul.
Um certo povo aborígine (cujo nome sabia, mas esqueci) diria "duas" -- sim, o vocabulário de cores deles se resume a "cor quente" e "cor fria" (ou "vermelharanjamarelo" e "verdazulanioleta").
Portadores do daltonismo completo diriam "uma" -- o arco-íris para eles é uma faixa cinza luminosa e sem gradação perceptível.
Cegos não responderiam, pois a questâo está fora do seu universo cognitivo.
Onde quero chegar com isso?
Bem, se para falar de um fenômeno físico objetivo, de cuja existência real ninguém discorda, que pode inclusive ser fotografado e filmado, não existe um consenso estabelecido que dê uma resposta única à minha questão, é de se estranhar que ao abordar o Sagrado, cuja mera existência é foco de controvérsia, o desacordo seja ainda maior?
Politeístas vêem o Divino como Muitos (discordando do número exato), Católicos e Hindus de alguns grupos o vêem como a Trindade, Zoroastrianos e Wiccanos são duoteístas, Judeus e Islâmicos falam do Único Deus, ateus negam a Divindade...
Eu sou politeísta exclusivo, não consigo perceber o Divino sem ser no plural (e isso desde a infância, ao reconhecer os deuses Gregos nos livros de Monteiro Lobato como sendo algo que eu já conhecia); no entanto, depois que a Inspiração me mandou essa idéia do arco-íris, ficou mais fácil para mim compreender as crenças dos outros, mesmo não sendo as minhas -- agora, para mim, "crença" é apenas o filtro pelo qual nossa consciência tem acesso ao Sagrado, e o meu filtro não tem porque ser melhor ou pior que o dos outros, é apenas o meu; agora, juízos de valor não tem mais razão de ser, porque mais importante que a crença é a experiência viva do Divino e a reação universal diante dele:

"Pois foi em redor da Liberdade que os homens travaram suas batalhas; por oposição, ante a face da Beleza, todos os homens estendem as mãos uns aos outros como irmãos"
(Khalil Gibran)

Bendito o Divino, real em Si Mesmo
Bendita cada crença que revela o Divino
Bendita a diversidade de crenças,
Pois uma floresta é feita de todo tipo de árvores

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Prática Diária

Uma coisa que muita gente pergunta aos que seguem o Druidismo: "Tá bom, vocês tem esses oito Festivais no ano -- e nos intervalos, vocês não fazem nada?"
Concordo que as grandes cerimônias, os mitos sazonais, as oferendas, música, dança, comida (e bebida...) que caracterizam os Festivais são pontos altos do ano cerimonial, mas se fosse só isso que o Druidismo tivesse para oferecer, seria o caso de perguntar se essa religião vale a pena...
Como foi dito, com muita propriedade, por uma famosa Druidesa do Pará, nem todos os seguidores do Druidismo tem uma vocação para serem Druidas e viverem em grandes ritos; guerreiros, bardos, artesãos, curandeiros, donos-de-casa tem seu lugar no Bosque Sagrado, e todos esses caminhos se fundamentam nas práticas diárias de cada um.
Imaginem uma cultura onde cada ação, por mínima que fosse, do despertar cedo ao adormecer, fosse pontuada por pequenas preces, gestos do dia-a-dia como acender a lareira de manhâ e apagá-a à noite, comer, beber, estrear uma roupa nova, ver o primeiro fio da Lua Nova, etc, etc, etc...
Pois bem, isso era a prática corrente das aldeias da Escócia no século XIX, quando Alexander Carmichael saiu de povoado em povoado, puxando conversa com pastores de ovelhas, tecelãs, ferreiros, padeiras, e recolhendo todas as orações de que eles se lembravam, numa coleção -- a Carmina Gadelica -- que é leitura essencial para quem segue um caminho Celta e quer aprender a encher seus dias e noites da presença do Sagrado:

"Saudações eternas a ti,
ó Lua Nova, nesta noite,
Pois tu és para sempre
A alegre lanterna dos pobres
"
(Oração da Lua Nova)

Algumas pessoas, além das orações, sentem falta de algo visível/palpável que as ajude a se lembrar da sacralidade do dia-a-dia, e para essas o altar doméstico é uma boa opção: não é necessário ter dúzias de objetos e centenas de estátuas (nunca é demais lembrar que os Celtas só começaram a fazer imagens dos Deuses após a romanização, e ainda assim raramente), mas algo simples como o Fogo (vela/incenso), Água (cálice) e Árvore (vaso de flor, ramo colhido, escultura), evocando os 3 Reinos, já basta como estrutura básica: uma central de símbolos diante dos quais a mente se aquieta e redescobre o Sagrado ali e em si mesma, em preces matinais e/ou no final do dia, em oferendas de comida, bebida, flores, incenso, poemas/canções...
Além dessas práticas gerais, outras se agregam à lista de acordo com o caminho individual do praticante: um Guerreiro pode oferecer uma hora de treino de arte marcial a Morrighán, um Bardo pode fazer votos de escrever um poema por dia em nome de Oghma, um devoto de Brighid pode fazer a vigília do Fogo Sagrado em seu nome, um Druida pode se dedicar a memorizar uma Tríade por dia...
Não haverá quem tenha uma prática igual a de outra pessoa (o que seria sinal de uma falta de imaginação indigna de quem professe seguir o Druidismo!), mas todas, diferentes como sejam, simples ou complexas, só se justificam se levarem os que as praticam a despertar a consciência da Presença em cada momento do dia.

Bendito meu dia quando desperto
Bendito tudo quanto nele fizer
Bendita minha noite quando me recolho
E meus sonhos, até o Sol nascer

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Espaços Sagrados

Eu iria falar aqui sobre Stonehenge, Newgrange, Tara, Glastonbury e tantos outros lugares ditos sagrados, mas outras pessoas já o fizeram melhor que eu -- a questão dos espaços sagrados, sejam domésticos (altares) ou exteriores (santuários), não pode ser entendida se não pararmos agora e analisarmos um ponto importante.
Mais uma vez, quando olhamos com olhos de Druida a palavra "sagrado", o que vemos aí? Nada menos que o pressuposto que o grande Mircea Eliade descreve quando fala que o sagrado se distingue do profano e é por ele definido -- ou seja, há lugares, objetos, seres e situações "não-sagrados", e o mundo é um oceano de profanidade com esparsas ilhas onde o sagrado se manifesta...
Muitos foram os que perceberam isso antes de mim, claro, mas acabaram caindo no erro oposto de achar que "tudo é sagrado" (e até mesmo atribuir essa visão de mundo aos Celtas antigos!) -- no entanto, como disse um sábio, "se todo mundo é especial, isso significa que ninguém é".
"Mas", dirão vocês, "o sagrado existe, há uma grande diferença entre o que eu sinto diante do meu altar e passando pelo depósito de lixo perto de casa!"
Sim, a experiência do sagrado, do numinoso, da Presença é real, até mesmo para leigos totais no assunto: porém, me parece que a questão foi descrita de modo certeiro e irretocável por Aldous Huxley:

"Se as portas da percepção fossem abertas, tudo pareceria ser como é, infinito"

Ah, então é uma questão de saber ver?
O grande bardo William Blake dizia:

"Para ver o Mundo num grâo de areia
e o Paraíso numa flor silvestre,
Segura o Infinito na palma da mâo
e a Eternidade numa hora"

Agora vemos que ambas as visôes descritas no começo são viáveis em si mesmas e compativeis entre si -- tudo é sagrado, mas nós às vezes não sabemos ver do jeito certo e aí fazemos distinção entre sagrado e profano.
Já foi dito no meio druídico que o Outro-Mundo não é mais que este mundo quando visto com outros olhos; do mesmo modo, o que distingue os santuários mencionados nas primeiras linhas deste texto dos outros lugares "comuns" é que lá, por uma série de fatores, é mais fácil ao observador olhar-de-outro-modo e perceber a Presença manifesta -- se ele fizesse a mesma coisa, digamos, na cozinha da sua casa, ele a descobriria como um lugar sacrossanto, o Santuário do Fogo do Lar, e essa experiência mudaria o modo como ele se comporta ali (talvez ele passasse a rezar antes de cozinhar ou comer, talvez criasse um minialtar numa prateleira da janela, quem sabe?)
E por esse prisma, vemos que não existe "consagração", o ato ritual de tornar sagrada alguma coisa: o rito, se for bem feito, apenas nos desperta a atenção para a sacralidade já presente ali, da qual nos havíamos esquecido ou ignorávamos, e essa atenção abrange o celebrante e os presentes ao rito -- o que é um dos motivos pelos quais a tradição druídica de ritos abertos ao público é fundamental no processo de educar a consciência coletiva sobre a verdadeira natureza da Natureza, e mostrar que coisas simples como recolher o lixo num parque são cerimônias sagradas para quem sabe ver-com-olhos-de-Druida.

Bendito o Sagrado, que é em toda parte
Benditas as partes onde o Sagrado se revela
Benditos os que sabem que o Sagrado
é Aqui e Agora

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Elementos

"Eu me levanto hoje pela Força do Céu,
Luz do Sol, Radiância da Lua,
Esplendor do Fogo, Velocidade do Raio,
Leveza do Vento, Profundidade do Mar,
Estabilidade da Terra, Firmeza da Rocha
"

(Lorica de São Patrício, 433 d.C. )

Como se pode ver, nem mesmo a Cristandade pôde tirar do bom Padraig a Celticidade no que ela tem de mais pagâo, a comunhão com o mundo natural, que é visto como bom, como tudo o mais que Deus criou.
Essa é a versão mais conhecida de uma lista de Elementos que compõem o mundo, que em outras versões tem 7, em um caso raro 11, mas que geralmente os lista como sendo 9 no total; as listas, independentemente de seu tamanho, em sua maioria correlacionam cada Elemento a uma parte do ser humano, num paralelo macrocosmo-microcosmo:

Céu--cabeça
Sol--face
Lua--mente
Vegetaçâo--cabelo
Nuvem--cérebro
Vento--respiração
Mar--sangue
Terra--carne
Rocha--osso

Algumas listas, como essa, incluem a Vegetação excluindo o Fogo: quando ele é incluído, seu correspondente é às vezes o olho, às vezes a alma; do mesmo modo a Nuvem e o Raio são intercambiáveis, embora aqui haja uma relação mais óbvia entre eles...Uma versão num manuscrito medieval, as Sete Partes de Adão, pôe o Espírito Santo como relativo à alma, e faz a interessantíssima proposição pela qual o Elemento que predominar na constituição do indivíduo também determina seu caráter, numa classificação tipológica peculiar (se a Rocha, melancólicos, se o Vento, instáveis, etc).
Mas olhemos essa lista de perto, com olhos de Druida...se os ossos, por exemplo, são as Rochas do corpo humano, as rochas são os Ossos do Mundo, não é?
Se estendermos isso aos outros Elementos, surge a imagem do Mundo como um gigantesco organismo -- essa imagem, na cabeça de vários autores acadêmicos e praticantes do Reconstrucionismo Celta, parece apontar para a possibilidade de que o desconhecido Mito da Criação Celta incluísse uma cena onde uma Divindade sacrifica Outra e usa as partes do Seu corpo para criar o Mundo e tudo o que há nele (os Nórdicos tem um paralelo no mito em que Odin e seus irmãos sacrificam o gigante Ymir e do seu corpo formam os Nove Mundos de Yggdrasil, e outras culturas Indo-Européias também apresentam o mesmo tema mítico, que é na verdade universal, como os mitos de Tiamat e P'an Ku demonstram)
Os 9 Elementos são uma parte central da minha prática, e eu os associo a inúmeras coisas que não constam das listas atestadas historicamente: para mim cada Elemento faz par com um número, cor, ave, animal, Divindade, planeta, virtude moral, função psíquica, sistema orgãnico, dia, hora, mês, ano, direção, festival da Roda do Ano, etc, etc, e enquanto eu for honesto e separar o que é fato histórico e o que é GPN minha não há mal nesse processo de adaptação para o uso moderno -- para o qual, aliás, eu convido a todos aqui: vão, criem suas listas, aprendam a ver os mil laços invisíveis que nos ligam com tudo o que há!

Benditos os Elementos, que dão forma ao Mundo
Benditas as minhas partes, que a Eles correspondem
Benditos os vínculos pelos quais eu sou Um com o Mundo
E o Mundo vive em mim