quinta-feira, 19 de março de 2020

Ataque, defesa


Estamos vivendo os “tempos interessantes” da proverbial maldição chinesa.
O mundo está de joelhos sob o ataque da menor criatura existente, que compensa o pouco tamanho com a avassaladora superpopulação que se espalhou, nação a nação, pessoa a pessoa, e cuja jornada ainda não terminou.
Dadas as devidas proporções, trata-se de uma guerra contra o invasor (que na verdade não “invadiu” coisa nenhuma, estava quieto em seu nicho ecológico natural até ser inadvertidamente trazido ao contato com os primeiros humanos insuspeitosos).
E, no entanto, o mesmo povinho ingênuo que nos deu o “gratiluz” está muitíssimo incomodado com essas metáforas de invasão, guerra, armamento, e está pregando nas redes sociais (em postagens que fizeram meus olhos sangrar) que devíamos abandonar essa “violência simbólica” e buscar o “diálogo” e a “coexistência pacífica” com o Coronavírus
(....)
Como disse e direi enquanto tiver forças, o Druidismo tem a Natureza como sua mestra, fonte de Inspiração e livro sapiencial, e é ela quem nos mostra que os seres vivos competem entre si pela Vida, mas que em ambientes ecologicamente estáveis essa competição não é necessariamente brutal e impiedosa: o leão e a gazela podem beber água no mesmo riacho africano, lado a lado, e desde que ele já esteja alimentado ele não verá necessidade de atacar a gazela só porque ela está ali disponível.
Esta pesquisa mostra que os pacientes que tiveram melhor recuperação e sobrevida pós-carcinoma foram os que, ao invés de se entregar passivamente, decidiram lutar contra a doença (inclusive com visualizações onde os glóbulos brancos eram exércitos atacando e destruindo o invasor canceroso) e essa determinação mobilizou do modo mais eficaz as defesas imunológicas.
E, falando em defesas, vocês já ouviram falar de Cells at Work?
É uma série de animação japonesa cujos personagens são células sanguíneas antropomórficas vivendo e trabalhando para manter o corpo em que vivem saudável e defendido contra ameaças – um dos protagonistas, o Neutrófilo, é gentil e paciente em repouso mas, em luta contra germes e vírus, um guerreiro cuja fúria de batalha rivaliza com a do legendário Cú Chulainn da Irlanda. Em comparação, a outra protagonista, a Hemácia, parece inocente, tímida e inexperiente (e é tudo isso mesmo), mas tem a força moral de admitir seu desajeitamento, trabalhar duro para aprender e melhorar, e a determinação inabalável de cumprir sua tarefa mesmo quando tudo parece perdido, o que é uma forma menos óbvia mas igualmente importante de coragem.
Os Celtas, a quem devemos a tradição druídica, valorizavam imensamente essas virtudes mais “enérgicas”, e tinham os seus guerreiros em alta conta, não como invasores movidos pela violência e cobiça, mas como defensores de seu povo; embora os Druidas exortassem o povo à paz sempre que possível, não se opunham ao direito de defesa pelas armas (e alguns deles, como Cathbad, eram eles próprios guerreiros temíveis em batalha), então nossa opinião sobre o papel da agressividade bem colocada é o exato oposto da do povinho gratiluz, que não entende o que ocorre.
Nestes tempos interessantes, todos nós estamos em guerra.
Nosso dán nos levou a estarmos vivos nesta época e lugar, e nos chama à ação – seja na frente de batalha como os Neutrófilos, seja na resistência da retaguarda das Hemácias, de acordo com os talentos e temperamento de cada um, e nunca devemos nos esquecer que os Deuses e não-Deuses estão aí nos apoiando e inspirando para fazer o que é certo, hoje e sempre.
(mas antes disso, aproveitem o isolamento/quarentena, entrem na Netflix e assistam Cells at Work, garanto que não se arrependerão).

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Gratidão


Virou moda essa história.
“Gratidão”.
“Gratiluz”.
As pessoinhas ditas “espiritualizadas” agora só respondem assim quando alguém lhes faz um favor ou dá alguma coisa.
Porque dizer “obrigado” é negativo.
“Obriga” a pessoinha recebedora a retribuir.
E todos sabemos que “obrigação” é igual a “opressão”, não é mesmo?
(........)
Então, gentis pessoinhas-de-luz, eu tenho uma boa e uma má notícia para vocês.
Sim, vocês estão certas,“obrigado” implica em uma obrigação com a pessoa que fez o favor/ deu o presente.
Não, isso NÂO é uma opressão sobre o eu-cósmico-livre-e-ilimitado de vocês!
Então, quando olhamos para a cosmovisão celto-druídica, vemos que tudo o que existe, dos Deuses ao grão de pó, está ligado a tudo o mais, uma imensa rede capilar de relacionamentos onde o sangue que flui é o poder criativo da Oran Mor, e absolutamente nada pode se separar dessa rede e continuar existindo.
Dar-e-receber é um processo simultâneo e contínuo.
A todo instante, recebemos dons de inúmeros seres passados e presentes, e a todo instante concedemos dons a inúmeras criaturas presentes e futuras.
Cada ação nossa é parte desse processo, conscientemente ou não.
Aqueles de nós que já temos uma certa consciência do processo tentamos fazer com que o que damos seja sempre o melhor de nossa capacidade e intenção, de modo a ser realmente para benefício de todos, incluindo a nós mesmos.
Nesse dar-e-receber, a relação de reciprocidade não implica em opressão – eu recebo, e ao receber estou “obrigado” a dar em troca não por leis ou entidades julgadoras, mas porque a natureza essencial da rede universal implica em que todo ato tenha uma resposta.
Se dois amigos tem o hábito de se encontrar para comer pizza nas tardes de sexta-feira, e a cada vez um deles paga pelos dois, e um certo dia um deles percebe que perdeu a conta e não sabe se hoje é a vez dele ou não, o que ele faz?

a) tira do bolso a agenda onde contabilizou datas, quem pagou e quanto a cada vez
b) pega a conta da mão do garçom antes do amigo, paga sem piscar, e recomeçam a contagem partindo daí

...se você respondeu a), desculpe, mas a sua amizade não presta e não quero saber dela, desde que você dá mais valor ao acerto de contas que ao encontro semanal em si: em se tratando de amigos que se vêem a cada semana, que diferença faz de quem é a vez de pagar?
Algum deles está “obrigado” a essa situação, ou ela foi livremente tomada, movida que foi pela relação de amizade deles?
Essa ojeriza a dever obrigações, de depender de outros, de ser “obrigado” a fazer coisas em vez de viver livre e despreocupado, nasce da ilusão egoísta de que é possível ser independente, não dever nada a ninguém e não depender de nada além de si, de que todas as respostas e capacidades de que se precise estão dentro do indivíduo e não precisam vir de fora dele – o mesmo olhar-para-o-umbigo que já vimos antes, vão e ilusório, que se desfaz em bruma diante da revelação da interdependência de todas as coisas que a Natureza nos ensina e que nós, Druidas, reconhecemos como parte essencial da realidade.
Dito isto, eu sei que tenho muito a agradecer.
Mesmo um annus horribilis como 2019 tem muitas bênçãos pelas quais dizer “obrigado” de boca cheia, e muitas dádivas a retribuir.
Obrigado, à toda a Vida, por mais um ano.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

IX, a Ascensão

(SPOILERS À FRENTE, NÃO LEIAM SE NÃO QUISEREM SABER DEMAIS!!!)

42 anos depois (o que Douglas Adams diria disso?), eis que a Jornada chega ao fim: a saga da família Skywalker e sua predestinação a trazer o equilíbrio da Força foi concluída, não sem conflitos (90% fora da tela e não dentro) mas de modo digno e satisfatório.
Como já falei antes, sendo este um Episódio de Conclusão, espelharia os finais da 1a e 2a trilogias (episódios III e VI respectivamente): é curioso que, nas críticas que li até agora, esse espelhamento foi chamado de cópia e plágio, ninguém o reconheceu como fazendo parte de um padrão (esperado porque confirmado anteriormente) - e que chegou mesmo a trazer de volta o personagem responsável por levar o Herói à crise e tentação suprema nas trilogias anteriores, Palpatine-ele-mesmo, pronto a conseguir com Rey o que havia conseguido com Anakin mas falhado com Luke.
Um aspecto importante é o reforço da mensagem enfatizada no VIII (mas que, vendo com olhos-de-Druida, perpassa a série toda), a da importância das pessoas comuns - os protagonistas podem ser caipiras do deserto, contrabandistas, desertores, jogadores, mecânicos, catadores de lixo e ainda assim combaterem lado a lado, em pé de igualdade, com princesas-senadoras-generais (mesmo que não correspondam em nada ao estereótipo da aristocrata mimada); mesmo no final, quando a Resistência recebe o apoio de última hora de uma frota de naves em sua maioria civis (e como esse visual me lembrou o da frota Colonial de Battlestar Galactica!), o recado está dado, quando o povo comum se levanta, a Força está com ele.
A questão é acreditar, em sua causa e em si mesmo: neste clima de encerramento que perpassa o episódio, a velha geração se afasta para dar lugar à nova, que não se sente à altura do legado - Poe diz não estar pronto a assumir a liderança deixada por Leia, Rey tenta fugir para a ilha-refúgio de Ahch-To, Finn não se sente como tendo lugar na narrativa, mas o comentário de Lando diz tudo: "e você acha que nós estávamos prontos no nosso tempo?"
E a solução do enigma do "equilíbrio da Força" foi extraordinariamente sutil - de um lado, o herdeiro da linhagem da Luz mas voltado às Trevas, do outro a herdeira da linhagem das Trevas mas criada na Luz, ambos unidos pela Força numa díade onde cada um espelha as forças e fraquezas do outro, interligados ao ponto de cada um curar as feridas físicas e emocionais do outro e, juntos, superarem a dualidade e vencerem a prova final.
Claro, isso não dependeu apenas dos dois protagonistas centrais, nem de seus amigos e aliados, nem da força coletiva em campo: a voz dos Ancestrais, tanto os de sangue quanto os do espírito, estava lá, esperando a resolução da dualidade para se fazer ouvir no instante crucial.
E essa voz se fez ouvir, pela última vez, quando Rey assumiu os Ancestrais do espírito como sendo seus ao adotar o nome da linhagem que foi símbolo da Força em quatro décadas - e esse é o desafio que esta cena, este episódio, esta trilogia final propõe a todos nós que o assistimos emocionados: você está pronto para ser um Skywalker?

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Midsommar


Eu escrevi no Facebook que Midsommar se resume a duas palavras: Terror, Sagrado.
É isso, sim, e ainda mais.
Midsommar é o filho espiritual do Homem de Palha e da Bruxa, que viajaram à Suécia para ter o bebê.
Só com descrever o filme – um grupo de universitários americanos vai passar o verão na aldeia sueca, onde os costumes antigos são preservados, e que está comemorando um festival que ocorre a cada 90 anos – os desavisados já pensam que vai haver um massacre, muitos sustos e gritos, e no fim todos morrem; obviamente, desavisados que são, adivinharam errado. Este não é um scare movie, não há monstros que pulam detrás das árvores com facas e machados, não há nada para os fãs de terror barato aqui.

(mas, para prosseguir, aviso que há SPOILERS adiante, NÃO leiam se ainda não viram o filme!)

Começo dizendo que me ocorreu que é possível descrever os impulsos por trás da história de um filme como sendo perguntas.
No caso do The Wicker Man, a pergunta é “como arranjaremos um forasteiro que venha aqui voluntariamente para participar de nossa cerimônia?” e aí descobrimos, no final, que o sargento Howie era, desde o princípio, a vítima escolhida pelo Lord Summerisle para o sacrifício ritual pelo bem da colheita, insidiosamente manipulado desde o começo para este fim (e que cena magnífica a do final!)
No caso do The VVitch, a pergunta é “o que faremos com esta garota?” desde que Thomasin é objeto da incompreensão do pai, do ressentimento da mãe, do desejo incestuoso do irmão e do desprezo dos irmãos menores, e só a intervenção de Black Philip, o avatar das profundezas, lhe oferece a alternativa, antes impensável, de “viver deliciosamente” (e que cena magnífica a do final!)
Pois bem, em Midsommar ambas as perguntas conduzem a trama – os aldeões de Helga precisam de vítimas para o sacrifício quase-centenial, e Dani, a protagonista, está afundando na depressão, perdida entre o trauma da perda familiar e a indiferença dos amigos e do namorado, mas seus passos a levam para uma oportunidade de cura e reinício (literalmente, porque é através da dança das donzelas que ela assume a coroa florida da Rainha da Primavera e se encontra na posição de, perto do fim, escolher a última das nove vítimas sacrificiais).
O contraste das cenas escuras do início do filme e da luminosidade sobrenatural do sol-da-meia-noite, brilhando desde o céu ferozmente azul sobre as roupas e paredes brancas da aldeia e seus habitantes, já deixa claro que saímos de um mundo e um tempo que nos são familiares para adentrar terreno desconhecido, e que segredos antes ocultos na escuridão serão impiedosamente iluminados pela luz incessante.
Há muitos momentos absolutamente chocantes, tanto visual quanto psicologicamente, e nada é ocultado, nem do sol, nem dos protagonistas e nem dos espectadores; no entanto, a pura beleza que permeia o filme emoldura cada cena e faz o milagre de reconciliar opostos de um modo inacreditável.
Só sei que saí do cinema em transe e maravilhamento, e desejo a vocês a mesma experiência.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Amazônia, 2019



A Enobolico dubnotigernos,
Javali negro das profundezas,
Eu chamo com minha voz;
A Ategina dubnotigerna,
Cabra negra das profundezas,
Eu chamo com minha voz;
Pela vela negra acesa,
Luz emergida da escuridão,
Eu chamo com minha voz;
Pelo pão negro no prato,
Semente abatida pela foice,
Eu chamo com minha voz;
Pelo vinho negro no cálice,
Sangue da fruta derramado,
Eu chamo com minha voz;
Para acolher os mortos
E recebê-los na casa-de-baixo,
Eu chamo com minha voz;
Para proteger os vivos
E defendê-los de todo mal,
Eu chamo com minha voz;
Para ferir os malfeitores
Malditos de corpo e alma,
Eu chamo com minha voz;
Para selar este conjuro
E vingar a profanação,
Eu chamo com minha voz.

EX IMPERATO AVERNO!
TEIUOREIKIS!
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segunda-feira, 1 de abril de 2019

Acorrentados

Vamos conversar sobre uma questão de mitologia comparada.
Todos certamente ouviram falar de Prometeu, o Titã Acorrentado do mito grego, preso no pico do Cáucaso com uma águia a lhe devorar o fígado, castigado pelo duplo pecado de desafiar os Deuses e de dar à Humanidade por ele criada uma condição mais elevada do que o Olimpo desejava -- todos os revolucionários românticos dos séculos XVIII e XIX eram apaixonados por ele e o retrataram nas artes e literatura da época como um avatar da Liberdade do espírito humano.
Aí encontramos no cerne do mito cristão a figura de Lúcifer, o Caído, o mais belo e sábio dos anjos, que ousou interferir nos planos do Ciumento para a Humanidade recém-nascida e lhes abriu os olhos para a realidade de sua condição, sendo então banido do Céu e acorrentado a esta Terra, junto com os humanos por ele iniciados no pensamento autônomo e livre; outros revolucionários, de índole mais antireligiosa e antinomianista, também o adotaram como seu padroeiro.
Mal refeitos da surpresa da semelhança icônica e mítica entre os dois, voltamos o olhar para o Norte, e eis que encontramos Loki, o Forjador de Mentiras, amarrado numa caverna no centro do mundo, com uma serpente gotejando veneno em sua face, cada espasmo de dor abalando os alicerces da Terra: sim, uma vez é coincidência, duas casualidade, mas três é conspiração...
Analisando o que os três tem em comum, vemos que não são Deuses propriamente ditos, mas circulavam livremente e com honra entre eles antes de sua rebeldia; que eram todos conhecidos por seu intelecto poderoso e amplo e sua língua ágil; que todos tem como atributo simbólico o Fogo/Luz (no caso de Loki, uma etimologia discutível de seu nome o associa à chama); e que seu crime fundamental foi o de questionar os Deuses e apontar os limites de seu poder e sabedoria, levantando um espelho em cuja imagem os Deuses não quiseram se reconhecer. Nos dois primeiros casos, eles manifestam um interesse caloroso pelos seres humanos e não medem esforços para despertar neles as faculdades superiores do intelecto (mas em Loki este aspecto aparentemente está ausente).
Podemos então falar num mito específico, O Deus Acorrentado?
Se procurarmos bem, outras mitologias o tem presente, reais ou mesmo fictícias (o Melkor do Silmarillion de Tolkien e o Dyaus do ciclo da Atlântida de Marion Zimmer Bradley são os primeiros que me ocorrem).
Mas, então...porque NÃO HÁ um Acorrentado nos mitos dos Celtas? Há incontáveis Deuses sábios, astutos e eloquentes, há Deuses do Fogo e da Luz a mancheias, há imagens do acorrentamento em si mesmo (Cu Chulainn ferido, amarrando a si mesmo no menir para lutar e morrer em pé) mas esses elementos não se reúnem na mesma configuração já vista.
Nisso, como em tantas outras coisas (como a aparente ausência de um Mito da Criação), os Celtas teimam em ser diferentes do resto. Mas porque isso?
Eu tenho uma hipótese, surgida ao olhar as culturas grega, cristã e nórdica de um lado e a céltica do outro, com olhos-de-Druida.
Nos três exemplos do Acorrentado, ele é aquele-que-desafia, o que se opõe à superioridade (presumida) dos Deuses e toma partido dos seres humanos contra Eles: a relação homem/Divindade é a mais assimétrica e desigual possível, e o papel do Acorrentado é ajustar o fiel da balança um pouco mais à favor da humanidade -- mas não vemos isso acontecendo nos mitos celtas, até onde os conhecemos: ali a distância ontológica e existencial entre os dois lados é menor, as relações entre eles são bem menos carregadas, e assim não se faz necessária uma figura para impor limites aos Deuses nem para defender os humanos de Sua ação.
Nossos Deuses não exigem de nós que nos prostremos em submissão abjeta a Seus pés, nem obediência cega, nem abdicação do livre-arbítrio: podem ser severos mas não cruéis, rigorosos mas não opressores, capazes de traçar limites mas não castrar as almas, e é por essa razão, além de inúmeras outras, que merecem nosso amor e devoção, em nome da liberdade que o Acorrentado tanto preza.

Sacrifício


Sacrifício animal religioso é o tema da vez, desde que uma recente decisão do STF manteve o direito das religiões de matriz africana de continuar com a prática sem impedimentos -- como não podia deixar de ser, o clamor dos opositores à decisão sobe aos céus, criaturinhas indignadas protestando contra a crueldade sancionada legalmente, agindo por puro reflexo sem parar para analisar a questão e seus prós e contras.
Sim, o Druidismo tem algo a dizer sobre essa questão, porque não podemos nos alienar de nada que é humano (e/ou animal) e porque vários aspectos dela nos afetam diretamente e devem ser trazidos à atenção para debate.

I - O Círculo da Vida
É irônico pensar que as pessoas desinformadas que protestam contra o abate ritual de animais são as mesmas que cantam "The Circle of Life" do Rei Leão - com uma lagriminha no canto do olho - sem parar pra pensar sobre o que, realmente, a canção descreve; ninguém questiona o fato explícito de que o protagonista é um predador, filho e neto de predadores, e que seus fiéis "súditos" vão se tornar, cedo ou tarde, carcaças ainda sangrando a serviço de seu apetite.
Isso é o Círculo da Vida.
E sim, ele é sagrado.
E mesmo os predadores não escapam dele, porque um dia vão morrer e o Círculo os entregará àqueles que limparão seus ossos e os devolverão à reciclagem do ecossistema.
Chocados? Enojados? Horrorizados?
Pois, essas reações aos fatos da vida são o fruto amargo e murcho dos milênios em que a civilização ocidental disse que os seres humanos são "a coroa da Criação" e isentos das leis que regem o mundo natural, mas também dos três séculos da Revolução Industrial e do afastamento do mundo natural por ela causado - já não caçamos nossa carne, nem a abatemos em nosso quintal, apenas compramos bandejas de isopor e plástico com algo que nem remotamente faz lembrar o animal que era, e assim nos cremos inocentes e de mãos limpas e decididamente não-cúmplices daquela morte.
Esse horror ao que é desavergonhada e explicitamente orgânico, essa "biofobia" como John Michael Greer a chama, é parte da reação contra o sacrifício: a ideia de que alguém possa deliberadamente derramar o sangue quente e denso de um animal e expor suas vísceras no lugar consagrado enche os desinformados profanos de um horror sem limites, porque não conseguem ver ali uma declaração explícita da sacralidade da vida ofertada e da devoção dos que a fazem - e antigos instintos desviados de seu propósito também tem parte nisso, porque a visão do sangue do abate sempre evoca a ideia "esse sangue podia ser meu", e onde antes esse pensamento levava à identificação positiva com o animal morto ("como ele me alimenta hoje, um dia eu alimentarei outros", a perfeita expressão do Círculo) hoje essa reação é reprimida como sendo uma ameaça à (ilusória) excepcionalidade e superioridade humanas.
Mas, para além da biofobia, outros fatores se levantam contra o sacrifício.

II - Inquisição
Sempre é bom lembrar, e eu o faço aqui, que a ação julgada no STF começou da parte de deputados da dita "bancada evangélica" abrindo processo contra casas de culto afrobrasileiras pela alegada "crueldade" contra os animais abatidos: não foi uma ação piedosa, movida apenas por idealismo e preocupação genuína com o bem-estar animal, mas tinha intenções mais insidiosas.
Lembrem-se, os evangélicos vivem sob o dogma de que os outros animais não tem almas, só os humanos, e a interpretação distorcida que eles fazem de Gênesis 1:28 os leva a crer que os humanos são "donos" do mundo e de tudo e todos que há nele, e não há aí lugar para interpretações menos literais e mais gentis.
O interesse deles na questão não passa nem de longe pela preocupação com o bem-estar animal, mas sim pela denúncia e condenação das religiões afro como sendo desumanas, cruéis e demoníacas, e portanto merecedoras de perseguição até a extinção total - e toda vez que um ativista, evangélico ou não, assume o discurso discriminatório de que as religiões que praticam o sacrifício são "primitivas, não-evoluídas, atrasadas" (que meia hora de leitura de tratados de antropologia e religião comparada provariam estar totalmente errado) os Inquisidores ganham mais um aliado inconsciente e regozijam com a conquista.

III - Quem Ganha com Isso?
Como acabamos de ver, o clamor contra o sacrifício, agregando veganos, ativistas animais e outros movimentos humanitários, está sendo usado como massa de manobra pela bancada evangélica, para seus planos dominionistas e supremacistas, e esse povo não se deu conta que seu discurso contra a opressão animal está sendo usado como munição para legitimar a opressão aos cultos afro.
Mas até agora só vimos os argumentos contrários, e o que há por trás deles: e os argumentos a favor? O que realmente acontece num sacrifício, e quem ganha com isso?
Nas religiões antigas, em várias religiões modernas, e nas raízes hebraicas da cristandade, o sacrifício era a prática central da devoção às Divindades: na prática, era uma refeição comunitária, uma comunhão, entre as Divindades e os devotos, onde o animal sacrificado era ritualmente abatido e repartido entre a porção no altar, para oferenda divina, e a porção a ser consumida pelo povo. Os animais a ser sacrificados tinham de ser saudáveis, muito bem tratados, e honrados como partes essenciais do culto que eram, e o treinamento sacerdotal incluía a ciência e arte de como abater o animal de modo rápido, preciso, sem dor e sem medo (e qualquer evidência de falha em qualquer desses quesitos tornava o procedimento inválido para fins de culto).
No caso dos praticantes das religiões afro (para não mencionar os especialistas judeus e islãmicos no abate ritual kosher/halal) as mesmas obrigações e especificidades de treinamento se aplicam, a mesma ética da morte digna está presente.
Não se abatem cães, gatos ou outros animais não- comestíveis, as aberrações que os ativistas escancaram como exemplos do que eles supôem que acontece no culto regular não procedem e são obra de sádicos fora de qualquer contexto religioso legítimo, então o seu pet não está na mira dos cultos afro e nunca estará.
Se essa ética, essa dignidade de prática e trato animal, fosse a regra nos abatedouros leigos (onde o Inferno se manifesta na Terra), esta civilização seria muito mais saudável de corpo e alma, mas enquanto tratarmos os animais como blocos de carne descartável, a carne que formarmos em nossos corpos a partir do que comemos será igualmente objetificada e descartável, como tudo o mais na civilização ocidental moderna; se os veganos centrassem seu ativismo no combate às práticas abjetas da indústria da carne (que é a verdadeira inimiga da santidade do Círculo da Vida) ao invés de reforçar o preconceito religioso e a agenda dominionista, aí sim as coisas poderiam mudar para melhor.
No Druidismo moderno não fazemos sacrifícios animais (exceto, talvez, quem tenha criação de animais em sua fazenda, já pratique o abate para consumo alimentar, e queira introduzir uma dimensão devocional/cúltica ao que já faz regularmente, nesse contexto seria adequado) mas reconhecemos o pleno direito dos nossos irmãos de matriz africana de fazê-los sem obstáculos ou prejuízos, sabendo bem que a liberdade religiosa de uns favorece a todos e que a ignorância e o preconceito estão aí para serem combatidos sem trégua.