segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Excelsior


E hoje ele partiu para as terras dos Ancestrais no Outro-Mundo.
E hoje muitos são os que choram sua morte, e relembram seu legado.
Já disse antes, o Druidismo é possivelmente a única religião que inclui as Artes no centro da instituição sacerdotal, é no caminho do Bardo que a formação do Druida tem seu início, porque é pela Arte que idéias e ensinamentos são passados de uma geração à outra, e é por isso que acho que Stan Lee merece ser contado entre os Bardos desta era.
E o que o mestre da Casa das Idéias (o apelido da Marvel Comics) ensinou?
Antes dele, todos os heróis da literatura popular tinham raízes no Pimpinela Escarlate da baronesa Orczy – um espadachim aventureiro e anti-revolucionário que se escondia sob a aparência frívola e inofensiva de sir Percy, um nobre inglês ostensivamente ridículo que ninguém, nem mesmo sua esposa, suspeitaria capaz de heroísmos e coisas que tais; claro, vocês reconhecem a fórmula, sujeito tímido X herói destemido, esta é a origem do Zorro, do Sombra, do Superman e do Batman, e este era o padrão até Stan e seus mosqueteiros Jack Kirby e Steve Ditko subverterem o tema.
O Homem-Aranha também, à primeira vista, contrapõe o nerd tímido Peter Parker a seu alter-ego lançador de teias, mas aí, pela primeira vez, a balança pende para o lado humano: onde o Superman é o indivíduo “real” e inventa Clark Kent como um disfarce para andar no mundo humano, Peter é inescapavelmente humano e sujeito a todo tipo de vicissitude (em uma fase clássica, ele alternava combates contra supervilões com doses de antiácidos para uma úlcera gástica de stress!) e ser o Homem-Aranha era mais uma fonte de problemas e dificuldades em sua vida já complicada, e era apenas por pura responsabilidade que ele mantinha sua missão heróica.
A Marvel criou uma legião de fãs conquistados por esses heróis de face humana, quase todos eles desajustados sociais que acabavam encontrando suas famílias verdadeiras uns com os outros, como o Quarteto Fantástico ou os Vingadores, e chegando ao auge com a apologia da diferença manifesta nos X-Men em sua luta por aceitação e respeito.
Heróis de todos os gêneros, raças e nacionalidades, de todas as linhas políticas e orientações sexuais, de todas as faixas etárias, gente-como-a-gente, feitos à imagem e semelhança da Humanidade em cujo nome lutavam, e que, ao se reconhecer neles, podia despertar para seu próprio e insuspeitado heroísmo.
Esse é o legado que Stan deixou.
Esse é o legado expresso no seu lema, “Excelsior”, Latim para a expressão “mais acima”.
Heróis humanos, e que não se alienam de sua humanidade nem usam seus poderes para dela fugir, e que exortam essa mesma humanidade a seguir pelo caminho que eles abriram, porque, como o Surfista Prateado, talvez a criação favorita de Stan e porta-voz de muitas de suas idéias, é esse potencial oculto que eles vêem quando olham para nós.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Zeitgeist


Ah, esta postagem tem a ver com as eleições do Brasil?
Sim.
Não.
Talvez.
Um velho lema do ativismo ambiental dos anos 60/70 dizia “pensar globalmente, agir localmente” – perceber que os fenômenos locais tem causas em níveis acima da manifestação mais imediata, e só podem ser entendidos como fazendo parte de um contexto mais amplo, é um axioma básico da teoria dos sistemas, e é um insight que todos os pagãos, e o Druidismo em particular, deviam sempre ter em mente.
Desviando os olhos da Terra Papagallis, vemos as mesmas tendências de radicalização e polarização ideológica, a mesma ascensão das forças autoritárias, a mesma incapacidade dos bem-pensantes de deixar de lado diferenças irrelevantes e se unir em prol do bem mais amplo em plena manifestação pelo mundo afora (não, não vou dar nomes nem exemplos), e o panorama enche a muitos de um desânimo impotente, uma perplexidade angustiada que exclama “onde foi que erramos?” – se a tendência é global como parece, se é simultânea a ponto de parecer fazer parte intrínseca do zeitgeist, se então não podemos atribuir a culpa ao partido-feio-bobo-carademamão de nossa escolha, então o que vamos fazer?
Quando olhamos com olhos-de-Druida o panorama da cultura de massas dos últimos anos, o que vemos? Space operas que retratam o confronto governo totalitário X rebelião popular, fantasias clássicas ou modernas onde as forças do obscurantismo se erguem para ser enfrentadas pelos guardiões da esperança e da liberdade, ficções distópicas onde a tecnocracia absolutista treme diante da revolta iminente dos oprimidos...toda uma geração cresceu assistindo esses filmes e/ou lendo esses livros, e agora que estão chegando à maioridade e prestes a receber seus direitos políticos, entre eles o de eleger quem represente seus interesses e sonhos, este é o cenário que se apresenta diante deles.
Pensando assim, parece óbvio que eles vão saber escolher direito, que vão dar ao Bem a vitória sobre o Mal – mas será mesmo?
Nunca é demais lembrar o quanto o Outro Lado é sedutor, o quanto ele apela para as emoções, o quanto bajula seus admiradores, o quanto o vulto de luz esconde o mais profundo e fétido abismo dentro de si – temos o relato das Testemunhas, de todas as épocas e culturas, nos advertindo que as coisas não são o que parecem à primeira vista, que as aparências enganam, e que só juntos podemos enfrentar a ameaça que nos esmagaria separados, um a um.
Não devemos ficar olhando a democracia morrer com um estrondoso aplauso.
Não devemos aceitar passivamente o fim da era de tudo que é humano.
Não devemos contemplar Você-Sabe-Quem (seja-lá-quem-for) ascender sem lhe oferecer a mais irredutível oposição.
300 anos atrás, os Druidas ressurgiram num mundo que os havia esquecido, para fazer guerra contra os conflitos religiosos, o materialismo burocrático, e a ameaça ambiental das novas tecnologias, e a batalha agora chega a uma escala global sem precedentes; como Merlin contra os magos de Vortigern, Taliesin contra os bardos de Maelgwyn, como Mog Ruith contra os druidas de Cormac, nossa habilidade, nosso poder e nossa coragem serão postos à prova, e apenas a Inspiração pode mover a balança para nosso lado – não lutamos apenas por nós, mas também para ensinar por palavras & exemplos às novas gerações, que estão se preparando para a batalha para a qual nasceram, e que precisam apenas lembrar de quem são e o que está em jogo.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Pensamento Errado


As redes estão em fúria pelo caso da palestra da coach que disse um-absurdo-após-o-outro (não vou repetir aqui pra não poluir meu blog limpinho, quem quiser (e tiver estômago) que olhe este link); sim, é fato que na internet há mais comentários infames como esse que folhas de grama verde na Irlanda, mas então porque esse em particular está atraindo tanto a atenção - sobretudo quando outras fontes dizem coisas virtualmente idênticas e conseguem aplausos de admiradores?
Sei que o que vou dizer vai deixar minha idade à mostra, mas havia um tempo no esoterismo ocidental moderno em que apareceu uma tendência chamada de Novo Pensamento, que resumidamente dizia que nós criamos nossa realidade com nossos pensamentos e crenças, e que mudando estes aquela é também mudada...isso parece familiar? Pois é, o pessoal d'O Segredo pode ser tudo menos original - como disse a modista da rainha Maria Antonieta, ao reformar um chapéu antigo, "só é novo o que estava esquecido".
Foi a partir daí, com acréscimos posteriores de interpretações distorcidas da doutrina do karma, que a vertente solipsista se estabeleceu no pensamento esotérico, tendo tido um renascimento em escala mundial com a Nova Era dos anos 80 e seu lema repetido ad nauseam como se fosse um mantra, "sua mente cria sua realidade". Daí para, como um vírus, infectar escolas psicoterapêuticas, doutrinas administrativas e escritórios de marketing, e criar todo o sub-ramo literário da "auto-ajuda", e então chegar ao fundo do poço com o surgimento do coaching, foi um passo (em falso) após o outro.
Bom, dirão alguns, o que essa arqueologia do pensamento (ou da sua falta) está fazendo aqui no Bosque?
Humani nil a me alienum puto, como já se dizia há 23 séculos atrás, e o Druidismo se importa com a humanidade como sendo parte integrante e essencial da Natureza, sua cosmovisão sistêmica não lhe permite separar os humanos do mundo onde habitam, e nem mesmo separar cada indivíduo humano da Tribo da qual faz parte - e esse é o coração putrefato dessas doutrinas nefastas, o pressuposto de que o indivíduo é rei em seu castelo e não precisa de ninguém nem de nada além de si mesmo e do incrível-poder-adormecido-dentro-dele; qualquer sugestão de que mudanças deveriam ser feitas na sociedade, na família, no trabalho, no ecossistema, são rejeitadas como desnecessárias, coisas para os fracos de alma que não sabem o segredo de sair de um pântano suspendendo a si mesmos pela própria trança ( mas podem aprender a fazer isso, e muito mais, assistindo infindáveis palestras de motivação, cursos esotéricos, e workshops a preços de 3 ou 4 dígitos...).
Olhando nas lendas, o povo das Tuatha Dé Danann foi escravizado pelo rei Bres, meio-Fomoriano que era, e não foi com meditação e visualização que eles se livraram do jugo, mas com atos públicos e coletivos, como o compartilhar da sátira corrosiva do bardo Cairpre em represália pelo tratamento insultuoso sofrido na corte do rei, que despertou a revolta que culminaria na batalha de Magh Tuiread; em outro lugar & época, quando as bruxas da Itália sofriam a dupla opressão da nobreza e do clero, Aradia não lhes disse "mudem suas crenças e a sua vida mudará" nem "tenham fé e eu as libertarei", mas sim "amaldiçoem, envenenem e destruam os que as oprimem, eu lhes ensinarei como": a responsabilidade individual, exercida coletivamente e de modo prático e ativo no mundo, e sem medo de sujar as mãos no processo.
Porque é disso que se trata, não?
É tããão conveniente sentar por 5 ou 10 minutos e mentalizar "minha mente manifesta a abundância em minha vida" ao invés de questionar as condições que levam as pessoas à carência, é tããão mais seguro do que dar a cara pra bater, seja literalmente num protesto público ou simbolicamente numa rede social sujeita a críticas razoáveis ou não, e é tããão mais arrogante não notar aquele pensamentozinho sujo que corre logo abaixo do limiar da consciência, "esses pobres-diabos só fazem reclamar, porque não mudam sua crenças? Eles merecem o que lhes ocorrer"
E com esse pensamento vil, eles jogam sob as rodas do ônibus os pobres, os doentes, toda mulher estuprada, os mortos de Hiroshima, as vítimas do Holocausto, os que morreram na fome da Irlanda com a boca verde da grama que comeram para tentar enganar o estômago vazio, os hereges torturados e mortos pela Inquisição, as bruxas queimadas, os povos indígenas dizimados, toda essa gente, todos eles culpados de não ter criado suas realidades direito!
Então, embora no início minha primeira reação ao assistir o famigerado vídeo fosse sonhar com a criatura sendo flagelada com arame farpado em brasa até perder a voz de tanto gritar, olhando melhor...ela não fez mais do que levar essa doutrina malsã até as últimas consequências e expor, urbi et orbi, o erro dessa linha de pensamento e os perigos morais e espirituais a que as pessoas se arriscam ao seguir esse culto blasfemo; então, mesmo sendo uma pobre-diaba desinformada, odiosa e desprezível, ela prestou um grande serviço, que espero tenha como resultado abrir os olhos das pessoas e, quem sabe, sepultar de vez o Novo Pensamento e sua ninhada maldita.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Episódio VIII, Awen/Força


(quem ainda não assistiu o Episódio VIII que vá embora, SPOILERS adiante!)
Chegamos a um ponto crucial da saga: em todo Episódio de Desenvolvimento (II, V, VIII) se descobre que as coisas não são o que pareciam ser nos episódios anteriores, a trama se torna complexa e densa, e é justamente nesta etapa de cada Trilogia SW que essa coisa misteriosa que é a Força é um pouco mais explicada, porque é justamente quando o Herói avança em seu treinamento e depara com as complexidades do mesmo.
Mas este episódio em particular merece uma observação com olhos-de-Druida, a começar porque a ilha-refúgio de Luke Skywalker é a muito sagrada Skellig Michael, no litoral da Irlanda: no mar há uma ilha, na ilha uma montanha, na montanha uma árvore, e dentro dela os livros sagrados dos Jedi: uma imagem do Centro Sagrado, onde tudo começa e termina, a fonte da Sabedoria primordial - e como em todo centro, a luz e as trevas habitam lado a lado, o que sempre pega desprevenido o discípulo ingênuo que pensa que o Sagrado é apenas luz e graça e gostaria de negar em si a Sombra.
Não se chega no Centro por acaso: a pergunta é feita, "por que você veio aqui?", e deve ser respondida do fundo do ser, independentemente do que o buscador ache que é o seu dever ou do que é "correto".
O Centro "é", imutável, mesmo que o Mestre ali presente não o seja: Yoda em Dagobah estava centrado e em equilíbrio, enquanto Luke buscou a ilha como uma ermida onde se esconder de seu fracasso em fazer a Ordem Jedi renascer, o que o torna um instrutor mais que relutante em aceitar Rey como discípula, e só a determinação férrea dela consegue arrancar dele o ensinamento.
E que ensinamento! Pela primeira vez na série temos um vislumbre da Força que não é visto de fora, mas sim de dentro: os elementos da Natureza percebidos como opostos e complementares, e o Equilíbrio entre eles que une o todo e dá forma ao Universo manifesto.
E como já vimos em episódios anteriores, o primeiro contato com o lado sombrio da Força vem com a revelação de verdades cruciais mas dolorosas sobre si mesmo, como todo contato com a Sombra digno do nome proporciona - claro, o Herói recusa esta primeira revelação, para mais tarde tê-la atirada à cara pelo Adversário, a forma encarnada do lado sombrio, e essa ferida deixa cicatrizes externas e internas que, apesar das aparências, serão fonte de força e não de fraqueza se forem corretamente compreendidas e integradas.
Mas nos adiantamos, e antes disso temos aquela cena arrepiantemente druídica onde um Luke amargurado decide destruir os livros sagrados dos Jedi, mas desiste no último instante...apenas para ver Yoda, seu antigo mestre, agora unificado com a Força, completar o que ele começou com um relâmpago que fulmina árvore & livros; ele exclama para Yoda, rindo como um louco taoísta (no qual sua imagem foi inspirada) "mas esses eram os livros sagrados!"
"Lê-los, você o fez?"
"...bem, eu..."
"Tediosos eles eram, sim"
"Mas porque -"
"Nos livros nada havia que naquela garota não existisse já" - isso é um ensinamento crucial do Druidismo e de outras espiritualidades: mesmo que os textos, templos e mestres fossem completamente erradicados da face da Terra, o contato direto com a Inspiração sempre viva permitiria reconstruir até a última vírgula dos ensinamentos, e portanto não é com as relíquias, mas com as pessoas, que podem se tornar os receptáculos vivos destes, que devemos nos preocupar.
Mais importante que a miraculosa aparição de Luke para confrontar a Primeira Ordem, mais sublime que sua unificação com a Força sob o mesmo pôr-do-sol com o qual sua jornada começou, é ver que a esperança que ele trouxe à Resistência, e esta traz à galáxia, é, bem druidicamente, uma semente que brota sempre que o terreno é propício, que ao semeador cabe apenas espalhar e confiar com esperança, e que se o terreno for inóspito a semente simplesmente dormirá para germinar num tempo mais favorável; onde antes a Força era um privilégio de poucos iniciados, um novo tempo se apresenta no qual ela brota nos locais e pessoas mais diversas, anunciando uma Primavera do espírito que, com a bênção dos Deuses, você e eu iremos testemunhar muito em breve.
Que a Força esteja com todos nós.
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segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Lago, Salmão, Árvore


Partindo do princípio de que os Druidas originais guardaram sua sabedoria codificada nos mitos que a nós chegaram, e tentando lê-los com olhos-de-Druida, cheguei a algumas idéias que quero partilhar aqui.
Todo druidista moderno que se preza conhece a história de Ceridwen e Gwion, de como ele veio a provar a poção de sabedoria que ela destinava a seu filho e se tornou o bardo supremo Taliesin; quando passamos de Gales à Irlanda, vemos na história de Finneces e Fionn um padrão similar, o salmão da sabedoria cobiçado pelo primeiro concedendo seus dons ao segundo, e ficamos de orelha em pé pela virtual identidade de ambas as histórias...e então topamos com a lenda do gigante Einigen, que teve a revelação do Awen mas só conseguiu transmiti-la depois de morto a Menw, que fundou o bardismo galês, e aí vemos que duas versões podem ser mera coincidência, mas três são conspiração deliberada para passar adiante uma mensagem, mas qual?
Nas três histórias, a sabedoria originalmente destinada a um vai ter com outro, e só depois de "um ano e um dia", o prazo tradicional das lendas, e que eu me arriscaria a traduzir como "no devido tempo", é que ela se torna acessível; talvez isso seja uma advertência para não ter pressa de passar adiante uma inspiração recebida, ou fazê-lo sem expectativa de que ela venha a ser compreendida no ato da transmissão, porque "há um tempo para cada coisa".
Outro ponto notável é que nas três histórias a sabedoria é um conteúdo distinto do veículo que a contém, o qual, sem ela, é inútil ou até mesmo nocivo; a poção de Ceridwen envenena o riacho, o salmão torna-se inútil, os postes de sorveira são adorados sem atenção ao que neles foi inscrito, e o "tempo devido" é necessário para destilar e separar a essência da sabedoria, descartando a parte não essencial.
Mas o que me levou mais tempo e meditação para ver é o seguinte: nas três histórias, há um personagem A, que detém a sabedoria e quer transmiti-la (Ceridwen, Einigen, o vidente que falou a Finneces), um personagem B que é (ou seria) o pretendido herdeiro dessa sabedoria (Avagddu, Finneces, o povo de Einigen), e o personagem C, o inesperado (e aparentemente acidental) receptor da mesma (Gwion, Fionn, Menw); quem leu neste blog a série de postagens sobre as Três Almas vai reconhecer A como representando a Alma Celeste, B a Alma Oceânica e C a Alma Telúrica, e notar que, como já vimos, é a Alma Telúrica que está sempre pronta a receber mensagens da Alma Celeste, enquanto a Alma Oceânica está absorta no seu incessante fluxo de pensamentos e deixa passar a oportunidade.
E as três histórias, uma ao lado da outra, apresentam cada uma um símbolo central (caldeirão, salmão, árvores) que, juntos, remetem à fonte de toda a Inspiração, o mítico poço de Segais: um lago (caldeirão) cercado de aveleiras (árvores) onde vive o Salmão da Sabedoria, as avelãs alimentando o Salmão, cuja presença consagra as águas, que fluem em cinco riachos, os cinco sentidos e a Mente onde eles tem seu substrato, e "sábio é aquele que bebe tanto dos riachos quanto da nascente"
E se avançarmos um pouco mais, e aplicarmos o Ogham a este símbolo composto, o que encontramos?

Salmão - EA ("madeira flutuante", uma metáfora poética)
Água - S (além do salgueiro, este fid se refere ao meio líquido)
Aveleiras - C (uma referência direta)

EASC, a palavra formada, tem similaridade fonética com as palavras irlandesas referentes a água, peixe/salmão e, vejam só, à Lua; referência a um estado contemplativo, diferente do pensamento mais analítico de tipo solar, mas também uma imagem: o que acontece se, ao contemplarmos a Lua cheia, a percebermos como um lago de água prateada, um grande caldeirão de prata, um ovo de salmão, uma avelã descascada, o crânio de um gigante ancestral?
Vejam, o que estou propondo com toda essa elucubração é mais que mero malabarismo de idéias, é um possível método para extrair os ensinamentos ocultos nos contos antigos, começando com uma comparação de imagens e temas, a análise destes conteúdos inicialmente revelados, e o uso controlado da imaginação para "mexer o caldeirão" e destilar todo este processo em imagens, sons/palavras e cenas completas, e deixar as gotas que resultarem desta mistura refinada agirem sobre a alma em contemplação. Obviamente não temos como saber se os Druidas que nos passaram os contos usavam esse método com seus alunos, e nem mesmo se os resultados deste trabalho analítico-intuitivo são válidos como ensinamento espiritual, mas quero trabalhar com isso um pouco e convido todos os que me acompanharam neste texto meio confuso a tentarem também: desde que 2018 começa com uma Lua cheia, vamos mergulhar nesse caldeirão?

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

300


Há 300 anos, a Europa estava em uma encruzilhada.
Recém-saída de um conflito religioso de longa duração, tentada pelo materialismo como reação contra o dogmatismo, berço dos primeiros presságios de novas tecnologias mas cega à ameaça destas ao mundo natural - uma civilização perdida em busca de novos caminhos e cercada de todos os riscos inerentes às opções já tentadas.
Foi neste contexto que dois eruditos fascinados pela pesquisa do passado, John Aubrey e John Toland, realizaram sua magnum opus, o verdadeiro milagre da ressurreição dos mortos, o processo de reunir citações de cronistas greco-romanos, tradições folclóricas semi-esquecidas, pesquisas recentes sobre as ruínas megalíticas, costurar essa miscelânea de elementos díspares com muita filosofia panteística, e reunir os outros sonhadores que vinham trabalhando na mesma obra, para que, naquela tarde do Equinócio de Outono de 1717, no salão de reuniões da Apple Tree Tavern, a Ancient Druid Order fosse oficialmente criada, e antigas sementes esquecidas por séculos finalmente rebrotassem.
Sob o signo de Libra, o poder da concórdia e equilíbrio, a nova Ordem manteve apenas princípios gerais - a reverência ao mundo natural como a imagem do Sagrado, a dedicação ao auto-aperfeiçoamento espiritual, e a insistência em manter suas cerimônias abertas ao público, ao ar livre, "em face ao Sol, o olho da Luz" - dando a seus membros a liberdade de crer, pensar e falar como quisessem, um exercício de tolerância que, três séculos depois, é causa de vergonha para nós, que ainda precisamos aprender essa lição.
Sem o trabalho dos pioneiros, o Druidismo não seria mais que uma palavra esquecida em livros empoeirados de história antiga, uma nota de pé de página curiosa mas irrelevante, um fragmento morto e enterrado do passado - mas, como foi dito antes, "tudo o que nasce deve morrer, mas tudo o que morre deve renascer", e assim o espírito perene do Druidismo mais uma vez revestiu-se de carne e reapareceu num mundo para o qual tinha muito a contribuir.
Amanhã, no dia do Equinócio, a comunidade druídica brasileira e mundial, unida em pensamento, palavra e ato, comemora os primeiros três séculos da filosofia renascida com cerimônias, festas, eventos de todo o tipo, em gratidão aos Ancestrais do Espírito, os Druidas originais e os renascidos, na certeza de que "as canções de nossos ancestrais são as canções de nossos filhos" e que a Grande Canção nunca cessa.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Arte


Está acontecendo de novo.
Usando argumentos não dessemelhantes aos da campanha contra a "arte degenerada" feita pelo bigodinho ridículo há 90 anos, uma horda dita "apartidária", cuja sigla não escreverei para não lhes fazer propaganda, conseguiu mover parte suficiente da opinião pública para cancelar uma exposição de arte com temas polêmicos, ofensivos ao bom gosto, à moral e aos bons costumes esta semana.
O que escrevo agora é a minha opinião, apoiada por argumentos que considero válidos e considerando as consequências morais e sociais dela decorrentes.
Como já disse antes, o Druidismo é talvez a única religião que, na classe dos Bardos, inclui as artes como parte crucial da sua filosofia e prática - para nós, o ponto culminante da experiência religiosa, a manifestação da Awen, é descrito como sendo nada mais nada menos que a Inspiração, que não se limita ao campo artístico mas necessariamente o compreende.
A questão é que a Inspiração é uma lei em si mesma, e não se importa em ir contra leis, códigos morais ou artigos de fé, desde que consiga se expressar da forma mais poderosa possível; um poder selvagem, anárquico e elemental, que não se limita às manifestações mais convencionais de beleza e harmonia mas as expressa lado a lado com obras mais caoticamente criadas.
Quando Platão baniu os poetas da sua República, ele estava expressando sua indignação contra essa tendência iconoclasta e rebelde dos artistas, que desde Homero chegavam às raias da blasfêmia ao retratar os Deuses como sujeitos às imperfeições e mesquinharias mortais - não deixa de ser irônico que seu mestre, Sócrates, tenha cometido por meio da filosofia o mesmo "pecado" que os poetas cometeram com sua arte, e seu castigo tenha sido mais severo que o mero banimento...
Não por coincidência, esta semana tivemos furacões no Caribe e terremotos no México - muita gente, mesmo os que se dizem pagãos, esquece que a Natureza não se resume a flores, borboletas e arco-íris, mas também inclui esses aspectos mais devastadores e "feios"; do mesmo modo a Arte, cuja Inspiração flui da mesma fonte primordial que origina os fenômenos naturais, cria o belo e o terrível, o casto e o obsceno, o que nutre e o que pode destruir, e não temos voz nisso tanto quanto nossa opinião não é consultada quando um vulcão entra em erupção.
Como a Verdade no quadro de Jean Léon Gerome, acima exposto, a Arte às vezes choca, saindo nua e desavergonhada de seu refúgio, e o chicote em sua mão muitas vezes é menos doloroso que a mera nudez da sua presença.
A Arte é perigosa.
Não é para todo mundo.
Deve haver controle sobre ela - NÃO na sua criação, ou mesmo na sua exposição, mas sim quanto ao público que pode assisti-la; classificação etária, avisos de possível trauma/conflito, são estratégias legítimas e razoáveis para lidar com os riscos que a exposição à Arte no seu aspecto mais cru pode causar, e eliminam a suposta necessidade de censura prévia ou posterior.
E para os que não se conformam que tanta "indecência" passe impune, eu lembro que há precedentes, os mais sacrossantos possíveis: a Bíblia mostra cenas de assassinato com requintes de crueldade, incesto de filhas com o pai, e trechos de pornografia explícita SEM nenhum tipo de condenação ou sequer uma reprimenda, e vem sendo lida há séculos sem que ninguém tenha levantado a menor objeção a estes e outros trechos polêmicos, ofensivos ao bom gosto, à moral e aos bons costumes.