segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Endovélico, Semana 25: Testemunho Negativo


Agora entramos num caminho acidentado.
Eu posso dizer, sucintamente, que em várias ocasiões pedi coisas a Endovélico que não me foram concedidas, mas se ficar só nessa afirmação isso soaria como uma queixa magoada ou uma afirmação resignada de fé ou mesmo uma desconfiança básica no próprio valor dele como uma divindade digna de culto, e por isso vamos ter que expandir a discussão...
Os últimos 4 mil anos de monoteísmo compulsório nos fizeram crer que o Único deus (ou Deus, como ele gosta de ser chamado) não pode ser senão onipotente e onisciente, ou não seria Deus; claro, isso não dura senão até o velho paradoxo

"Deus pode criar uma pedra tão pesada que nem mesmo Ele poderia levantá-la?"

...que não era um paradoxo para as fés politeístas, para as quais as Divindades, mesmo sendo imensamente mais poderosas e sábias que os seres humanos, ainda assim tinham limites perfeitamente óbvios e naturais ao seu poder e sabedoria, e para quem a pergunta acima simplesmente não faz sentido algum.
O tema desta Semana, ou seja, em que situações eu fiz pedidos a Endovélico que não me foram concedidos, não pode ser corretamente entendido se não olharmos os pressupostos da cultura ocidental cristã dos últimos dois milênios -- aquilo que a Filosofia e a Teologia chamam de "O Problema do Mal", ou seja,

"porque um Deus amoroso e todo-poderoso permite a existência da injustiça, da doença e do mal no mundo?"

Filósofos já abordaram o tema de modo negativo: se Deus não pode eliminar o mal da Criação, Ele é impotente; se pode, mas não o faz, Ele é desumano; em qualquer caso, Ele não é digno de nossa devoção -- os teólogos mais ortodoxos, por outro lado, consideram tudo como sendo um Mistério, ininteligível à compreensão humana, e portanto não devemos perder tempo com essas perguntas perigosas e possívelmente heréticas...
E mesmo no meio esotérico/pagão a questão continua sem resposta, agravada por interpretações distorcidas de conceitos ocultos como o karma e a evolução espiritual -- sofremos, segundo essa visão, por consequência do que fizemos de errado em vidas passadas, e é tudo para o nosso aprendizado; ou, mais recentemente, segundo certos livrinhos nefastos de auto-ajuda, sofremos porque criamos errado a nossa realidade, e é tudo responsabilidade nossa.
(...desafio essa gente espiritualizada a dizer isso aos pais daquela criança morrendo de câncer, olhando bem nos olhos deles, e depois que eles acabarem de quebrar cada dente de suas INÚTEIS bocas, aplicar esses "ensinamentos" à sua própria situação!)
O que as fés antigas tem a dizer a respeito disso, eu aqui escrevo: o Universo está repleto de coisas que nos são benéficas, indiferentes ou danosas; os Deuses, pela nossa experiência (a minha, a de meus companheiros pagãos, e a de milênios de observação atenta) são benevolentes e justos, e nos exortam a exercermos a benevolência e a justiça do melhor modo que pudermos; se eles não tem poder, individual ou coletivamente, para eliminar o mal e a imperfeição do mundo, pelo menos nos dotaram de razão, compaixão e coragem para enfrentar esses males e imperfeições na medida do possível, e nunca nos negam auxílio nisso (entendido como um reforço da razão, compaixão e coragem dentro de nós).
Se eu estivesse diante daqueles pais daquela criança acima mencionados, eu não perderia meu tempo ou o deles tentando "explicar" o porque daquela situação de sofrimento físico e emocional; eu perguntaria o que poderia fazer para ajudar, e faria o que estivesse ao meu alcance, porque é o certo e justo a se fazer numa situação dessas, e porque meu deus prefere ações plenas, mesmo que limitadas, a palavras vazias, porque é através de mim que ele agiria ali.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Endovélico, Semana 24: Testemunho Positivo


Depois destas semanas de ver Endovélico manifestado nas artes, esta semana volta ao campo pessoal -- como é quando um pedido a ele feito é atendido, e de que modo isto se manifesta em minha vida?
Passei a semana tentando lembrar de um momento em especial, alguma coisa mais dramática, algum evento tão portentoso que deixasse o mais cético dos leitores de boca aberta: "Ooooohhhhhh..." -- mas não me lembrei de nada assim.
Não é que não me lembre propriamente, porque eu tenho o costume de anotar toda a minha prática em diário há quase 20 anos, e essas anotações incluem vários episódios de graças concedidas; a questão é que virtualmente todas elas ocorrem de modo tão simples e direto, sem trovões ou raios de Luz divina vindos do alto (ou, no caso dele, de baixo...) que poderiam perfeitamente bem passar desapercebidas como tal sem o hábito do registro diário.
Em inúmeras ocasiões tive dores e doenças variadas, minhas e de outras pessoas, aliviadas ou mesmo curadas (num episódio, quase instantaneamente) e o fato disso ocorrer com pessoas que não sabiam das minhas invocações ao Curador já afasta sugestão ou placebo como possíveis explicações.
Precisando de orientação do seu aspecto Oráculo, mesmo sem minhas ferramentas oraculares à mão (trataremos disso em outra postagem), presságios via eventos locais, pedaços de conversas de estranhos, músicas no rádio e outros eventos aleatórios foram plenamente suficientes para me dar as respostas de que precisava, sem demora ou ambiguidade.
Quanto aos dons do Psicopompo/Senhor dos Mortos, muitas vezes orei a ele por outras pessoas, próximas ou distantes, sem, obviamente, poder avaliar com precisão se fui atendido ou não -- provavelmente, só saberei com certeza quando for a vez da minha jornada final e eu puder ver a Ele com clareza pela primeira vez.
Esse é o meu testemunho de Endovélico.
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(E vocês, que me lêem: que testemunhos vocês tem de suas Divindades, quais deles vocês podem (e querem) partilhar?)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Endovélico, Semana 23: Literatura Evocativa

Quando Noah Gordon escreveu O Físico em 1986, não sabia estar escrevendo um best-seller mundial (recém-transformado em filme, mas eu não o recomendo) e reapresentando Ibn Sina, ou Avicena, ao mundo.
O protagonista da história, num exercício de liminaridade levado ao extremo, se transforma de aprendiz de barbeiro medieval inglês em aluno judeu da maior escola de medicina da Pérsia (e talvez do mundo, na época), movido por uma paixão pela arte de curar raras vezes tão bem retratada; como não podia deixar de ser, a Morte vem sempre ao lado da Vida, tanto no ato clandestino (porque ilegal e sacrílego) da autópsia cadavérica para fins anatômicos quanto no dom secreto de saber quem vive ou morre com um toque (e do fardo que dons assim acarretam a seus possuidores).
Historicamente acurado e eticamente embasado, é um livro que deveria ser parte do currículo das escolas médicas, mas que recomendo a todos não só pelo enredo, cenários e personagens, mas também por ser um de muitos canais para manifestar os dons de nosso deus no mundo.


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Endovélico, Semana 20: Arte Evocativa

Com a complexidade simbólica vista ao longo desta jornada, na qual já percorremos 2/3 do caminho, eu procurei -- e encontrei -- centenas de imagens evocativas de Endovélico em seus vários aspectos, mas dentre elas esta foi a que mais poderosamente ressoou em mim como um retrato do deus: uma pintura (cujo autor, infelizmente, desconheço) representando Esculápio, a sua contraparte romana, mas que, longe do estereótipo da imagem austera e dignificada no mais imaculado mármore, o mostra de modo decididamente ctônico, mediando os poderes da Morte e da Vida com o bastão das serpentes, simultaneamente heróico e terrível como só ele sabe ser...e é esse retrato que partilho, aqui,
com quem me lê.


(PS: JP me informou que a autora da obra "Asclepius" se chama Carrie Ann Baade ;-) )

domingo, 16 de novembro de 2014

Endovélico, Semana 19: Qualidades

O perfil de Endovélico traçado ao longo destas semanas apresenta a liminaridade como traço principal: entre Vida e Morte, Saúde e Doença, Sonho e Vigília, oscilando entre gêneros e espécies e pareando com as divindades mais diversas possíveis, ele não se limita a uma única imagem, mas está sempre em fluxo.
Sendo assim, penso que não será estranho para ninguém que eu declare que a mesma qualidade que admiro é a mesma que considero a mais difícil de todas...
A imagem acima é o símbolo perfeito desta situação ambivalente: essa erva de folhas longas e flores roxas, se aplicada externamente, é um cicatrizante poderoso que fecha cortes e feridas em dias e cura todo tipo de erupções e problemas dermatológicos, mas se for ingerida é extremamente hepatotóxica e pode até matar por hepatite medicamentosa fulminante -- o confrei, poderoso para curar e/ou matar de acordo com o conhecimento e prudência de quem o prepara.
Esse é só o exemplo mais ilustrativo da questão que discutimos agora: Endovélico vem me ensinando, ao longo destes anos, que a doutrina de Paracelso da identidade essencial entre remédios e venenos, dependendo do contexto/dose, na verdade se estende também a métodos não-farmacológicos como as técnicas psicoterápicas, assim como a abordagens mágico-rituais, e essencialmente a toda coisa ou ação humana -- coisas aparentemente inofensivas do dia-a-dia podem causar danos a médio/longo prazo, assim como outras coisas que o consenso chama de perigosas tem potenciais curativos se aplicadas no local e na hora certa.
Percebem o que digo? Estamos, todos nós, vivendo num mundo de maravilhas ocultas e terrores escondidos a cada passo que damos, e na imensa maioria das vezes invocamos seus efeitos sobre nós sem saber o que fazemos e quais conseqüências virão disso, e cumulativamente nos tornamos, nós mesmos, terapêuticos e venenosos para o mundo à nossa volta!
E o único fator que permite curar com o veneno é a discriminação consciente, o avaliar a cada ação como exercê-la do modo adequado à situação, local e pessoa envolvida, sabendo que o que funciona em outros contextos nem sempre se aplica àquela situação específica, e que muitas vezes é preciso deixar o veneno agir por um tempo até que seja transmutado em medicina, e que essa responsabilidade é pesada demais para ser carregada impunemente -- mesmo esse fardo me intoxica agora para sanar depois, pois é o preço pelo conhecimento e o dom da cura verdadeira, que nunca exerço sozinho, porque Endovélico me acompanha a toda parte.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Endovélico, Semana 18: Gênero e Sexualidade


Nesta semana a questão se refere a como os temas do título se expressam no culto de Endovélico,  o que é menos simples do que parece à primeira vista -- normalmente se pensa que divindades guerreiras tendem a ter devotos masculinos e as Deusas-Mães a devoção das mulheres, mas como isso se aplica ao nosso deus?
Como já vimos, há uma quantidade relativamente grande de inscrições em altares ofertados como ex-votos a Endovélico, e boa parte deles foi "assinada" pelos seus doadores; mais homens que mulheres fizeram estas oferendas, mas elas perfazem 33% do total, uma porcentagem muito acima da encontrada para outras divindades, mesmo para as deusas; é possível que a porcentagem real fosse ainda maior, levando-se em conta que a amostragem das inscrições disponíveis é limitada e distorcida, e levando em conta que Esculápio/Asklépios, a sua contraparte greco-romana, tinha um culto majoritariamente feminino e de todas as classes sociais, incluindo escravos e estrangeiros -- o que faz sentido, levando-se em conta que a benevolência do Curador é um artigo de alta demanda, independentemente de gênero, idade e classe social, e que seria natural que fossem as mulheres a pedir pela saúde de seus pais, maridos ou filhos no santuário do deus (mesmo que muitos maridos apareçam pedindo por suas esposas ou filhas).

(Uma GPN minha, que menciono aqui pela primeira vez, é que eu às vezes percebo a face do Oráculo como sendo feminina, em contraponto com a masculinidade do Curador e de uma certa androginia na criança alada que retrata o Psicopompo em imagens de São Miguel da Mota -- a liminalidade do deus permite que ele flua entre os gêneros de acordo com a necessidade).
Obviamente um deus da cura vai obrigatoriamente lidar com as questões da sexualidade, como alguns ex-votos de cerâmica do Asklepeion de Epidauro (em forma de seios, genitais masculinos e femininos) indicam -- não temos relatos escritos do lado Ibérico ou ex-votos similares, mas a natureza humana sendo a mesma em todas as partes, só podemos concluir que o santuário de Endovélico era similarmente procurado nestes casos.
Mas e quanto à sexualidade em si, fora do campo da saúde reprodutiva? Alguns autores consideram que a Ibéria, pré-romana e romana, seria um "centro sexual" para todo o Mediterrãneo (mencionando que o imperador Adriano e os poetas Juvenal e Marcial seriam ibéricos, o que "justificaria" seus comportamentos tão bem registrados pela História...)-- não temos registros antes da conquista romana, mas Roma foi muito bem descrita em crônicas como sendo simultaneamente austera/puritana e lasciva, oscilando entre um e outro extremo de acordo com o período histórico, o Imperador regente, ou as modas que surgiam e sumiam entre seus cidadãos; podiam não ver com bons olhos orgias coletivas (e certamente ficariam horrorizados se soubessem que é exatamente assim que são representados na imaginação popular moderna!) mas não sofriam do fanatismo negador da carne que a Cristandade traria ao mundo, e embora, diferentemente do que se crê hoje, não "aceitassem" a homossexualidade no contexto em que nós entendemos o termo, pelo menos tinham por ela uma tolerãncia bem-humorada que até podia incluir sátiras ocasionais, mas não anátemas.
(Devo mencionar que escrevo esta Semana após celebrar o Beltane com o Ramo de Carvalho, neste sábado passado?)


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Endovélico, Semana 17: Relações com Outros Panteões


Esta semana talvez seja polêmica, por tocar na questão delicada de se a semelhança entre Divindades de panteões diferentes significa identidade, o que foi a base da famigerada interpretatio romana e todas as conquistas e confusões que ela nos trouxe...
Começamos pelo sincretismo básico já estabelecido de Endovélico com Esculápio, discutido à exaustão em semanas anteriores, e que embora nos revele muito sobre nosso deus, também oculta -- já vimos uma interpretação errônea que o identificava com Cupido, e também vimos que ele teria tudo para ser correlacionado com Plutão (como Senhor dos Mortos) ou Apolo (Curador/Oráculo), mas essa associação não ocorreu.
Não há registro histórico de sincretismos dele com Divindades de outros panteões (exceto em um caso muito especial, a ser discutido mais à frente); no entanto, sem compromissos com a História, com quem associaríamos Endovélico?
Entre os Deuses do Egito, Tehuti seria uma escolha pelo lado do Oráculo/Curador, mas o Senhor dos Mortos teria mais a ver com Ausar , morrendo e revivendo com os ciclos do Nilo, recebendo as almas diante de seu trono no Amenti.
Não consegui, por mais que tentasse, uma correlação plausível com nenhum dos Deuses dos Nórdicos -- poder-se-ia pensar em Odin auto-imolado na árvore Yggdrasil para obter as Runas, mas é uma associação muito frágil e estreita para ser de algum valor.
No caso dos outros Celtas além da Celtibéria, os Gauleses teriam os Curadores Bormanicos e Grannus e o ctônico Dis Pater como candidatos, com o agravante de seus mitos nos serem desconhecidos; na Irlanda já encontramos Miach, filho de Diancecht, cujo mito espelha o de Esculápio, e em Gales o sombrio Arawn, rei das profundezas do Annwn, seria uma opção viável.
E quanto ao "caso muito especial" mencionado acima?
Por mais que eles estrebuchem quando se diz isso, os Católicos têm um verdadeiro panteão, com culto a Divindades secundárias (os Santos e Anjos), à Trindade, e à posição exclusiva da Virgem como sinais característicos; já vimos que tradicionalmente o Arcanjo Miguel é consagrado nas colinas que ostentavam cultos pagãos, e o santuário de São Miguel da Mota é o exemplo no caso de Endovélico -- mas, como já discutimos em outra ocasião, o Guerreiro Luminoso e o Dragão Sombrio são duas faces inseparáveis do mesmo mito, e assim Miguel e a Serpente poderiam ser entendidos como os lados solar e ctônico de Endovélico.
Mas ainda há mais: alguns pesquisadores consideram que o culto a Santo Antão seria uma sobrevivência cristã do de Endovélico...um santo curador, acompanhado de um porco, fazendo sua ermida numa tumba de um cemitério abandonado cheio de serpentes, onde os peregrinos se sentavam ao lado da tumba para buscar o conselho do eremita e sua voz vinha lá de baixo -- se isso não evoca o EX IMPERATO AVERNO não sei o que o fará!
E como se isso não bastasse, os cultos familiares da Bruxaria Tradicional Ibérica levam o simbolismo às últimas consequências, encobrindo Endovélico sob a face do Curador e Ressuscitado por excelência, chegando a adornar crucifixos com símbolos do culto original e efetivamente transfigurando-os em ícones do antigo deus à imagem do novo.
Quanto dessas relações de similaridade são formas válidas de representação do deus, mesmo não sendo autênticas, depende de como aquele que contempla as imagens as vê como portais que conduzem, por vias mais ou menos tortuosas, à presença Dele...


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Endovélico, Semana 16: Valores do Panteão


Como já vimos, não existiu um panteão unificado das tribos celtibéricas/lusitanas, e como mencionei em outra ocasião, as culturas pagãs tendiam a ver a ética como sendo algo encorajado pelas Divindades, mas de criação puramente humana -- assim sendo, penso que uma boa olhada no povo que cultuava Endovélico pode nos ajudar a definir os seus valores morais para assim responder a questão: de que modo Endovélico reflete os valores éticos da cultura de seus devotos?
Os cronistas romanos descreveram os Lusitanos como "um povo que não se governa nem se deixa governar", independentes mas indisciplinados, como os Celtas de todas as partes da Europa sempre foram, razão pela qual o Javali foi subjugado pela Águia -- um herói autocontrolado e estratégico como Viriato é a exceção que confirma a regra, e mesmo ele precisou esperar que seus companheiros sitiados na Turdetânia desesperassem, pois só assim se submeteriam ao seu comando sem discutir.
Um povo frugal e austero, profundamente religioso, dormindo no chão sobre seus mantos negros, comendo pão de bolota de carvalho e bebendo água ou cerveja de trigo, saindo da floresta em ataques-relâmpago e voltando velozmente a ela, ferozes e indomados como javalis selvagens: fica evidente a admiração relutante dos cronistas por essas virtudes rústicas, que comparadas aos modos decadentes de Roma pareciam ainda mais admiráveis e dignas de louvor.
Maurício Pastor Muñoz, em seu livro, descreve Viriato como sendo livre do que Jean Markale chamou de "os três pecados do guerreiro", cada qual atentando contra uma das três funçôes sociais indo-européias: saque (3a. função, provedores), vingança (2a. função, guerreiros), usurpação (1a. função, nobres) -- Viriato repartia o saque dos vencidos entre suas tropas e não se apropriava de nada, combatia com premeditação com o objetivo de libertar seu povo, e não cedeu à tentação de se proclamar rei apesar da aclamação do seu exército (ironicamente, essa tripla vitória só confirmava sua aptidão para o trono...)
Poderíamos dizer, forçando um pouco, que Viriato encarna o aspecto Psicopompo de Endovélico ao conduzir com habilidade as diversas tribos ao seu destino, o Oráculo ao usar e abusar da oratória para orientar o povo, como na parábola do homem-das-duas-esposas, e o Curador, ao fazer de tribos dispersas uma única nação (e mesmo seu assassinato o promove a Senhor dos Mortos, se a grandiosidade dos festejos fúnebres a ele dedicados for evidência).
Mas a associação não funciona bem, por um motivo crucial: diferentemente de muitas outras Divindades da Ibéria (Runesocesios, Bandua, Neton, Reve, etc.) Endovélico não apresenta uma face guerreira e extrovertida, seus dons induzem ao recolhimento e contemplação, e isso indica, a meu ver, um possível culto de mistérios exclusivo da casta sacerdotal e centrado nele, algo não "popular" mas coexistindo com a evidente devoção de gente de todas as classes ao Muito Bom.
Resumindo, mesmo que existisse um panteão ibérico unificado, o mais provável é que Endovélico fosse como o salmão, nadando na contramão dos outros peixes...

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Endovélico, Semana 15: Aspectos Mundanos



Um ponto presente nas fés pagãs como um todo é a crença na imanência divina, ou seja, na presença ativa das Divindades no mundo, diferente da visão monoteísta de um deus transcendente habitando um plano superior e vendo o mundo do lado de fora; os Deuses antigos habitam tanto o mundo natural e seus sempre variados fenõmenos quanto as culturas humanas em suas inúmeras manifestações.
No caso de Endovélico, cujos títulos incluem "presentíssimo", está claro que ele nunca está longe daqui, nem mesmo quando assume a face do Muito Negro e se torna o Senhor do Reino dos Mortos -- mas ele pode ser contatado sem ser por meio das devoções em seus altares domésticos? Qual é o aspecto mundano da sua presença?
Em nossa sociedade, a face do Curador é a mais fácil de encontrar, e não digo apenas nos hospitais, pronto-socorros e faculdades de medicina: qualquer um que faça uma infusão de canela com mel para tratar um resfriado está expressando a natureza do deus em suas ações sem necessidade de títulos oficiais ou ritos iniciáticos. A grande variedade de revistas, sites e programas dedicados à saúde, a onipresença das academias de ginástica, todos esses canais estão transmitindo a sua influência à sociedade como um todo, e as pessoas nem se dão conta disso.
A face do Oráculo é mais restrita, e não me ocorrem outros exemplos além dos consultórios de psicoterapia, em especial das vertentes que rrabalham com os sonhos.
Quanto ao Psicopompo/Senhor dos Mortos, o tabu da morte ainda impede a sua presença de modo mais direto do que em clínicas para pacientes terminais, velórios, necrotérios e cemitérios, e uma necessidade de nossa cultura é restaurar a posição da Morte como um fato a ser recebido com dignidade e serenidade, não um terror ao qual esconder sob o tapete e fingir que é algo que só acontece aos outros.
Agora que viram como é fácil encontrar os Deuses, vão procurar por aí e vejam a quem encontram no caminho...


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Endovélico, Semana 14: Culto Moderno

Alguns de nós, no meio Pagão, nos denominamos Reconstrucionistas, ou seja, nosso objetivo é reconstruir com a maior fidelidade possível os cultos antigos, baseados em evidências da arqueologia, história, linguística e religião comparada, e adicionando a isso as GPNs que não contradigam os achados objetivos acima citados -- mas a idéia não é reviver o culto-como-era-então, incluindo aí sacrifícios animais e/ou humanos e outros anacronismos autênticos mas não mais válidos para a nossa época: a idéia por detrás dos Recons mais sensatos é tentar imaginar como seria se o culto tivesse sobrevivido à romanização e à cristianização do mundo antigo e viesse evoluindo pelos séculos até os dias de hoje, ou seja, fazer o culto de uma forma adequada ao século XXI.
É por isto, entre outros vários motivos, que eu não sacrifico pombos vivos, que dirá javalis, a Endovélico em meu altar doméstico.
Como disse antes, o culto diário implica em orações e oferendas às Divindades de meu panteão pessoal, Endovélico entre elas sem destaque (mas com orações exclusivas a ele ao acordar, meio-dia, pôr do sol e ao deitar); a cada nove dias (o último foi ontem), o culto e as oferendas enfatizam Endovélico em seu dia, com vinho e louro em seu altar.
Eu uso o formato ritual básico da ADF, com invocações ao Centro Sagrado, às Três Famílias, a abertura do Portal e as Invocações antes das Oferendas, com uso do Oráculo para saber se foram aceitas e que dons me foram dados em troca, e encerramento formal, e nos dias de Endovélico isso implica em invocações e oferendas mais complexamente executadas (incluindo o uso do Celtibérico) -- após tantos anos, as ações rituais fluem de modo quase automático, o que deixa a consciência livre para ficar em modo contemplativo e sentir os tempos corretos para cada ação, bem como traduzir o Oráculo do modo mais preciso possível.
A presença do deus é inequivocamente sentida quando a Invocação é feita e as Oferendas apresentadas, quem já o fez sabe muito bem do que falo, aos outros só aconselho tentar...

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Endovélico, Semana 13: Relevância Atual


Depois desta exposição sobre Endovélico e seu culto, a pergunta surgindo na mente dos leitores é essa: muito bem, mas qual é a relevância disso tudo nos dias de hoje, porque reviver um culto esquecido de uma época e cultura ainda mais obscuras, qual o propósito disso? Essa pergunta tem dois níveis, o geral e o específico, e vou responder separadamente a cada um deles.
No plano geral, a razão pela qual pessoas de todas as nações, classes, culturas estão revivendo os antigos cultos politeístas é multiforme -- as religiões oficiais, incluídas aí a ciência e as ideologias políticas, já não dão mais conta da necessidade humana universal por sentido, valor e propósito da existência (diga-se de passagem, não pela primeira vez na história), e todas as vezes em que isso aconteceu as pessoas olharam para o passado e lá redescobriram uma pureza de crença e vitalidade de devoção que foram potentes o bastante para preencher as almas desses buscadores insatisfeitos; outros fatores, como a identificação com a cultura dos ancestrais desses buscadores, ou nostalgia por épocas em que a vida era menos complicada e mais heróica, ou a influência da ficção/fantasia, tem o seu peso aqui, mas a motivação fundamental vem do fato de que nem só de pão vive o homem, há necessidades espirituais que devem ser satisfeitas sob pena da morte-em-vida que vem caracterizando, cada vez mais, a paisagem anímica do mundo moderno.
No plano específico, porque Endovélico? Num mundo em que a medicina ganhou poderes inimagináveis de enfrentar doenças antes incuráveis e prolongar a vida, mas às custas de um pavor crescente da morte e uma recusa em aceitá-la como parte indissolúvel da existência, em que medicamentos novos prometem a cura ao preço de novos males e reações adversas, em que as doenças da mente são agora tratáveis, mas desde que se diga que a "alma" é meramente um circuito neuronal passível de conserto farmacoquímico -- em um mundo assim, não é evidente que o Curador, Oráculo e Psicopompo são mais do que nunca necessários, que as antigas e eternas verdades das relações sutis entre o corpo e a mente, da identidade essencial entre remédio e veneno dependendo do contexto, de que a morte pode ser em si mesma uma cura e uma libertação, precisam ser urgentemente redescobertas e aplicadas num mundo que deixou de ser são mas já não sabe mais como adoecer do modo correto?
E vejam bem, ambas as respostas acima são meramente humanas, centradas nas necessidades e nas ações puramente humanas -- mas os Deuses, Endovélico entre eles, são indivíduos dotados de razão, vontade e propósito, e a iniciativa do contato é no mínimo tanto deles quanto nossa; eles têm deixado bem claro, de vários modos, que estão interessados em voltar a fazer parte de nossas vidas, mas agora em bases menos desiguais, pois o mesmo desenvolvimento cultural que num primeiro instante nos afastou deles também nos deu os meios para que agora possamos compreendê-los melhor e, de modo livre e consciente, renovar as antigas alianças para o bem de nosso mundo.

domingo, 28 de setembro de 2014

Endovélico, Semana 12: Locais de Culto

Assim como a semana passada coincidiu com datas importantes do culto de Endovélico, esta semana abre com o dia dedicado ao Arcanjo Miguel, que é justamente o onomástico do santuário mais conhecido e arqueologicamente explorado do nosso deus, a colina de São Miguel da Mota, no Alandroal:


-- esse santuário é, ao que parece, puramente romano, sem evidências de um culto nativo original; as escavações ainda encontram fragmentos de mármore de excelente qualidade, o qual foi sendo removido do santuário ao longo dos séculos pós-cristianização (o Mosteiro dos Agostinhos, em Vila Viçosa, a igreja da Senhora da Boa Nova entre tantos, e o Liceu de Évora teria recebido as próprias colunas do templo).
Próximo dali, e banhado pelas mesmas águas do rio misteriosamente chamado Lucefecit, acima retratado, está o que os pesquisadores pensam ser o santuário original do deus, na colina pedregosa de Rocha da Mina:


degraus cavados na rocha, terraços esboçados, e a recente descoberta de habitações no local apontam para o que era uma comunidade viva e florescente de aldeões e sacerdotes, sustentados pela caça e coleta nos bosques e a pesca no rio, com abundância de água provinda deste e da fonte que deu nome ao local (e que, não surpreendentemente, é considerada como tendo propriedades curativas).
Como disse antes, alguns autores consideram que Endovélico teria sido cultuado em Panóias, ao norte de Portugal:


(curiosamente longe dos santuários conhecidos, embora também seja curioso que a arquitetura de Rocha da Mina seja característica do norte, e não do Alentejo), como sendo uma das divindades dos povos da região, os Lapitae, que "cultuavam a serpente e o javali" (!!!), e sincretizado com o romano-egípcio Serápis, também curador, mas em Panóias ostentando um aspecto ctônico e sendo cultuado lado a lado com os Severos (como eles chamavam as divindades infernais) -- eu não levava a hipótese de Panóias a sério até fazer a pesquisa desta semana, mas após ter lido o que transcrevi acima, estou me convencendo...
E aqueles de nós, a imensa maioria, vivendo longe dos santuários, como fazemos o nosso culto?


Simplesmente criando Altares domésticos, com as imagens e símbolos adequados, e que, após a devida consagração e as primeiras oferendas, se tornam locais de culto adequados ao "presentíssimo e prestativíssimo", onde ele concede de bom grado seus dons.


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Endovélico, Semana 11: Festivais, Dias Santos, Épocas

A sincronia que me fez iniciar as 30 Semanas Devocionais no começo de julho me leva a, na semana das datas consagradas, escrever isto no dia do Equinócio da Primavera, exatos seis meses depois do Equinócio de Outono, que, como já vimos, marca a descida de Endovélico ao Mundo Profundo e sua transformação em Enobólico, o Muito Negro, regendo os mortos ao lado de Ategina, que desceu às profundezas procurando por ele; hoje, ambos ascendem do abismo para trazer a Vida e a Luz de volta ao mundo dos vivos, e tudo o que vive recebe suas bênçãos nesta estação.
Além dos Equinócios, celebrados na Bruxaria Ibérica, os modernos cultuadores do deus celebram seu dia nas proximidades do Solstício de Verão, sintonizados mais com o seu lado solar/luminoso, e é essa temporada que testemunha as comemorações religiosas, acadêmicas e turísticas a ele dedicadas no Alandroal e em Rocha da Mina.
Como já disse, eu cultuo nove Divindades numa "semana" de nove dias, e o próximo dia dele será nesta quarta, 24/9 -- isso significa que estou iniciando um ciclo de 3 dias começando hoje, colhendo amoras pela manhã e fazendo o rito equinocial à noite, saudando Endovélico e Ategina retornados no alvorecer da terça, e celebrando o dia sagrado dele na quarta de manhã e à noite (se tudo correr bem, incubando sonhos enviados por ele).
Nenhuma destas datas, volto a dizer, é atestada historicamente como sendo do culto original de Endovélico, mas quem tentar pelo menos uma libação de vinho e uma oração a ele esta noite terá algumas surpresas...


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Endovélico, Semana 10: Oferendas

Esta é uma das semanas em que eu poderia falar do tema em um parágrafo e o resto seria para encher linguiça, mas o tema parte de pressupostos e leva a consequências que merecem uma discussão mais extensa.
Começando pela questão mais imediata: porque fazemos oferendas de comidas e outros itens materiais aos Deuses, isso não é primitivo demais? Essa pergunta é bastante comum, não só fora das fés pagãs como no seio delas, e para responder a isso seria bom olharmos a sequência das versões da Liturgia da ADF -- no início a ênfase era em oferendas imateriais, geralmente música, canto ou poesia, sendo a resposta emocional dos participantes do rito às performances dos ofertantes parte essencial da oferenda, mas com o tempo a prioridade passou às oferendas materiais, e a declaração de membros da ADF a respeito mencionava várias razões para essa escolha: um afastamento deliberado da "imaterialidade" associada à espiritualidade judaico-cristã, antecedentes históricos e arqueológicos de oferendas em rios e lagos, e uma declaração enfática do valor intrínseco e sacralidade do mundo material e tudo o que ele contém. Claro, não é a substância material em si que Deuses, Ancestrais e Espíritos da Natureza levam da oferenda, mas a sua contraparte anímico-energética, juntamente com a devoção associada ao ato físico da oferenda.
A outra pergunta que surge desta é a seguinte: os Deuses necessitam receber oferendas, há uma carência neles que a oferenda preenche? Se assim fosse, eles teriam todos perecido quando seus cultos foram terminados pelo monoteísmo predatório, o que não foi em absoluto o que ocorreu, como qualquer politeísta moderno pode confirmar -- a função da oferenda é exatamente a mesma de uma ou mais pizzas numa mesa cheia de amigos: uma troca de energia e presentes, um reforço dos laços de amizade, um pretexto para os participantes desses laços sentarem juntos em alegria. Nós não a vemos como um dízimo a ser pago, ou pior, como um jeito de comprar o favor divino e forçá-lo a acontecer em troca do que foi ofertado, como tantas igrejas modernas blasfemamente afirmam a seus rebanhos.
Quando ofereço folhas de louro, uvas, pão preto, vinho ou carne de porco a Endovélico, eu o faço em sinal de gratidão pelas boas coisas da minha vida, que não são poucas, com oferendas especiais a cada nove dias da minha semana ritual (ontem, dia da I Conferência Paulista de Druidismo e RC, foi um desses dias), sem me sentir aviltado ao pagar tributo nem aviltar meu padroeiro ao comprá-lo com minhas ofertas, mas como companheiros partilhando um banquete: "tome, é todo seu".


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Endovélico, Semana 9: Concepções Errôneas

Em se tratando de uma Divindade arcaica, enfiada à força dentro da moldura estreita da interpretatio romana, demonizada ao esquecimento pela Cristandade, sem mais que altares e imagens dispersas em santuários isolados atestando sua existência, e redescoberta tardiamente num mundo que já não vive a cosmovisão da sua cultura nativa, é de se esperar que acidentes de percurso tenham ocorrido, e que muitas idéias erradas, antigas e modernas, tenham se formado sobre ela, seu culto e natureza.
Começando pelas antigas, os historiadores portugueses do século XVI-XVII, em especial frei Bernardo de Brito e frei Martinho de São Paulo, citando um tal de Pedro Aládio (um cronista romano que só aparece nas obras de frei Bernardo, muito provavelmente fictício), sincretizam Endovélico com ninguém senão Cupido (!), e dizem que seu santuário em Vila Viçosa (que não existe lá) teria sido fundado por Maharbal, conquistador cartaginês, e nele a imagem do deus era feita de prata pura, retratando-o como tendo "olhos fechados, um coração sobre a boca, e pés alados", supostamente copiando uma imagem mais antiga em Chipre -- os historiadores atuais atribuem esse sincretismo com Cupido (ou Amor, como os romanos e os medievais costumavam chamá-lo) às esculturas de crianças aladas portando tochas, encontradas em São Miguel da Mota, e que possivelmente seriam associadas ao culto do aspecto Psicopompo de Endovélico.
Dos enganos modernos, um é ainda bastante comum -- centenas de sites descrevem Endovélico como sendo "o principal deus do panteão lusitano", mas já vimos que esse panteão nunca existiu de forma unificada e trans-tribal, e que ele não é o principal, mas apenas o mais atestado arqueológicamente e mais popular no imaginário pagão moderno, o que lhe deu um destaque totalmente desproporcional ao seu status original -- o outro engano, felizmente, parece estar desaparecendo aos poucos: há dez anos, uma pesquisa em sites de busca sobre Endovélico quase que só mostrava ou blogs de movimentos ultranacionalistas, de tipo xenófobo-extrema-direita, ou clipes de uma banda skinhead portuguesa, criadores de um subgênero chamado "hatecore", e toda essa corja tinha a hubris de dizer que Endovélico era um deus exclusivo de lusitanos puro-sangue, e que todos os outros eram indignos de seu culto e por ele odiados e desprezados; hoje, a mesma pesquisa na Internet mostra todo o renascimento do "culto endovélico", incluindo os eventos anuais do Concelho do Alandroal,  ou o site-database dos arqueólogos portugueses, ou a recente peregrinação da Confissão Wicca Celtibera ao santuário do deus, ou artigos de revistas arqueológicas, ou até, vejam só, este blog...
Devo dizer, para encerrar a discussão, que estou ciente que algumas, ou muitas, ou todas as minhas intuições sobre a natureza e o culto de Endovélico podem estar tão erradas quanto os três exemplos que dei, e que no futuro rirão de mim como do frei Bernardo de Brito, e com a mesma razão; a diferença é que eu sei distinguir o que é sabido do que é suposto, e não tento passar um pelo outro, e ao procurar preencher lacunas minhas fontes provém da história, arqueologia e mitologia comparada, e são sempre vistas como provisórias, o melhor possível nas circunstâncias atuais, e sujeitas a revisão se novos fatos surgirem; esse cuidado, que partilho com meus amigos no Reconstrucionismo Celta, é o que pode nos salvar de enganos que, além de nos confundir e aos que nos lêem, também ofendem as Divindades ao retratá-las como algo que não são.


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Endovélico, Semana 8: Aspectos e Variações

Esta semana, vamos olhar com mais detalhes os três aspectos de Endovélico já esboçados nas semanas anteriores...
Para começar com o Oráculo, notem que ele foi sincretizado com Esculápio -- e não com Apolo, como seria o procedimento-padrão da interpretatio romana para uma Divindade estrangeira associada à cura-- e a razão disto é simples: ambos são Deuses da cura, e ambos também são Divindades oraculares, mas a diferença crucial entre os dois é que o oráculo de Apolo é do tipo "mediúnico", onde a Pitonisa em transe fala pelo deus, enquanto o de Esculápio é "oniromãntico", ou seja, os devotos sonham com o deus ao dormir em seu santuário, e ao acordar interpretam seus sonhos sozinhos ou com ajuda dos sacerdotes; no segundo caso o contato do fiel com a Divindade é direto, sem intermediários, e depende de um esforço ativo do consulente em se preparar (via regimes austeros, orações e meditação) para incubar o estado onírico onde o deus pode se aproximar e comunicar seus oráculos; como já vimos, J. Leite Vasconcelos considerou que os remanescentes do santuário de Rocha da Mina sugerem que uma das cãmaras poderia ser onde os devotos praticavam a incubação de sonhos, pela arquitetura similar à dos santuários de Asclépio em Epidauro e de Nodens em Lydney Park. A imagem do devoto, deitado aos pés da imagem do deus, cabeça a nível do chão como que tentando ouvir a voz das profundezas, logo traz à mente o EX IMPERATO AVERNO que comentamos semana passada, a mensagem que emanou das profundezas e alcançou a mente do devoto, suspensa entre a vigília e o sono profundo, em forma de sonho.
O Curador, como vimos, está estreitamente associado ao Oráculo, desde que a principal razão pela qual se buscava sua orientação era saber o que fazer para se curar -- minha intuição, no entanto, me diz que no caso de Endovélico aconteceu o mesmo que com Asclépio (a forma Grega de Esculápio): os ex-votos mais antigos em seu santuário de Epidauro descrevem o deus aparecendo durante o sonho do fiel, que desperta já plenamente curado, enquanto numa etapa posterior o deus orienta em sonho o fiel sobre como se curar sozinho, e na fase final o sonho se torna uma receita densamente simbólica que os sacerdotes interpretavam para aí prescrever um esquema terapêutico ao fiel; um lento processo de afastamento da Divindade ao longo de séculos, talvez?
O Guia/Senhor dos Mortos é mais obscuro, como as Divindades ctônicas tendem a ser (e é digno de nota que a interpretatio não cogitou associá-lo com o Hermes Cthonios (Guia das Almas) ou Hades/Plutão (Senhor dos Mortos)) -- mas, lendo o mito esculapiano, vemos que a ele foi pedido que ressuscitasse os mortos, o que ele fez (em algumas versões por dinheiro, em outras simplesmente porque podia), ao que Hades protesta pela violação de seus domínios e Zeus, em resposta, fulmina Asclépio com um raio: é difícil ler isso e não lembrar do mito Irlandês de Diancecht e seu filho Miach, que em certo ponto "revive" a mão morte e decepada do rei Nuada, sendo ferido de morte por seu pai e se curando vezes seguidas dos golpes, até ser finalmente morto e enterrado -- em ambos os mitos Irlandês e Grego (e certamente no Celtibérico) o tema da tentação do Curador para violar as leis naturais e negar à Morte um lugar na ordem das coisas está bem atestado, e voltaremos a ele em semanas posteriores.
O que há em comum entre os três aspectos do deus é o que os antropólogos chamam de liminaridade, ou seja, a mediação entre estados, condições ou reinos opostos -- o Oráculo do Sonho entre vigília e sono profundo, o Curador da Doença entre saúde e morte, e o Guia das Almas entre este mundo e o Outro-Mundo -- e é bom notar que cada aspecto é tanto solar como ctônico, em graus diferentes, e que há uma certa interpenetração de papéis entre os três: foi por isto que escolhi a imagem acima para esta semana, onde cada cor/aspecto traz em si uma segunda cor e avança em direção a uma terceira, formando um todo fluido e complexo que, para mim, simboliza muito precisamente a natureza de Endovélico.


domingo, 24 de agosto de 2014

Endovélico, Semana 7: Nomes e Epítetos

Esta semana, só para variar, temos evidências epigráficas (isto é, inscrições) de sobra para basear este post, e não deixaremos essa oportunidade passar batida.
Até o momento dispomos de 72 inscrições em altares dedicadas a Endovélico, e nenhuma outra Divindade bate este recorde; os títulos dados a ele pelos Romanos incluem Numen (ser sagrado), Deo (Deus), Sacrum (Sagrado), Domine (Senhor), com superlativos como "presentissimum et praestativissimum" (muito presente e muito prestativo) que denotam um senso de respeito e gratidão por essa Divindade tão generosa com suas dádivas e tão pronta a atender as súplicas de seus devotos -- e nem seria de estranhar, pois a tradução mais aceita do nome de Endovélico é "o Deus muito Bom", não no sentido de "bonzinho", e sim no de ser "capaz, competente, eficaz" (curiosamente, esse exato título é dado, pelos mesmos motivos, ao Dagda irlandês, o que não significa que haja uma identidade desses Deuses tão diferentes um do outro).
No entanto, nessas 70 e tantas inscrições, o nome dele sofre todo tipo de modificação, aparecendo como Andevelico, Enobolico, Andovélico, Endebólico, etc, etc -- a maioria dos pesquisadores considera essas variações como sendo acidentais, consequência da dificuldade dos Romanos de lidar com a fonética das tribos Ibéricas e expressá-la em seu alfabeto, mas certos autores sugerem que algumas dessas variantes seriam deliberadas e expressariam aspectos diferentes do deus: por exemplo, Enobolico seria traduzível como "o Muito Negro" (bem adequado a um deus ctônico), e Andevélico como "o Senhor da Flor" (talvez no seu aspecto solar/renascido).
E não devemos esquecer de Vaélico, que divide os pesquisadores entre os que o consideram como uma Divindade distinta (e que apontam seu nome como sendo cognato da palavra Proto-Celta para "lobo") e os que o consideram como sendo o próprio Endovélico sob outra variação nominal (minha intuição os percebe como distintos, assim como no caso de outro deus homófono, Indibilis).
Para encerrar, só queria mencionar uma expressão registrada num dos altares consagrados a ele, que de modo oblíquo, sem mencionar seu nome, expressa do jeito mais inquestionável o seu poder e o respeito que o mesmo comandava: EX IMPERATO AVERNO, "pela determinação emanada das profundezas".

domingo, 17 de agosto de 2014

Endovélico, Semana 6: Panteão

Esta semana a dificuldade é de outra ordem, pois o próprio conceito de "panteão", que se aplica bem aos Keméticos, de quem peguei emprestado esse desafio das 30 Semanas, simplesmente não existe como tal entre os povos da Ibéria -- diferentes povos, e mesmo diferentes aldeias, mesmo que relativamente próximas, cultuavam Divindades diferentes, e são muito raros os casos em que uma delas teve culto em mais de, digamos, cinco localidades; a ênfase era no culto a uma, duas ou três Divindades locais, quase na categoria de Genii Loci, ou seja, entidades vinculadas a uma colina, rio, fonte ou outra locação geográfica, considerada como a morada do Genius, como no caso de Endovélico, associado às colinas de São Miguel da Mota e Rocha da Mina e ao rio Lucefecit (há quem alegue que ele teve culto no santuário de Panóias, bem longe do Alentejo, e lá seria sincretizado com o deus romano-egípcio Serápis, mas isso é controverso); assim, vou considerar o termo panteão em latu senso, me limitando às outras Divindades do meu culto pessoal, sabendo bem que elas certamente não foram cultuadas conjuntamente em sua origem.
Já falei de Ategina semana passada, e agora vou falar de outros Deuses e Deusas "revelados" a mim pelo livro "A Voz dos Deuses", começando por Tongoenabiago, o deus da Fonte do Ídolo em Braga (o que sugere que ele era cultuado por meus ancestrais diretos, já que meu avô paterno veio de lá), cujo nome vem de uma raiz céltica significando "juramento", que sugere que havia o costume de se jurar pelas águas da fonte, com Tongoenabiago como testemunha do juramento; eu intuo como seus atributos o cão, a cor branca, o grou e o amieiro, e como objeto ritual o cálice.
Coaranioniceus é outro, desta vez na região do Monte Santo de Olisipo, hoje o Parque de Monsanto em Lisboa: alguns o associam ao chamado "Ares Lusitano", deus guerreiro a quem se sacrificavam cavalos, bodes e prisioneiros de guerra, e também como regente das minas de ouro e metais da região, e assim eu o vejo como senhor da abundância e da guerra, com o cavalo e o vento (uma lenda registrada pelos cronistas romanos fala da manada de cavalos sagrados, nascidos de éguas fecundadas pelo vento, que ali viviam) como seus atributos.
Runesocesios ("do mistério da lança"), cultuado em Évora, a mim sugere um guerreiro mais feroz que Coaranioniceus, com sua lança sendo o raio dos céus, e regendo o carvalho, o touro e a espada.
Bandua, padroeiro dos bandos de guerreiros unidos por votos sagrados, é às vezes chamado "o que ata" e uma imagem recém-encontrada, supostamente dele, o mostra com uma corda atada à volta do peito como símbolo desse vínculo; gamo, teixo e corvo são para mim consagrados a ele, que é um dos raros cultuados em diversas localidades, com títulos anexos ao nome como Banderaiecos, Bandioilenaico, Bandueaetobrigos, etc, etc...
Trebaruna, "mistério da casa", é a guardiã do lar (e ligada ao fogo da lareira) e a protetora dos heróis, tocha numa mão, lança na outra, carneiro, pássaro-preto e sorveira como atributos -- Leite de Vasconcelos escreveu muito sobre ela, tanto textos acadêmicos como poemas, e ela foi divulgada ao mundo quando o grupo Moonspell compôs uma música em homenagem a ela, o que a torna uma das Divindades mais conhecidas fora de Portugal.
As duas Deusas que se seguem não são mencionadas por nome no livro de João Aguiar, mas se impuseram a mim de modo difícil de recusar...
A Deusa da Serra da Lua, em Sintra, se manifestou a mim vestida de negro e velada, com a lebre, coruja e salgueiro como seus atributos; o nome que me veio foi Cintia, o antigo nome de Sintra, mas ela avisou que tinha outro nome que mais tarde eu descobriria, e agora a conheço como Iccona.
A Deusa da Serra da Estrela, ou os Montes Hermínios, se apresentou como Hermínia (mas disse que não era "exatamente" assim o seu nome, que anos depois li num artigo sobre os Celtas da Ibéria como Erbina), associada por mim ao urso, falcão e bétula.
Como disse, uma assembléia de Divindades de locais e características as mais diversas, uma pequena parte de todas as cultuadas na Ibéria, dificilmente um panteão nos moldes tradicionais, e que só tem em comum seu culto no meu altar e sua presença em minha alma.


domingo, 10 de agosto de 2014

Endovélico, Semana 5: Família


O tema desta semana era tão preocupante quanto o anterior, pela mesma ausência de mitos historicamente atestados, e com o agravante de que definir laços familiares exige uma certa precisão de informações com a qual não podemos contar; porém, uma vez que chegamos a um mito reconstruído na semana passada, vamos nos ater a ele e ver o que conseguimos.
Ategina, a consorte de Endovélico, também chamada de Atégina ou Ataecina, tem seu nome em várias inscrições em altares ou ex-votos dedicados a ela; seus atributos incluem a cabra (como a da ilustração acima) e o cipreste (eu intuo também a macieira e o ganso), e os Romanos a identificaram com Prosérpina, tanto no aspecto primaveril das flores e frutos quanto no aspecto sombrio de Rainha dos Mortos -- as inscrições a mostram sendo chamada de Dea (Deusa), Sancta (Santa) e Domina (Senhora), e curiosamente uma parte não desprezível dessas inscrições invoca seu auxílio para amaldiçoar pessoas que, seja por roubos ou outros malefícios, prejudicaram os invocadores, uma prática chamada de defixio que os Romanos já usavam antes de conquistar a Ibéria, escrevendo a maldição em folhas de chumbo -- a quantidade dessas maldições sugere que eram bem-sucedidas, desde que as pessoas não perderiam seu tempo com uma Divindade que não as atendesse, e na verdade muitos desses ex-votos agradecem as dádivas obtidas...
Como vimos na semana passada, ao iniciar o Outono Ategina vai em busca de Endovélico, seguindo-o ao Outro-Mundo subterrâneo e lá reinando a seu lado sobre as almas dos mortos, até retornar com ele à superfície, onde os vivos os aguardam, na entrada da Primavera, e então despertando a vida adormecida pelo Inverno (a interpretação do seu nome, Ate-Gena, é "a renascida" ou "a que faz renascer").
Alguns sites dizem que ela também rege a Lua -- imagino que seja para fazer par com o Sol de Endovélico, pois não achei nada mais que justifique essa afirmação.
Sem outros possíveis membros da família de Endovélico, nem mesmo como palpite/intuição/GPN, encerro por aqui...


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Endovélico, Semana 4: Mitos

Esta semana foi motivo de preocupação para mim desde antes de decidir fazer as 30 Semanas, pelo simples fato de que os povos Celtas do continente europeu perderam todos os seus mitos originais sob a dominação de Roma, diferentemente dos Celtas das Ilhas Britânicas, que não sofreram esse flagelo -- ou seja, este post quase foi escrito assim:
"Não se conhece nenhum dos mitos relativos a Endovélico. Voltem na próxima semana".
Mas, para muitos historiadores, essa ausência de mitos não é mais que um desafio a ser enfrentado: um fragmento de cerãmica aqui, uma linha de um cronista Grego ou Romano ali, um mito de outra tribo Celta ali, muitas vezes permitem conjecturar com alguma base e recriar os mitos perdidos, ou na pior das hipóteses criar mitos novos porém plausíveis.
Por exemplo, o relato de Estrabão sobre o costume dos povos do litoral da Lusitânia e Galícia de contemplar, num silêncio de temor e respeito, o Sol ao se por sobre o Atlãntico, sugere uma visão mítica do Sol, enfrentando todos os riscos, ao iniciar sua jornada noturna sob as águas e a terra rumo ao oriente, de onde voltará com sua luz para o mundo diurno, e aponta para uma oposição dia/noite, luz/trevas, Mundo/Outro-Mundo que, como já vimos, combina com a dupla natureza solar/ctônica de Endovélico.
Kondratiev apontou que essa dupla natureza do Javali -- que nos mitos da Irlanda e Gales é alternadamente o benigno instrutor e curador, como o javali branco de Marvan, e o poder sombrio da morte e destruição, como o Twrch Trwyth do Mabinogion -- é a força que faz girar a Roda do Ano, vista como uma Caça ao Javali Cósmica, cujos pontos críticos são a morte do Deus da Luz, ferido pelo Javali Negro (como no mito Irlandês de Diarmuid, onde na verdade caçador e caça estão misticamente ligados e matar um é também matar o outro) e o retorno triunfal do Deus de seu retiro no Outro-Mundo, que dividem o ano ritual numa metade luminosa/Verão e outra sombria/Inverno.
Provavelmente foi essa constelação de temas simbólicos que levou os clãs da Bruxaria Tradicional Ibérica à seguinte versão do mito: no Equinócio de Outono Endovélico, o Senhor da Luz Solar, sai para caçar o Javali destruidor e é por ele ferido de morte, sendo levado pelo Javali até as profundezas do Outro-Mundo e lá se tornando o Senhor dos Mortos; Ategina, sua consorte, que rege a força vital da Terra, vai até ele, deixando para trás o mundo que escurece e esfria a dormir sob o manto do Inverno, e nas profundezas da Terra ela reina conjuntamente com ele sobre as almas e os Ancestrais; quando chega o Equinócio da Primavera, ambos regressam ao mundo da superfície, Luz e Vida despertando a Natureza adormecida, e assim sucessivamente vão alternando entre os pólos sazonais de sua caminhada anual.
Como disse antes, não temos como confirmar a autenticidade histórica deste mito e declarar que era exatamente nisso que os antigos povos da Ibéria aceeditavam, mas a validade mítica deste relato, sua capacidade de ressoar nas almas dos que o lêem e representam ritualmente, é inegável e inescapável -- neste começo de Agosto, a pouco mais de um mês do Equinócio, quase dá para ouvir as raízes das plantas lentamente se movendo, como se se espreguiçassem, aguardando sonolentas que os Senhores da Morte voltem para reger a Vida sob a luz do Sol...


segunda-feira, 28 de julho de 2014

Endovélico, Semana 3: Símbolos e Imagens


A maioria dos símbolos consagrados a Endovélico vem da iconografia atestada em altares e inscrições, alguns são dedutíveis da interpretatio romana e seu sincretismo imposto, e uns poucos são GPN...
Começando pelos animais, o mais característico dele é o Javali:


que é um dos retratados num de seus altares, e que talvez esteja ligado às imagens dos berrões de pedra do norte de Portugal.
A Pomba aparece numa estátua achada no santuário de São Miguel da Mota, talvez de um sacerdote ou devoto, trazendo uvas numa mão e uma pomba na outra:


O terceiro animal é uma dedução, minha e de outros, baseada no sincretismo romano com Esculápio, ou seja, a Serpente:


(notem que os três sugerem os Três Mundos célticos, Terra/Javali, Céu/Pomba e Mar/Serpente (ou rio, como veremos mais tarde)).
Das plantas, os altares apresentam a Palmeira (uma folha), o Louro (uma coroa) e o Pinheiro (uma pinha), além das Uvas como oferenda:





Pela dupla natureza solar/ctônica que lhe é atribuída, outros símbolos são o Sol (o lado de Esculápio/Apolo) e a cor Negra (uma versão do seu nome, Enobolico, é traduzível como "o muito negro"):



(eu intuo que o símbolo que une ambos os aspectos é o Sol Negro, o Sol durante um Eclipse):


O que nenhuma imagem mostra, e eu só intuo, são os objetos rituais consagrados a ele -- o Bastão da Serpente, pelo simbolismo esculapiano, e a Faca Sacrificial, pelo lado sacerdotal de estar no limiar entre vida e morte, Mundo e Outro-Mundo:



Quanto a imagens, a que abre este post é uma cabeça de uma escultura, atualmente no Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa, visivelmente romanizada e feita para se assemelhar ao Esculápio romano, mas eu gostaria de mostrar esta, obviamente moderna, feita pelo meu amigo Everson Romero:


Estes são, por enquanto, os símbolos que expressam melhor os aspectos do deus, e fará bem quem meditar neles como modo de contactar sua presença.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Endovélico, Semana 2: Primeiro Contato

Tendo chegado ao Druidismo após algumas idas e vindas,  quando cheguei para ficar encontrei a questão de qual dos panteões Celtas cultuar -- os Deuses da Irlanda eram aqueles com mais referências históricas e mitológicas, claro, mas apesar disso e da minha estima por eles eu não me sentia realmente "em casa" ali; as Divindades da Gália pareciam me chamar mais para perto, mas a carência de mitos pelos quais conhecê-las era um obstáculo sério. Sabia que os Celtas habitaram a Península Ibérica por milênios, mas naqueles tempos antes da Internet não pude saber quase nada sobre eles e seu culto, então essa opção nem tinha me ocorrido como uma possibilidade séria.
Foi então que, em 1996, durante férias em Portugal, numa feira de livros na praça em Cascais, eu encontrei o livro que iria me apontar a direção a seguir-- A Voz dos Deuses, de João Aguiar: um romance histórico centrado em Viriato e sua época, narrado por um de seus companheiros de guerra, na velhice consagrado sacerdote do deus Endovélico...e foi aí que, pela primeira vez, eu vi o nome Dele, e referências ao seu culto no outeiro de Arcóbriga, mais tarde São Miguel da Mota, e seus dons de cura, sonhos e condução das almas ao Outro Mundo; também ali encontrei as outras Divindades cultuadas no mesmo período, como Tongoenabiago, Trebaruna, Ategina e outras, que vieram a compor o meu panteão pessoal, e todas as fontes históricas e arqueológicas comentadas no Apêndice do livro, mas foi Endovélico que ressoou em minha alma de modo mais direto e persistente, estabelecendo o vínculo que perdura nesta vida e para além dela.

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segunda-feira, 14 de julho de 2014

Endovélico, Semana 1: Introdução


Para começar este ciclo de trabalhos e meditações, gostaria de dar uma idéia básica sobre Endovélico para quem O não conhece (o que inclui 99,9% das pessoas, não tenho ilusões a respeito...)
Ele é a mais conhecida Divindade dos Celtas da Península Ibérica, e uma das quais chegou até nós porque os Romanos adotaram seu culto quando ali chegaram; na verdade, todas as inscrições dele são do período romano-ibérico, escritas em Latim, geralmente ex-votos deixados por um devoto em agradecimento por graças obtidas -- e foi justamente essa fama, de conceder graças de cura de doenças ou oráculos a consulentes, que o tornou famoso e manteve seu culto até a cristianização no século V dC, quando seus santuários foram abandonados (ou, como ocorreu no outeiro da Mota, convertidos em igrejas cristãs dedicadas a São Miguel) e esquecidos.
Foi o trabalho de J. Leite de Vasconcelos, historiador e arqueólogo português, que revelou ao mundo os santuários esquecidos dos Deuses Antigos da Ibéria e Lusitãnia, e o nome das Divindades ali cultuadas: quem visita o Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa pode ver os altares e imagens tiradas das escavações do santuário de Terena.
E, como disse no post anterior, o culto a Endovélico está sendo revivido aos poucos, e mesmo agora já congrega gente bastante para atrair o interesse turístico da prefeitura do Alandroal, que todo ano promove uma semana de debate arqueológico e festividades mais ou menos pagãs, culminando este ano com o rito celebrado pela ordem Wicca Celtibera (de quem desavergonhadamente tomei a imagem do post)sábado passado.
Porque essa é a questão: sabemos de Endovélico (ou dos outros Deuses de sua terra) apenas o que a arqueologia, a etnografia, a linguística e a religião comparada nos permitem saber, e o resto é obrigatoriamente fruto de imaginações, cuidadosamente alimentadas pelas fontes que citei, e sobre as quais, se temos sorte, a Inspiração desce e vivifica como possíveis ritos, preces e devoções praticáveis nos nossos dias; até onde chegamos, nós, devotos do "deus presentíssimo e prestativíssimo", as próximas semanas, assim espero, mostrarão.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

30 Semanas para Endovélico

Sábado, no Alentejo, membros da Confissão Wicca Celtibera vão fazer uma cerimônia noturna dedicada a Endouellicus, a divindade tutelar do santuário de Rocha da Mina, como parte de uma semana cultural que vem se repetindo há anos pelas graças da administração municipal -- vejam só, uma cerimônia pagã com o aval do Estado! -- e como o sintoma mais evidente de um ressurgimento dos mitos e divindades da Ibéria, das quais Endovélico é o representante mais famoso.
Para me juntar à celebração, eu me inspirei nas 30 Semanas Devocionais que os Keméticos, ou seja, os Reconstrucionistas Egípcios, estão escrevendo em seus blogs, para tentar registrar aqui o que se conhece e o que se supõe sobre Endovélico, seguindo temas predeterminados:

1) Introdução
2) Primeiro Contato
3) Símbolos e Imagens
4) Mitos
5) Família
6) Panteão
7) Nomes e Epítetos
8) Aspectos e Variações
9) Concepções Errôneas
10) Oferendas
11) Festivais, Dias Santos, Épocas
12) Locais de Culto
13) Relevância Atual
14) Culto Moderno
15) Aspectos Mundanos
16) Valores do Panteão
17) Relações com Outros Panteões
18) Gênero e Sexualidade
19) Qualidades
20) Arte Evocativa
21) Música Evocativa
22) Texto Evocativo
23) Literatura Evocativa
24) Testemunho Positivo
25) Testemunho Negativo
26) Relacionamento
27) Enganos
28) Desconhecimento
29) Experiência Pessoal
30) Conselhos

...vamos ver o que sai daí...


quinta-feira, 3 de julho de 2014

Viriato


Como os Gauleses tiveram Vercingetorix, e os Britânicos a rainha Boudicca, também os povos da Lusitânia tiveram um herói, um libertador, um mártir a ser lembrado – Viriato.

Pouco conhecido fora de Portugal, um virtual ninguém mesmo para os povos de língua e cultura portuguesas, é ele e a sua história, tão similar à dos heróis Celtas acima citados, o tema deste artigo.

Ainda hoje em Portugal pode-se perguntar a alguém quem foi Viriato, e esse alguém, sobretudo se for mais idoso, vai recitar a frase aprendida na escola primária: “era Viriato pastor nos montes Hermínios...”; mas, como costuma ocorrer, mito e verdade aqui se misturam. Embora a tradição popular sempre o tenha descrito como pastor de cabras nos montes Hermínios (a atual Serra da Estrela), é um consenso entre os historiadores modernos que Viriato seria do Sul (segundo J. Leite de Vasconcelos, do Alentejo; para Jorge Alarcão, talvez baseado na crônica romana de Diodoro, do litoral ao norte da foz do Tejo). Mesmo seu nome verdadeiro é desconhecido – “Viriato” significa “portador das vírias”, ou seja, dos grandes braceletes de ouro usados nos braços ou, no caso dos modelos maiores, nas coxas, e que seriam, talvez, a insígnia dos líderes dos bandos guerreiros.

Para as tribos Lusitanas, o direito de herança era patrilinear e exclusivo do primogênito, restando a seus irmãos sujeitarem-se a trabalhar para ele nas terras paternas ou unirem-se a outros deserdados em pequenos bandos especializados em furtos e saques nas comunidades vizinhas: não seria algo particularmente desonroso para os envolvidos, apesar de causar transtornos vários às vítimas dos saques, e não é demais ver aí, na tradição dos bandos de salteadores armados, a origem e o treinamento de batalha inicial que Viriato, filho de Comínio, teria tido.

E essa seria a sua vida, seguida de uma morte comum e do esquecimento completo, se não tivesse a águia de Roma lançado sua sombra sobre a Ibéria.

Os Romanos chegaram à Peninisula Ibérica inicialmente sem outra intenção que não a de fazer frente aos Fenícios/Cartagineses, já ali estabelecidos há séculos, tendo várias colônias no Sul (o Cineticum, atual Algarve) pacificamente mantendo rotas comerciais por todo o Mediterrâneo, pelas quais fluíam o ouro, prata e estanho ibéricos em abundância; após a derrota de Cartago e a dominação Romana sobre as cidades fenícias do Sul, os vencedores, agora donos do mundo conhecido, aproveitaram-se da riqueza assim disponível para reivindicar o domínio sobre toda a Ibéria.

Os vários pretores enviados por Roma fundamentaram sua conquista com sangue e traição: Sérvio Sulpício Galba, derrotado pelos Lusitanos em 151 aC, reverte o jogo e os derrota, mas, ao oferecer uma trégua honrosa aos vencidos, tão logo estes depuseram suas armas, ordenou o massacre de todos – poucos escaparam com vida, Viriato entre eles, e a notícia do ocorrido estarreceu a toda a Ibéria, a já conquistada e a ainda livre, e a revolta anti-Romana só fez crescer com o episódio.

Três anos depois, em 147 aC, o novo pretor, Caio Vetílio, enfrenta uma horda de 10.000 Lusitanos que haviam invadido a Turdetânia (sul da Espanha, perto de Gibraltar) e consegue por astúcia atraí-los para uma armadilha, encurralando-os numa fortificação abandonada, sem fontes de água ou estoque de alimentos, condenados a optar entre a morte por inanição ou a rendição-com-morte-ou escravidão.

Mas Viriato, que participou da invasão com o seu bando, e já tinha algum renome entre os Lusitanos pela sua bravura e senso estratégico apurado, não perdeu a calma. Esperou que o desespero lentamente tomasse conta dos outros bandos guerreiros ali presos com ele, pois só então estariam prontos a ouvir e acatar seu conselho – e falou.

Lembrou a todos ali presentes da traição de Galba, e de como destino igual lhes seria dado se se submetessem aos Romanos e se rendessem (“acaso Roma já respeitou alguma vez a palavra dada?”); apontou a ambição imperial de Roma como sendo inesgotável, e que não cessaria enquanto toda a Ibéria não fosse conquistada; e declarou que sabia perfeitamente bem como tirá-los do cerco para a liberdade, mas que para isso deveria ser ele, Viriato, a comandar todos os bandos e tribos em batalha, sem questionamentos.

A aclamação foi estrondosa. Viriato foi, ali, eleito chefe do que antes era uma horda indisciplinada, e agora se tornava o exército dos Lusitanos.

No dia seguinte, com ataques simultâneos em quatro pontos diferentes, rompeu o cerco Romano e fugiu com sua tropa, não sem antes abater e saquear os vencidos; de lá, derrotou Vetílio em Tríbola, e os seus sucessores, Caio Pláucio, Caio Unimano e Caio Nigídio, tiveram a mesma sorte.

A águia de Roma, alarmada com o rumo dos eventos, enviou para a Ibéria, agora não um pretor, meramente administrativo, mas um cônsul, Quinto Fábio Máximo Emiliano, que vence Viriato e o força a se retirar para Baikor (atual Bailén, Espanha) em 144 aC., mas de lá ele consegue incitar a Hispânia Citerior (ao sul do Ebro, leste da Espanha) à revolta, dando início à Guerra Numantina em 143 aC. e derrotando Quinto Pompeio e Quíncio, junto com Q. Emiliano.

O novo cônsul, Quinto Fábio Máximo Serviano, a muito custo consegue derrotar Viriato e forçar a sua retirada em 141 aC, avançando para o Cineticum e de lá subindo à Mesopotâmia-entre-Tagus-e-Anas (atual Alentejo, Portugal), sendo detido por Cúrio e Apuleio, chefes guerreiros aliados de Viriato, e retirando-se derrotado para a Bética (região do rio Guadalquivir, Córdova, Espanha), onde Viriato o derrota no cerco de Erisane, em 140 aC, e força a assinatura de um tratado de paz, contando com o cansaço e o medo dos Romanos para assegurar a paz com eles; Viriato entra para o seleto grupo dos Amici Populi Romani (Amigos do Povo Romano), dado apenas aos reis aliados (embora Viriato nunca tenha se autoproclamado rei).

Porém, o Senado quebra o tratado, como o próprio Viriato houvera previsto anteriormente, e Quinto Servílio Cipião é enviado à frente de novas tropas Romanas; Viriato tenta um acordo novo com Popílio Lenate, o governador da Hispânia Citerior, mas três guerreiros de seu próprio exército, Audax, Ditalco e Minuro, são por Lenate subornados para, na noite seguinte, degolarem Viriato em sua tenda.

Consumado o fato, após o pranto de todos os bandos agora unidos como um, foram concedidas a Viriato as honras de um rei tribal caído em batalha, mesmo que ele jamais tivesse reivindicado o título – jogos fúnebres, sacrifícios de bois, cabras, e mesmo de prisioneiros Romanos, libações de cerveja e vinho precederam o momento em que seu corpo, lavado e adornado com suas melhores roupas (que nunca usava, pois era conhecido sem temperamento avesso a vaidades e exibição) e armas, e as vírias que lhe deram o nome, foi posto na pira funerária sob o clamor dos Lusitanos, que davam seu adeus ao seu maior chefe e última esperança de liberdade para a Ibéria.

Os cronistas da época preservaram fragmentos de histórias e declarações que compõem um retrato fragmentado, mas coerente, de Viriato: homem simples, acostumado aos rigores do campo e da batalha, austero no comer e no beber, tomando para si nos saques apenas algo de que precisasse, como armas para substituir as danificadas, eloqüente e hábil no falar, venerado até a idolatria pelo seu bando de guerreiros prontos a darem a vida por ele, estrategista experiente, intransigente em relação ao que achasse correto.

Casou-se com Tangina, filha de Astolpas, rico proprietário de terras às margens do Tejo, que incialmente não viu isto com bons olhos pela falta de bens do noivo, bem como por suas relações comerciais e políticas com os Romanos (na festa do casamento, ao saber que havia Romanos presentes ao evento, Viriato ordenou que seus homens mantivessem-se armados e com os cavalos preparados para partir, e diante do altar como quem está de partida, recebeu uma noiva igualmente preparada, que não se fez de rogada e subiu na garupa do cavalo de Viriato sem olhar para o pai); mais tarde, Astolpas renegou as alianças com Roma e se uniu ao exército de Viriato (pouco antes da derrota final de Viriato, Popílio Lenate exigiu que Astolpas lhe fosse entregue como condição para o novo tratado de paz, mas Astolpas cometeu suicídio para não constranger o genro, agora aceito como filho).

Os fíli da Irlanda diziam: “O que é o Santuário que preserva? É a memória, e o que nela está preservado”.

Nesse espírito, no espírito Celta de preservar a memória dos Heróis, dedico este artigo aos Lusitanos do passado, na intenção de chamar quem o ler para participar na preservação da memória de Viriato e seus feitos, como exemplo de virtude para as gerações presentes e futuras.

Que Endovélico e as Divindades da Lusitânia ouçam estas palavras!


São Paulo de Piratininga,
14o. do Lughnasad, 2006