quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Episódio VII



AVISO: este texto NÃO apresenta spoilers, pelo simples motivo que eu ainda NÃO assisti o Episódio VII - podem ler sem medo ;-)
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A essa altura, só quem passou os últimos 40 anos debaixo de uma pedra naquele deserto que os árabes chamam de Quadrante Vazio não conhece mesmo que minimamente a saga de Star Wars, então não vou perder tempo explicando o básico: seis (agora sete) filmes, personagens icônicos, trilha sonora épica, um impacto na cultura pop sem igual...tudo isto, para coroar, embebido de doses generosas do chamado monomito de Joseph Campbell, a arquetípica Jornada do Herói. Sim, George Lucas declarou explicitamente sua dívida com Campbell, mas até que ponto essa superestrutura narrativa, como toda boa lenda, criou vida e dominou os temas nos roteiros das duas trilogias, é o que vamos explorar agora.
Quando, depois de décadas, Lucas finalmente iniciou a segunda trilogia (cronologicamente a primeira), cumprindo o plano revelado ao mundo por ocasião do Episódio V, O Império Contra-Ataca, eu notei coisas no Episódio I que pareciam familiares, mas a certeza só veio com o Episódio II - cada trilogia é espelhada nas outras de modo sistemático, os temas específicos de cada episódio são subordinados à estrutura relativa à posição do mesmo dentro de sua trilogia; parece complicado dito assim, mas me acompanhem:

-Episódio de Abertura (I, IV): vemos o jovem e impetuoso Herói (Anakin, Luke), sua origem humilde, seus anseios por algo mais, seu chamado pelo Iniciador (Qui-Gon Jinn, Obi-Wan Kenobi), os encontros e confrontos com o Mal (Darth Maul, Darth Vader), o sacrifício do Iniciador, o teste decisivo dos dons do Herói, a solene celebração de sua vitória.

-Episódio de Desenvolvimento (II, V): a vitória é fugaz, o Mal revida e cresce, o Herói é tentado pela sombra (Anakin por Dooku, Luke por Darth Vader) e quase cede, mas recua no último instante, com cicatrizes do confronto (a perda da mão em ambos os casos) como recordação e advertência.

-Episódio de Conclusão (III, VI): o Herói vê o conflito crescer e ameaçar aos seus (Anakin e Padme, Luke e Leia) e, no auge da conflagração final, abraça seu destino (queda ou vitória), encerrando o estado anterior das coisas para dar vez a um novo estado (República para Império, Império para República).

Como disse acima, eu não assisti ainda ao Despertar da Força, mas as críticas que li e os comentários daqueles amigos que estiveram anteontem na pré-estréia, que falam de "homenagem" e "repetição", só me fazem crer que o Mito está se repetindo na sequência prevista e que o Episódio VII espelha o I e o IV, com novos personagens seguindo a trilha arquetípica aberta pelos antigos, ou, na frase clássica de Battlestar Galactica, "tudo isto já ocorreu antes, e tudo isto ocorrerá de novo".
Mas então, dirão vocês, não há esperança?
O Mito não é uma repetição exata, inflexível e estática, mas sim um padrão que dá espaço para a liberdade e criatividade de cada personagem interpretar sua parte dentro dos limites que lhe cabem: em termos Druídicos, o dán de cada um interage com o de todos na harmonia da Grande Canção, e nessa mistura da contingência e da Inspiração não faz sentido falar de predestinação e livre arbítrio - como já vimos, o Bardo é livre para variar detalhes e formas em cada história tradicional como julgar melhor, mas a história em si é uma entidade viva e com uma surpreendente vontade própria, que só aceita ser mudada até certo ponto, se revolta, e retorna ao padrão no qual se sente mais ela mesma.
E onde estamos nós em nossas trilogias pessoais, que escolhas fizemos, que novas escolhas decorrentes dessas nos esperam virando a esquina do futuro?
Neste fim de ano, talvez seja tempo de pensar nestas coisas.
Que a Força esteja com todos nós.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Obrigações


Muita gente vai atrás das religiões pagãs atraída pelo que parece um caminho de liberdade irrestrita, diferentemente dos dogmas e mandamentos das crenças mais convencionais - a frase da Wicca "se não causar mal a ninguém, faça o que quiser" é o irresistível canto da sereia para essas pessoas - mas já vimos em postagens anteriores que há códigos éticos muito claros em todas essas religiões, incluindo o Druidismo, não existe isso de vale-tudo irrestrito; depois do choque que essa revelação traz aos mais deslumbrados, mesmo aqueles que conseguem absorvê-la sem abandonar decepcionados o caminho acabam perplexos diante do mistério dos geasa.
Geasa (singular geis) é o termo Irlandês para certas compulsões ritualmente impostas, seja na forma de atos proibidos ou obrigatórios, e que devem ser seguidas à risca sob pena de ruína pessoal ou catástrofe: o exemplo clássico é o de Cuchulainn, o herói do Ulster, que está sob os geasa de não poder comer carne de cão (o seu animal tutelar) e ter de aceitar qualquer comida oferecida por uma mulher, e tem seu destino selado quando três velhas no caminho oferecem a ele cozido de lontra (que em Irlandês é literalmente o "cão das águas"), ou seja, ele é forçado a escolher qual geis violar para cumprir o outro; guerreiros como ele podem ter dois ou mais geasa, mas os reis estão sob dúzias deles ao mesmo tempo, e assim a probabilidade de conflito insolúvel aumenta exponencialmente. Mas então, dirão vocês, qual é o propósito disso, senão uma armadilha que vai arruinar sua vítima mais cedo ou mais tarde?
Maria Nazareth Alvim Barros, autora de Uma Luz sobre Avallon, considera que os geasa servem como mecanismos de controle social sobre aqueles indivíduos ou classes sociais mais poderosos (reis) ou potencialmente perigosos (guerreiros), restringindo seu poder para o bem da tribo, mas logo à frente ela diz que os Druidas não estão sujeitos a nenhum geis - mas se eles são a classe suprema da sociedade Celta, se nem mesmo o rei pode falar em assembléia antes que o Druida se pronuncie, não deveriam eles ser restringidos por centenas de geasa, ou talvez um ou dois particularmente restritivos, segundo este raciocínio? Nenhum relato descreve algum Druida sob geasa, é verdade, mas ausência de evidência é o mesmo que evidência de ausência? Minha teoria é que os Druidas tem um ou mais geasa, sim, mas diferentemente de guerreiros ou reis tais injunções são mantidas em segredo absoluto, e por isso não foram registradas nas histórias: tanto os geasa druídicos quanto o sigilo sobre os mesmos tem um motivo de ser, e é isso que vamos tentar descobrir aqui.
Primeiro, como uma pessoa adquire geasa? A maioria aparentemente vem desde o nascimento, e é revelada ao indivíduo por divinação druídica, possivelmente fazendo parte do dán desse indivíduo e até mesmo sendo essencial para o seu cumprimento; outros são impostos por Druidas, Divindades, Ancestrais ou Espíritos, seja como maldições ou desafios a serem superados; outros, enfim, viriam com a definição social do indivíduo, como o ingresso num bando guerreiro ou a coroação do rei. Todos estes casos tem exemplos atestados nas histórias, mas eu quero postular para os Druidas a assunção voluntária de geasa, como parte da sua iniciação ou relativos a trabalhos específicos (e neste caso talvez eles seriam temporários, terminando com o trabalho cumprido).
Segundo, qual é o mecanismo dos geasa, e do possível segredo sobre eles? Aqui eu vou apelar para duas fontes, uma ficcional, outra mágica, que me parecem relevantes e plausíveis.
Marion Zimmer Bradley (sim, a das Brumas de Avalon) era uma autora de fantasia extremamente prolífica, e em um de seus livros, Lythande (existe em português, mas fora de catálogo há anos), ela fala do Templo da Estrela Azul, uma ordem/escola de magos onde na iniciação final, quando o aprendiz finalmente recebe a marca da Estrela Azul na testa e o poder a ela vinculado, esse poder é selado por um segredo, conhecido apenas pelo Mago e pelo Mestre do Templo, e que ninguém mais pode conhecer: se alguém descobrir e falar esse segredo em voz alta, o Mago perde permanentemente seu poder, e segundo Bradley é a tensão psíquica do segredo guardado que mantém o poder do Mago acumulado e selado dentro dele, como o grão de areia na ostra que forma a pérola (procurem o livro, é muito legal!)
Ian Corrigan, Druida da ADF, um dos mais originais e criativos magos do nosso tempo, ao falar sobre sacrifícios/oferendas neste podcast, teorizando sobre o mecanismo implicado no ato da oferenda, menciona que "(...) os Espíritos parecem totalmente fascinados quando nos privamos de algo (...)" - como seres imateriais que são, muitos deles jamais tendo encarnado no mundo material, eles não concebem que um ser material pode carecer, voluntária ou involuntariamente, de comida, abrigo, ou seja lá o que for, porque no Outro-Mundo o desejo é satisfeito assim que surge; o que valeria na oferenda, assim, não seria a coisa ofertada em si mesma ou a emoção devocional do presentear, mas o ato de se privar voluntariamente de algo de valor - segundo Corrigan, isso é que atrairia a atenção e a curiosidade dos Espíritos, que compensariam essa carência voluntariamente assumida com bênçãos espirituais e materiais; quanto mais "sacrifício" houvesse na oferenda, maior seria o poder investido no ato, e mais garantida seria a resposta ao mesmo.
Juntando ambos os postulados, o que obtemos? O geis é uma privação mais ou menos severa da liberdade do indivíduo, e isso por si só já geraria uma resposta favorável do Outro-Mundo, que retiraria sua bênção com a violação do geis e a cessação da privação; se esse geis estiver sob sigilo, a tensão psíquica ampliaria o poder investido e a resposta ao mesmo.
Na prática, como usar essa teoria? Não é sensato fazer votos a torto e a direito sem pensar muito bem, e por muito tempo, se isso é adequado ou não - muita meditação, aconselhamento com gente sábia (incluindo divinação extensiva sobre o alcance, riscos e adequação do ato) são preparações recomendadas antes de assumir um geis (e eu aconselharia fazer os primeiros geasa de curta duração, talvez uma lunação no máximo, e só um de cada vez, para evitar conflitos); escreva no seu diário (como assim, você AINDA não tem um???) cuidadosamente o que você deseja, qual é o geis (positivo ou negativo) ao qual você vai se submeter, e o período exato da obrigação, faça oferendas às entidades guardiãs, ore às três Almas para estarem alinhadas neste propósito, e vá prestando muita atenção no período a eventos/presságios do dia-a-dia; se tudo correr bem, e o geis tiver sido mantido sem falhas, ao fim do período agradeça o auxílio obtido e declare oficialmente a obrigação encerrada. Se a Inspiração apontar, depois de alguns geasa temporários, que é hora de assumir um geis vitalício, confirme por divinação/meditação/aconselhamento a veracidade disso, faça o voto - e se prepare, porque com o aumento do poder interior decorrente do geas e do sigilo, novas responsabilidades surgirão no seu caminho, como partes do seu dán, e você terá que estar à altura delas...



quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Equinócio de Primavera



Ela despertou aos pés do cipreste na escuridão que precede a aurora, e por um tempo não sabia quem era ou onde estava - sonhos vagos, sensações de perda, procura e esperança, eram tudo o que ela lembrava.
Levantou-se, notando pela primeira vez os muitos véus que a cobriam, como os fios do casulo que envolvem a crisálida, bem como o fruto em sua mão (sem que tivesse vindo de nenhuma das árvores que ali cresciam com o cipreste prateado), e caminhou pela trilha aberta à sua frente, de modo hesitante no começo e com passos cada vez mais seguros a cada instante.
Ouviu vozes - humana, animal, Outra - vindas de algum ponto à sua frente, que na luz crescente do amanhecer parecia um espaço aberto entre as árvores, e avançou com um pressentimento súbito.
Viu a clareira perfeitamente circular no coração da floresta, viu as muitas trilhas que convergiam para a pedra cinzenta no centro do círculo, viu as manchas escuras que a recobriam e não precisou adivinhar sua natureza, porque o combate entre o Javali e o Senhor Negro, que ali transcorria, chegava ao auge com o passo estudadamente em falso da besta, que abriu o flanco para ser transpassada pela lança do Caçador, que a retirou da ferida e recuou, dando espaço para o Javali ferido se arrastar até a pedra e lá verter a maior parte do sangue.
O sacrifício está feito, disse o Senhor Negro numa voz inesperadamente triste.
E então ela se lembrou de quem era, e se lembrando ela O reconheceu, e no reconhecimento Ela despertou para a verdade daquele dia e ato; caminhou até o centro, estendendo a mão velada e ofertando o fruto a Ele, que a olhou longamente antes de prová-lo.
Quem de Meu fruto comer, ainda que morto, viverá, disse ela.
Não tinha comido metade quando o negror de Sua face e manto acendeu-se num fogo radiante e vivo, enquanto punha a outra metade entre as presas do Javali caído; em instantes ele se levantou, o pêlo negro e vermelho de sangue tornado como ouro, fez uma reverência a Eles, que montaram em seu dorso e seguiram juntos para o horizonte oriental, de onde a Luz do Sol traria a Vida renovada na Primavera.
Porque é esse sacrifício recorrente, Deus e Fera, desde o início dos tempos, que mantém a Roda girando; é o sangue que impulsiona cada volta, e assim será para sempre.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Alma: Conexão



Mas então, dirão vocês, toda essa questão das Três Almas é muito interessante, mas qual é o valor prático dessa idéia, como posso usar esses conceitos na minha vida?
Primeiramente, quero deixar claro que isso não é um dogma, uma revelação divina, um artigo de fé - eu fui apresentando exemplos do dia-a-dia que todo mundo já vivenciou, de modo a fundamentar a teoria na experiência de quem a lê, para que sua validade, ou ausência da mesma, seja fruto de observação pessoal e não algo no que crer sem discussão. O Druidismo é uma forma de espiritualidade que, não à toa, tem a árvore como símbolo: uma criatura viva que, não importando quão alto seus ramos alcancem, está profundamente enraizada no solo, sem o que o menor sopro de ar pode derrubá-la por terra.
Assim sendo, a questão passa a ser esta: como podemos usar o conhecimento da triplicidade da alma de modo útil e benéfico? Já vimos antes que uma definição de Druidismo é centrada no relacionamento correto entre todas as coisas, e já tivemos alguns insights sobre a dinâmica da relação entre as Três Almas: falta apenas explorar a possibilidade de um contato consciente e imediato da Alma Oceânica com suas parceiras Telúrica e Celeste, e pensar em métodos práticos para esse contato. O exercício abaixo foi adaptado da Tradição Feri de bruxaria, que também reconhece a alma tríplice e trabalha extensivamente com isso.
Um passo inicial seria uma declaração de propósito: respirar fundo, concentrar-se, e dizer algo como

"é minha intenção conhecer todas as partes de meu ser, para que as Três Almas sejam como uma, alinhadas em harmonia"

...como se sente ao dizer isso? Alguma reação física, pressentimento, imagem vem à percepção? Anote o que ocorreu, relace, tire isso da cabeça por enquanto, deixe essa idéia-semente afundar e criar raízes no fundo da mente.
Quando estiver acostumado com a idéia, você vai ser "avisado" via sonhos, presságios ou uma sensação do tipo "é hora!" - arranje tempo & um lugar tranquilo, possivelmente já na cama, pronto para dormir.
Respire fundo três vezes, repita a sua declaração de propósito, e fique quieto. Centrado no peito, ponha a mão no coração e sussurre "eu", toque no umbigo e diga "nós", toque no alto da cabeça e diga "um". Expire e sinta um fluxo de calor descer do coração ao umbigo, inspire e sinta que ele retorna do umbigo ao coração, repita devagar até sentir que o elo se formou. Faça o mesmo entre o coração e o espaço acima da cabeça, respirando calmamente. Agora expire do coração, passsndo pelo umbigo, e subindo ao alto da cabeça, expire daí ao coração passando pelo umbigo, sinta os três pontos conectados e em comunicação plena, contemple a união (se quiser pode usar as palavras eu/nós/um do começo na fase da respiração, como um mantra).
Quando achar que já foi o bastante, solte o ritmo respiratório, sinta os pontos unidos e diga "que eu me conheça em todas as minhas partes", agradeça, encerre, durma (e preste atenção nos sonhos!).
Com o tempo, você vai conhecer suas outras Almas a ponto de poder dar nome a elas (ou aprender os nomes delas, o que dá no mesmo) e aí poder abrir o contato simplesmente chamando-as pelo nome: "X, ajude-me a me recuperar deste resfriado", "Z, qual é a conduta correta a seguir neste caso?"
Tente pensar em si mesmo cada vez menos como "eu" e cada vez mais como "nós", uma parceria, um casamento a três para a vida toda, e cresça fortalecido pelo Mistério desta união.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Alma: Morte



E o que acontece na hora da morte, qual o destino das Três Almas? Vamos usar a estrutura já vista dos Círculos da Existência como base para discutir isso num esquema mais amplo.
Para a Alma Telúrica, a aproximação da morte é recebida com o pavor do instinto de preservação ativado, e ela vai lutar enquanto puder, mas paradoxalmente o instante da morte em si é recebido com algo próximo da aceitação, sobretudo após uma longa doença; já vimos que o senso de "eu" é exclusivo da Alma Oceânica, não está aqui, porque ela sabe instintivamente que, muito embora ela vá se dissolver e os elementos densos e sutis que a compôem vão se separar e ser reabsorvidos no círculo de Annwn, o abismo primordial de onde vieram, a experiência de vida que ela acumulou será preservada e, digamos assim, "reciclada" para formar novas Almas Telúricas, cada uma com fragmentos das Almas que a antecederam - é interessante lembrar que, como nossos avós diziam, antigamente os bebês nasciam de olhos fechados e só os abriam dias depois do nascimento, e que isso já não ocorre, o que aponta para uma progressiva ampliação da consciência coletiva que é individualizada nas Almas Telúricas.
O verdadeiro terror da morte, no entanto, está no coração da Alma Oceânica, que tem um senso de "eu" e teme sua extinção após a morte, especialmente se não tiver alguma religião ou filosofia que ensine a imortalidade da alma - mas, como já vimos, se o ser vive várias existências, e em cada uma delas começa do zero, isso sugere que ela não sobrevive intacta à morte, porque seu plano de existência é o círculo do Abred, a roda dos renascimentos, a cada vez com uma nova identidade sem lembrança consciente das identidades anteriores.
É na Alma Celeste que o medo da morte inexiste, porque ela já habita, mesmo durante a encarnação, o círculo de Gwynfyd, o mundo da vida eterna, e no momento da morte ela, num último gesto, toca as Almas Telúrica e Oceânica e recolhe as memórias e experiências de vida relevantes, a sua colheita daquela encarnação, guardando-as consigo junto com todas as experiências das vidas anteriores, sem contudo identificar-se com alguma em particular.
É curioso notar que a Alma Telúrica é imortal mesmo que não perene, e a Alma Celeste é verdadeiramente imortal e perene, e é a Alma Oceânica, aquela que chamamos de "eu" e que é geralmente a única da qual temos conhecimento, aquela que nem é imortal nem perene, que só persiste como memória guardada pela Alma Celeste...
Mas vejam, isto só se aplica aos casos de morte natural, por velhice ou doença - e quanto às mortes súbitas e violentas, por agressão ou acidentes? Nestes casos, é possível às Almas Telúrica e Oceânica persistirem algum tempo após a morte, dando origem ao fenômeno das aparições de "fantasmas" - a Alma Telúrica, ou a sua parte sutil, permanece como um amálgama de instintos, apego/aversão e energia vital não- desgastada pelos processos de morte natural, sem as Almas superiores para guiá-la, e vai estar suficientemente próxima do mundo material para ser capaz de manifestação física, gerando ruídos, toques, às vezes aparições do tipo poltergeist, mas sem nada que sugira uma inteligência ou identidade por detrás, durando até gastar a energia vital e então se dissolvendo no abismo do Annwn; a Alma Oceânica pode persistir, quanto mais apegada à existência for a sua personalidade, e quando aparece pode até ser capaz de comunicação, mas o que se observa mais parece uma gravação, repetindo frases e padrões de comportamento, sem originalidade ou vontade própria, até se dissolver no Abred. As aparições da Alma Celeste são raríssimas, sempre com um propósito maior que o mero apego à existência terrestre, e aí ela se vale da memória para "recriar" a personalidade original da Alma Oceânica como uma interface para a comunicação, que é verdadeiramente original e criativa: o exemplo de Fergus mac Roich , surgindo em seu túmulo e ensinando a narrativa do Táin Bó Cuailnge ao Bardo que sem querer o evocou, seria um exemplo clássico na tradição Druídica.
Quando chega a hora, se a Alma Celeste ainda não está pronta para permanecer definitivamente no Gwynfyd, ela escolhe cuidadosamente as condições da nova encarnação, com ajuda dos Deuses, Ancestrais e Espíritos, e desce para se unir às novas Almas Oceânica e Telúrica recém-formadas, e a Roda das Existências dá um novo giro.

Alma: Memória



Outra manifestação humana que vai ser expressa de modo diferente pelas Três Almas é a memória, ou talvez devesse dizer memórias...
A Alma Telúrica tem uma memória poderosa, e não apenas a dos instintos atávicos de milhões de anos, mas a memória das crianças, que aprendem com facilidade qualquer coisa e nunca esquecem - pense nas coisas que você aprendeu na escola e que, mesmo que nunca vá precisar delas, estão fixadas para sempre - uma memória quase automática, especialmente das coisas feitas pela pessoa com as mãos ou a voz, porque a repetição é a chave (e é por isso que crianças querem a mesma história repetida vezes sem fim).
A Alma Oceânica já não tem a mesma facilidade para lembrar, e foi por isso que várias culturas criaram métodos de memorização que apelam para a lógica e associações de idéias similares (lembrar do número 51 como "uma boa idéia", por exemplo); essa é a memória do adulto, já não automática, exigindo estratagemas para se manter e reforços periódicos para não se perder.
A Alma Celeste, por sua vez, apresenta uma memória que é mais típica do idoso, a memória afetiva/moral - as coisas são lembradas pelo sentimento que evocaram, assim como pelas consequências dos eventos e atos ocorridos, e o que se aprendeu com as mesmas; uma memória que, à primeira vista, parece menos prática que as outras duas, mas que, se tudo correu bem, é a base da sabedoria adquirida ao longo da vida, e vai ser importante quando formos analisar o próximo tema.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Alma: Amor



Outra situação de vida onde podemos analisar a tripla Alma é a dos relacionamentos de amor/amizade.
A Alma Telúrica acredita no amor à primeira vista - como já vimos, ela é capaz de avaliar a sua contraparte nas pessoas que encontra e instantaneamente desenvolver apego ou aversão (a tal da "química"), muitas vezes arrastando consigo as Almas acima dela em situações dramáticas, intensas, e quase sempre efêmeras (parece que há um componente bioquímico envolvido que é programado para deixar de funcionar após alguns anos...); mesmo nas relações de amizade esta afinidade bioenergética tem seu papel, a Alma Telúrica passa a ver o novo amigo como sendo da mesma matilha, por assim dizer, e o encara de modo possessivo e protetor, fundamentada em instintos tribais com milhões de anos de prática.
Para a Alma Oceânica, são os fatores pessoais/culturais que pesam: o amigo/amante o será se tiver gostos, hábitos, preferências similares ou no mínimo compatíveis, e muitas vezes uma preocupação com a "conveniência" ou não daquele relacionamento também terá um papel na decisão de ir em frente com isso ou não - diferentemente da sua parceira instintiva, ela precisa de tempo (e muuuuita conversa...) para avaliar sua contraparte e decidir se ambas combinam ou não.
Em ambos os casos, a Alma Celeste simplesmente olha para baixo e observa o que acontece - por sua própria natureza, as Almas Celestes são todas compatíveis entre si, podem fazer par com qualquer outra e tudo bem - mas lhes interessa, e muito, o que podem aprender com o outro indivíduo e as características das suas Almas Oceânica e Telúrica, e quando encontram aquela combinação de traços de personalidade que pode lhes dar a experiência que buscam, elas sinalizam para as Almas abaixo, que recebem isso como um pressentimento ("é essa pessoa!").
Mas a questão é que muitas vezes o relacionamento não dura: as Almas Telúricas perdem a química (e então simplesmente desapegam uma da outra, sem ressentimentos), as Almas Oceânicas mudam de gostos e de caminhos (e aí ou se separam amigavelmente, ou acusam uma à outra de "não ser mais a mesma", ou se apegam por convenção social ou conveniência pessoal - tudo é sempre complicado com elas!), e as Almas Celestes simplesmente agradecem uma à outra pelo plano bem-sucedido e seguem seus caminhos um pouco mais sábias pelo encontro.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Alma: Sono



Tendo analisado as características das três Almas humanas, e esboçado um pouco das relações entre as mesmas, vamos prosseguir examinando uma situação universal, um estado de ser que ocupa um terço do nosso tempo de vida : o sono.
Do ponto de vista da Alma Telúrica, o sono é simultaneamente repouso e trabalho - ao mesmo tempo em que ela baixa a guarda e interrompe a observação constante do meio, ela também se ocupa da restauração fisiológica: ninguém se dá conta do desgaste sofrido pelo organismo durante o dia porque o cortisol, o hormônio diurno, inibe a resposta inflamatória e permite que permaneçamos ativos e funcionais até a hora de dormir (quando o cortisol decresce e nos damos conta de estarmos literalmente "quebrados"); então, durante o sono, o hormônio noturno, o hormônio de crescimento, assume a vez e inicia o reparo dos tecidos inflamados e a depuração das toxinas produzidas, para que, se tudo correr conforme o esperado, o indivíduo acorde pela manhã completamente restaurado e pronto para mais um dia.
Para a Alma Oceânica, o sono é muitas vezes visto como um transtorno indesejado - se dependesse dela, permaneceríamos acordados o tempo todo, empenhados em mil atividades diferentes - mas ela necessita desta parada compulsória para classificar e arquivar o registro de tudo o que fez, pensou, falou e aprendeu na memória profunda (uma das primeiras consequências da privação de sono é a perda da memória de fixação, o indivíduo começa a se aperceber de que esquece facilmente das coisas e não aprende coisas novas direito). O processamento emocional também ocorre à noite, em sonhos/pesadelos emocionalmente carregados, e muitas vezes expressando as emoções reprimidas em vigília de modo camuflado em sonhos simbólicos acessíveis à interpretação em processos psicoterapêuticos.
Para a Alma Celeste, que já está meio fora do corpo, é hora de rever o dia e seus aprendizados, planejar o dia seguinte, e mandar mensagens, que a Alma Telúrica veste em roupagens simbólicas e apresenta à Alma Oceânica nos sonhos - aí se faz necessário discernir quais sonhos são o reflexo do dia passado e quais são mensagens de níveis transcendentes de consciência (dentre esses, os que contém mensagens de fora, dos Deuses, Ancestrais e Espíritos da Natureza).
Assim sendo, qual seria a preparação ideal para o sono? Dar à Alma Telúrica o conforto necessário para o sono restaurador, meditar um pouco para desacelerar o diálogo interior da Alma Oceânica, e rezar para as três Famílias para inspirar a Alma Celeste para que ela oriente todo o planejamento do dia seguinte - experimentem isso por uma ou duas semanas e vejam o que acontece...

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Alma: Celeste



E quanto à Alma Celeste, o que há para falar? Que experiência temos da presença e ação dela em nossas vidas?
Ela é tão impalpável que, das filosofias que a reconhecem, a maioria diz que ela nem mesmo está plenamente encarnada, mas permanece acima da cabeça, visível (para quem pode) como um globo luminoso - aquelas imagens clássicas do Anjo da Guarda que o retratam zelando por crianças, o mostram com uma estrela brilhando acima dele, aludindo a esse aspecto não-corporal desta alma em particular (mesmo que seu centro de ação esteja na cabeça, associado ao Caldeirão da Sabedoria, que nasce virado para baixo e, portanto, vazio).
Já vimos que a Alma Telúrica é ativa desde a vida intrauterina, e que a Alma Oceânica surge plena com a aquisição da linguagem, ambas em constante atividade enquanto houver vida - mas a Alma Celeste permanece silenciosa nos bastidores da consciência durante a maior parte da vida, apenas registrando as experiências de vida do indivíduo; ocasionalmente, e em especial nas situações em que grandes decisões, sobretudo as de ordem ética, devem ser tomadas, ela toca as almas abaixo dela e infunde a intuição de como agir: geralmente só a Alma Telúrica percebe a sua presença e retransmite essa intuição codificada como um pressentimento para a Alma Oceânica, que pode ou não receber a mensagem e agir de acordo. Quem nunca teve esse tipo de pressentimento em situações de crise moral e, subitamente, sentiu como se o tempo parasse para a decisão ser tomada, e só bem depois viu que um grande risco pessoal foi evitado por essa decisão?
É necessário esclarecer que essa "moralidade" da Alma Celeste nem sempre está de acordo com os códigos morais da sociedade, internalizados pela Alma Oceânica durante a sua educação, e às vezes está mesmo em oposição a eles - uma frase de Isaac Asimov, dita por um personagem da série da Fundação, descreve bem essa situação: "nunca deixe o seu senso de moralidade impedir que você faça o que é certo!"
A Família associada a ela é a dos Deuses, e ela própria pode ser considerada como uma divindade "aprendiz", sendo guiada por um ou mais Deles, esteja a pessoa consciente disso ou não - no caso do indivíduo estar num caminho espiritual e buscar conscientemente o contato divino, a presença dos seus Padroeiros é cada vez mais percebida conscientemente, e é aí que a manifestação da Inspiração ocorre.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Alma: Oceânica



Agora estamos em terreno conhecido (ou quase): quando dizemos "eu" e pomos a mão no peito, é da Alma Oceânica que falamos e é com ela que nosso senso de personalidade se identifica. Nascida da cultura e da família, assimilando-as desde o nascimento biológico, o momento crucial na sua formação é a aquisição da linguagem, lá pelo final do primeiro ano de vida - a partir daí, a percepção clara do meio ambiente que a Alma Telúrica fornecia passa a ser "filtrada" pela linguagem. Você não pode olhar para uma árvore sem que a Alma Oceânica imediatamente diga "árvore!" e a associe a todas as árvores já vistas ao vivo ou imagens delas, ou seja, você abstrai um conceito arbóreo que pouco ou nada tem a ver com a arboridade daquela árvore particular à sua frente.
Dito assim, o dom verbal até parece um defeito - William Burroughs escreveu (e Laurie Anderson cantou) que "a linguagem é um vírus" - mas obviamente o problema está no uso errado desse dom: não será o Druidismo, que tem a casta dos Bardos no centro do seu sacerdócio, que fará uma denúncia do dom que cria obras-primas de música e poesia.
Quando meditamos no silêncio moderado de um bosque fechado, ou no silêncio abissal do espaço profundo, é quase com um choque que o incessante ruído do mar, calmo ou tempestuoso, surge em comparação: esse é o motivo pelo qual eu escolhi chamar esta alma de Oceânica, porque seu estado natural é o do diálogo interior sem fim, entremeado de músicas ouvidas, séries assistidas, conteúdos se sucedendo em marés e ondas...é de se admirar que virtualmente toda disciplina espiritual digna do nome insista na prática da meditação como um meio de quebrar a possessão verbal que acomete a Alma Oceânica e permitir que ela pare para ouvir a voz instintiva da Alma Telúrica ou os sopros da Alma Celeste?
O centro de comando da Alma Oceânica é, como já vimos, o peito, de onde vibra o ar e o som da fala, onde a maioria de nós localiza o eu, e onde está o Caldeirão da Vocação, que nasce virado de lado e, portanto, semi-cheio; é pela vivência e transmutação das emoções, em especial a Alegria e a Tristeza, que esse caldeirão é virado para cima e pode ser preenchido com a força emocional que dá o impulso criativo para a ação no mundo.
Como ela nasce e é alimentada pela cultura humana, são os Ancestrais (que ajudaram a criar essa cultura) os seres que mais se associam a ela: é na personalidade que encontram-se, por vezes, pequenos traços de comportamento que revivem os de algum antepassado próximo ou distante, e muitas vezes um ou mais dos Ancestrais guia a Alma Oceânica durante a vida, mesmo que ela nunca venha a se aperceber disso pela sua surdez intrínseca...
É por essa surdez, típica de quem só quer falar e não ouvir, que na maioria das vezes a Alma Celeste e/ou entidades das Três Famílias transmitem suas mensagens diretamente à Alma Telúrica, que fala pouco mas está sempre de orelha em pé, e que acaba passando o recado à sua irmã tagarela por pressentimentos ou sonhos - mas, se a pessoa pratica meditação e aprendeu a silenciar esse diálogo, o Oceano se torna um lago/espelho, onde as intuições podem ser refletidas clara e conscientemente, e é esse estado um dos objetivos da meditação druídica.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Alma: Telúrica



Começaremos pela Alma Telúrica, porque ela está mais próxima da experiência perceptiva, devido à sua relação particular com o corpo - na verdade, como disse William Blake (que também era Druida), talvez seja melhor considerar o corpo como sendo o aspecto visível da alma, e não como um ente separado da mesma...
Essa alma nasce diretamente do seio daquela força que chamamos, na falta de nome melhor, de Natureza; as substâncias materiais são agregadas e organizadas no seu campo de força, dotadas de energia vital, e o todo apresenta uma consciência própria que se comporta como um animal o faria - tem percepção clara do meio ambiente (na verdade, até mais clara que a nossa, porque o hábito verbal da Alma Oceânica se interpôe entre ela e o objeto da percepção), instintos de autopreservação aperfeiçoados por bilhôes de anos de experiência, e mesmo as proto-emoçôes de apego e aversão para guiar respostas mais complexas que o instinto. Assista uma partida de futebol e verá a Alma Telúrica em ação: cada jogador centrado no seu corpo e nas reações do mesmo, instintivamente apegado aos membros da sua matilha/time, sincronizado com eles em estratégias atávicas de caça à bola, e apenas uma fração da Alma Oceânica para manter o respeito às regras da arbitragem e à tática do técnico. Muita gente dentro das religiões Pagãs tem uma noção mais nítida desse ser animal em seu interior, e erroneamente pensa nele como sendo o seu Totem/Animal de Poder (que é uma entidade externa ao indivíduo, não parte dele - talvez o Totem seja o guardião da Alma Telúrica, seu orientador e protetor dentre os Espíritos da Natureza).
Embora a Alma Telúrica habite o corpo inteiro, seu centro está no ventre, associado ao Caldeirão do Aquecimento (que é o único dos três que já nasce na posição certa, virado para cima, e assim fica totalmente cheio da força vital que o indivíduo vai utilizar em sua vida).
Mas ela não se limita a ações "primitivas"; quem aprendeu a dirigir, escrever, andar de bicicleta, datilografar sem olhar o teclado, na verdade "adestrou" seu animal interno, que agora consegue realizar ações extremamente complexas sem que a mente racional precise pensar nelas -- tente escrever à mão e ao mesmo tempo fazer conscientemente cada movimento da caneta, e veja como o resultado é sofrível quando comparado à naturalidade do escrever sem pensar...
Ela está em constante intercâmbio com outras da mesma espécie: entrando numa sala cheia de gente, já nos primeiros segundos a Alma Telúrica identificou aliados, adversários e indiferentes, e é a fonte daquelas simpatias/antipatias à primeira vista, totalmente irracionais e supostamente imotivadas, a que estamos sujeitos. Ela também se comunica com a Alma Oceânica, mas por ser pré-verbal essa comunicação é feita de sensações físicas (arrepios, calor/frio, o famoso frio na barriga) e imagens (devaneios, sonhos), e pelos mesmos meios é possível fazer contato com ela e pedir sua colaboração.
Trate bem dela, cuide para que suas necessidades de segurança, alimento, repouso/exercício, prazeres carnais sejam satisfeitas a contento, tenha para com ela o cuidado e carinho que você dá ao seu cão ou gato, e ela responderá com vigor físico, saúde preservada, instintos seguros e infalíveis para guiá-lo.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Alma: Introdução



No último post vimos a idéia de que a alma não necessariamente permanece identificada com a personalidade que apresentava na última encarnação; desde então venho meditando sobre essa questão da alma e sua natureza, e quero compartilhar algumas idéias que me ocorreram a respeito, tantas que será preciso mais que um post para desenvolver o tema mais extensamente.
Começo com um postulado meio polêmico, o da pluralidade da alma - cada indivíduo, incluindo quem lê isto, tem mais de uma alma, todas diferindo em natureza e função, e com destinos diferentes após a morte. Bom, isso não foi invenção minha, várias culturas chegaram a este conceito: possivelmente os Egípcios tem a teoria mais conhecida e complexa (9 almas, o Ka, Ba, Sekhem, Ren, etc) mas os Germânicos, mais perto do universo Celta, também concebiam uma hoste de entidades distintas funcionando harmonicamente para manter a coesão da personalidade humana; de minha parte, eu vou descrever uma divisão de três almas, porque é um número druídico por excelência e porque existem paralelos suficientes com outras triplicidades para justificar essa divisão - já fomos apresentados aos Três Reinos celtas, Céu, Mar e Terra; já examinamos o conceito dos Três Caldeirôes, Ventre, Peito, Cabeça; já falamos das Três Famílias, Deuses, Ancestrais, Espíritos da Natureza; assim sendo, partindo do princípio de buscar analogias neste mundo e no Outro Mundo, vamos prosseguir.
Vamos considerar a alma "superior", aquela que as teologias chamam de alma propriamente dita, como tendo algo da natureza do Céu, da Cabeça no corpo, e dos Deuses - que imagens esses símbolos evocam? Clareza, transcendência, eternidade: até aí, nada de novo...mas vamos meditar agora na Terra, no Ventre no corpo, e nos Espíritos da Natureza, e o que surge no olho da mente? Algo corpóreo, denso, instintivo, "primitivo", mas a seu modo tão poderoso e antigo como a alma tradicional, não?
E essas duas almas, tão opostas entre si, duas retas paralelas que nunca se tocam, como podem interagir uma com a outra, diferentes que são? Talvez, quem sabe, um terceiro termo na equação, algo mais sutil que a matéria mas mais denso que o espírito...algo com a natureza do Mar, do Peito no corpo, dos Ancestrais, fluido, móvel, adaptável mas também, diferentemente dos dois anteriores, mais característicamente "humano" e pessoal...conseguem sentir isso em si mesmos?
Então chegamos no ponto de perceber três almas, que poderíamos chamar de Alma Celeste, Alma Telúrica e Alma Oceânica (estou deliberadamente rejeitando termos como superior, média, inferior para evitar preconceitos e juízos de valor: as três são idênticas em status e importância no ser integral, por mais diferentes em natureza e função que sejam), e vamos examinar cada uma com mais detalhes em postagens futuras.



quinta-feira, 30 de abril de 2015

Morte, Vida



Amanhã os que seguem a Roda do Ano pelo Sul celebrarão o festival do Samhain, a Festa dos Mortos, o tempo em que os portais se abrem e o trânsito entre o Outro-Mundo e o nosso é livre -- sim, já falamos disso antes, mas desta vez eu quero me ater não ao relacionamento com os que já se foram daqui, mas à sua real natureza: quem, afinal, são os Mortos?
Milhares de livros, filmes & séries apresentam o Outro-Mundo como sendo uma cópia mais ou menos glorificada do nosso, onde as pessoas continuam sendo quem eram em sua vida terrestre, e tudo é lindo e feliz (ou horrível e miserável, dependendo do local...) -- mas vamos ver com olhos-de-Druida: se tivemos inúmeras vidas antes desta, porque os que morrem precisam se ater à forma, hábitos e personalidade da sua encarnação mais recente, ao invés de assumir outra? Ou melhor, qual é a essência comum detrás de todas as identidades encarnatórias, e será possível permanecer nesse aspecto intermediário?
Bom, dizem que a Natureza é a mestra dos Druidas, não? Olhando a foto acima, de uma cigarra saindo de sua velha e ressecada pele para a sua nova existência pós-metamorfose, o que vemos? Cinco minutos de olhada, pessoal, depois prosseguimos...
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...então, vejam só, há suficiente semelhança entre a casca morta e a cigarra viva para reconhecermos que são o mesmo indivíduo, mas as mudanças nas patas, as asas e a forma do corpo mostram que o novo ser é de uma ordem diferente do anterior: como isso se aplica à nossa questão?
Se somos diferentes quando morremos, se ficamos como um celular resetado ao "modo de fábrica" que permanece quando os corpos e as personalidades que tivemos se dissolvem no tempo, qual é o significado disso? Podemos experimentar essas noções por conta própria, ao invés de ter que confiar em sacerdotes ou escrituras?
Kristoffer Hughes, Arquidruida da Anglesey Druid Order (e legista certificado!), escreveu um belíssimo livro ano passado, The Journey into Spirit, onde ele analisa essa questão e sugere um experimento.

Já aconteceu de você acordar pela manhã e, entre o abrir os olhos e levantar, passar alguns segundos ou mesmo minutos sem lembrar onde está, o que vai fazer naquele dia, ou até mesmo quem é você?

Claro, todos nós já experimentamos isso alguma vez, um modo de pura consciência sem uma identidade específica que a acompanhe...e esse estado (que pode ser deliberadamente alcançado e exercitado pela prática da meditação) seria o da alma entre vidas, sem apego a alguma existência anterior em particular -- MAS, por outro lado, Hughes sugere que é pelas nossas lembranças do morto, a interação que tivemos com ele, que a alma pode estar presente, como que evocada por essas lembranças carregadas de afeto, e então ela pode "reassumir" sua identidade anterior como uma interface para o encontro: sem ectoplasmas, ritos em latim ou necromancias cinematográficas, simples, humilde e verdadeira evocação de alma a alma.
Amanhã, acenda uma vela, vasculhe os álbuns de velhas fotos, e convide os seus que voltam pela Porta entre os Mundos para um chá ou dois...



sexta-feira, 20 de março de 2015

Equinócio de Outono

Quando o Sol se fez escuro, na manhã do dia da Caçada do Javali, Ele já estava na floresta, seguindo pelas trilhas.
Olhou para o céu matinal por entre os ramos das árvores, viu as estrelas ressurgidas na noite restaurada, ouviu o súbito silêncio das aves intimidadas pela escuridão inesperada, e em todos estes presságios Ele viu o que seria desse dia.
(Não que ele já não soubesse, tendo repetido vezes sem fim o seu ciclo ritual -- os passos dessa dança cósmica lhe eram bem familiares, e os eventos celestes apenas acentuavam o tom dramático do que estava por vir, mas os hábitos do Oráculo que era o forçaram a parar por instantes para ler os sinais e deles extrair o sentido oculto).
A sombra passou, o dia nasceu após a pausa imprevista, e a Caçada seguiu, da aurora ao meio-dia, do meio-dia ao entardecer: logo Ele chegou na clareira no centro da grande floresta, e seguiu até a pedra elevada no centro das trilhas que ali se cruzavam.
Ele tocou as manchas de sangue que a recobriam, as mais recentes de meio ano atrás (quando foi a vez do Javali ser o sacrifício), as mais antigas se perdendo no tempo-fora-do-tempo, e esperou.
Logo (ou uma eternidade depois?) o som de galhos quebrados, o pânico de animais e aves fugindo da destruição encarnada que se movia entre eles, e o tremor que a pedra ecoava de cascos em corrida furiosa, anunciaram o fim da espera, e o Javali entrou na clareira sagrada.
Ele o saudou -- minha caça, meu irmão, meu outro eu, aqui estamos -- e ergueu a lança dourada, agora avermelhada pela luz do sol próximo do horizonte, dando o sinal para a dança começar; e era de uma dança que se tratava, ataque e defesa, avanço e recuo, golpe aparado revidado com contragolpe, uma eternidade (ou só um instante?) onde ambos deram o melhor de si, como sempre o davam, até que Ele fez o último passo, habilidosamente falho, que abriu a guarda para que o Javali o ferisse de morte, recuando então e esperando.
Ele andou os últimos passos, segurando a ferida fechada para não desperdiçar o sangue divino, a oferenda sagrada, que deixou correr livremente sobre a pedra.
O sacrifício está feito, disse Ele numa voz inesperadamente firme.
Andou até o Javali, que se curvou, todo furor agora cessado, e deixou que Ele montasse em seu dorso negro como a noite, negro como o manto Dele se tornava a cada instante, negro como a noite que agora chegava, o sol poente uma fração cor de sangue no horizonte.
Ele seguiu, montado no Javali, e ambos, opostos finalmente reconciliados, desapareceram na escuridão da floresta, nas trilhas que conduzem ao Outro-Mundo, onde Ele logo seria entronizado como o Senhor dos Mortos, e onde regeria na escuridão (tal como havia, até então, regido na luz) até a Roda girar novamente.
Porque é esse sacrifício recorrente, Deus e Fera, desde o início dos tempos, que mantém a Roda girando; é o sangue que impulsiona cada volta, e assim será para sempre.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Sir Terence David John Pratchett


Se fosse como num de seus vários livros da série de Discworld, hoje a Morte apareceria diante de Terry Pratchett (ou melhor, Sir Terence) e diria:

"SUA HORA CHEGOU. A PROPÓSITO, OBRIGADO POR ME DESCREVER TÃO BEM EM SUA OBRA"

(Ela está presente em todo livro da série, e sempre fala EM MAIÚSCULAS) -- depois da notícia trágica do seu diagnóstico de Alzheimer, que ele tenha partido tão já, aos 66, no meio de um último livro, não deixa de ser uma gentileza da Ceifadora...
Milhões de leitores espalhados pelo mundo (inclusive no Brasil, apesar das poucas e sofríveis traduções recentemente lançadas) vem seguindo a saga do Discworld nesses 32 anos desde o primeiro livro, "A Cor da Magia", encantados pela mistura de fantasia clássica, humor britãnico, e a mais surpreendente filosofia humanista, com tiradas como:

"O problema de se ter uma mente aberta é que as pessoas teimam em chegar e tentar colocar coisas dentro dela"

E muitos no meio Pagão já se perguntaram se ele seria secretamente um de nós, porque a percepção dele sobre bruxas, magia, deuses e o Universo é de uma profundidade e sabedoria tais que dão o que pensar -- coisas como:

"Bruxas não acreditam em deuses. Claro, elas sabem que eles existem, e tudo o mais, mas é que elas não acreditam neles, justamente porque os conhecem bem demais. Seria como começar a acreditar no carteiro, ou algo assim"

Mas é em diálogos como o da Morte com Susan, sua neta adotiva (NÃO perguntem, vão ler!) em "Hogfather", que ele chega ao seu melhor:

" 'Tudo bem', disse Susan, 'eu não sou estúpida. Você está dizendo que os humanos precisam de...fantasias para tornar a vida suportável.'
NÃO. HUMANOS PRECISAM DE FANTASIA PARA SER HUMANOS. PARA SER O PONTO ONDE O ANJO CAÍDO ENCONTRA O MACACO EM ASCENSÃO.
'Fadas-do-dente? Hogfathers?'
SIM. COMO PRÁTICA. VOCÊS TEM QUE COMEÇAR APRENDENDO AS PEQUENAS MENTIRAS.
'Para daí acreditarmos nas grandes?'
SIM. JUSTIÇA. DEVER. MISERICÓRDIA. ESSE TIPO DE COISAS.
'Mas isso não é a mesma coisa!'
É MESMO? ENTÃO PEGUE O UNIVERSO, PULVERIZE-O ATÉ O PÓ MAIS FINO E PENEIRE-O NA PENEIRA MAIS FINA, E ENTÃO MOSTRE-ME UM ÁTOMO DE JUSTIÇA, UMA MOLÉCULA DE MISERICÓRDIA. E NO ENTANTO VOCÊS AGEM COMO SE HOUVESSE ALGUM TIPO DE ORDEM NO UNIVERSO PELA QUAL ELE POSSA SER JULGADO.
'Sim. Mas as pessoas tem que acreditar nisso, ou então qual é o sentido de tudo?'
EXATAMENTE. VOCÊS PRECISAM ACREDITAR EM COISAS QUE NÃO SÃO VERDADEIRAS. DE QUE OUTRO MODO ELAS PODEM VIR A SÊ-LO?"


Ele sabia que seus dias estavam contados, mas isso não o fez deixar de criar livros (ditando quando não podia mais escrever) nem o fez mudar sua posição sobre si mesmo e seu lugar na ordem das coisas.
Bênçãos dos Deuses e não-Deuses a ele em sua jornada!
Que Endovélico o conduza serenamente ao seu lugar de direito entre os Sábios no Outro-Mundo!


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Memória


Eu não estava planejando escrever nada, mas fui lembrado que hoje, 24 de Fevereiro, é o Dia da Memória Pagã, comemorado em lembrança dos nossos antecessores das várias fés pré-cristãs (que no Druidismo chamamos de Ancestrais do Espírito)-- a referência da data vem do edito de Teodósio I, imperador romano cristão, que neste dia em 391 dEC desfez todo o trabalho que seu antecessor Juliano, desdenhosamente chamado "Apóstata", havia realizado no sentido de deter a erradicação dos cultos antigos pelo fanatismo monoteísta e iconoclasta da nova fé, protegendo as religiões não-cristãs em todo o Império e decretando a liberdade irrestrita de culto para todos, sem exceção -- mesmo que chamasse os cristãos de "galileus" e desprezasse suas igrejas como sendo "ossários", pelas relíquias de santos nelas contidas, não os proibiu de nada, exceto de perseguir as outras religiões (o que, para o fanatismo deles, já era opressão demais...).
Já comentei antes que essa obsessão pela exclusividade de devoção que caracteriza o Ciumento e seus devotos, cristãos ou islãmicos (os judeus, misteriosamente, desenvolveram imunidade natural ao vírus proselitista) nunca deixou de existir, como as notícias de terreiros dos cultos afro-brasileiros vandalizados por evangélicos a mando de seus pastores ignorantes, ou o que as milícias como o Taleban ou o Estado Islãmico fazem com qualquer coisa ou pessoa que pareça contrária às suas crenças; mais cedo ou mais tarde, teremos que tomar uma atitude contra isso, quanto mais não seja para nos defendermos, e às nossas crenças, de ataques, ameaças e mesmo da aniquilação total.
Neste dia, se for da sua vontade, acenda uma vela por Juliano, Hipátia, e pelas miríades de pagãos antigos que lutaram para defender seu direito fundamental à existência, liberdade de culto, associação e expressão, e que, estando na própria origem da civilização ocidental moderna, e assim sendo os criadores do conceito tão "moderno" e tão pouco exercido da Democracia, são responsáveis por podermos viver (e re-viver) nossas fés e falar livremente delas, neste blog e em toda a parte -- e prepare-se para defender estes direitos para as gerações futuras!


domingo, 1 de fevereiro de 2015

Endovélico, Semana 30: Conselhos

Ao longo destas 30 semanas, tentei passar algo da natureza de Endovélico, meu padroeiro, e é possível que, a essa altura, alguns  dos que leram isto tenham tido uma reação de reconhecimento após o impacto do primeiro contato, quem sabe até mesmo algo como um chamado à ação -- e agora, o que fazer? Como dar os primeiros passos na trilha do santuário do Muito-Bom?
Eu começaria bem devagar, sem pressa, sem a obrigação de ter tudo perfeito desde o primeiro dia de devoção; isso incluiria até mesmo uma advertência para não fazer nenhum juramento ou consagração ao serviço dele nesta fase, que deveria ser puramente exploratória.
Primeiramente, muita leitura e pesquisa: eu mencionei vários autores, livros e sites, inclusive com os links, e é sempre bom ir atrás de informação confiável, sem delírios esquizotéricos ou charlatanice deslavada.
Junto com o estudo, que pode ocupar semanas ou meses, pode-se iniciar uma prática devocional simples, talvez uma oração pela manhã, oferendas simples como pão e vinho, um altar mesmo que sem imagens ou símbolos; o objetivo é iniciar uma aproximação a ele, uma intenção de tentar entendê-lo e criar um relacionamento -- uma oração do tipo "eu ainda não o conheço bem, mas por favor aceite minhas oferendas, e deixe-me conhecê-lo melhor", ou algo parecido, seria adequada à ocasião.
Preste atenção, ao longo do dia, nos presságios e eventos inusitados que ocorram, e anote cada sonho que tiver, mesmo que não pareçam fazer sentido, porque é aí que as respostas dele às suas invocações poderão  ser encontradas.
Se você fizer isso por algumas semanas, ou um contato mais direto ou uma certeza crescente de que esse não é o seu caminho vão se manifestar, e então aja de acordo com a resposta; talvez aí seja a ocasião para tentar a meditação visionária da semana passada, e prestar muita atenção nas imagens que surjam durante a visão.
Se chegar à conclusão de que este não é o seu caminho, despeça-se dele com uma última oferenda e agradecimentos; se descobrir que está se sentindo em casa com esse relacionamento, agradeça a ele por isso e aí, se quiser, faça um rito de dedicação a ele agora (nada muito elaborado, apenas declare sua intenção de se ligar a ele de modo mais comprometido), e seja bem-vindo à crescente congregação dos seus devotos!
Que estas Semanas de Endovélico lhes sejam benéficas!
Bênçãos dos Deuses e não-Deuses aos que lêem isto!


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Endovélico, Semana 29: Experiência Pessoal




Qualquer um de nós que teve a oportunidade de cultuar, e então contactar, alguma das Divindades antigas, tem inúmeras histórias para contar -- ou teria, se algumas delas não estivessem sob interdição por ordem da Divindade em questão e a maioria delas, como já disse, ocorrer de modo tão despretensioso e ordinário que simplesmente não teriam sentido para alguém fora da relação. Mas esta semana é a das vivências particulares, diferentemente dos testemunhos dados anteriormente, então vamos ver o que conseguimos...
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Você está diante de um monte tumular verde, numa planície verde, do outro lado de um rio de águas escuras; cruze o rio, raso e muito frio, até a outra margem, e caminhe ao redor do monte, no sentido anti-horário, até encontrar uma entrada no monte (voltada para qual direção?),  com dois pilares de pedra negra e uma terceira pedra suspensa sobre eles; entre no monte e siga por um corredor estreito e escuro, com cheiro de terra, até uma luz bem no coração do monte.
Você está numa cãmara de terra revestida por pedras enormes, e na parede oposta à entrada uma imagem de Endovélico em pedra negra o encara com olhos de pedra branca (como é a imagem?); uma mesa de pedra à frente da imagem apresenta duas lãmpadas de óleo acesas, e uma bacia de cobre para oferendas; dê o que acaba de surgir em suas mãos (o que é?) e peça permissão para descer, com suas próprias palavras, ajoelhado diante do altar.
Se nada de especial acontecer, a permissão não foi concedida; agradeça mesmo assim e saia pelo corredor até o lado de fora, atravesse o rio de volta e encerre a visão.
Se você encontrar um buraco largo e escuro sob o altar, você ganhou salvo-conduto de ida e volta; agradeça, entre no poço, encontrando degraus sob os pés, e desça com cuidado, mão esquerda tocando na parede ao lado, girando para baixo no sentido horário; a luz vai ficando mais distante na câmara acima, até desaparecer, e a descida se faz na escuridão total.
Tão profunda é a escuridão que mesmo os olhos da mente tentam preenchê-la com luzes, cores e imagens; em certo ponto os degraus terminam, mas as cores e luzes se organizam numa imagem clara...
...uma planície à luz da Lua (qual fase?), e um caminho sob seus pés; siga o caminho até chegar numa encruzilhada, quatro vias encontrando-se num ponto central. Um grande crânio de javali está no chão, uma vela negra na órbita esquerda, uma vela branca na direita, e uma vela vermelha na testa, e na sua luz vemos varias letras de uma escrita desconhecida cobrindo o osso branco, as presas revestidas de ouro; em suas mãos está um ramo de pinheiro, que é ofertado diante do crânio, enquanto você se levanta e olha.
Olhe o caminho à frente por alguns instantes, e veja o que houver para ver nessa direção; repita isso nos caminhos da direita, de trás e da esquerda.
Dê tempo para ver o que acontece, ou quem se aproxima...
Ao terminar, faça uma reverência ao crânio, dê meia-volta e saia; mesmo se ouvir qualquer coisa às suas costas, não olhe para trás, mas siga pelo caminho por onde veio até a imagem se desvanecer e a escuridão voltar.
Encontre os degraus apalpando na escuridão, suba com a mão direita na parede, no sentido anti-horário, até sair do poço sob o altar da cãmara; em suas mãos está um ramo de louro, que é ofertado no altar em agradecimento.
Sobre o altar há uma taça de cerãmica, na qual você bebe a mesma água fria do rio que cruzou para chegar aqui; agradeça, saia pelo corredor até o lado de fora.
Olhe a planície verde uma última vez (algo mudou?), cruze o rio para a outra margem, respire fundo e volte ao mundo do dia-a-dia.
Escreva o que viu e sentiu.
Escreva o que sonhar esta noite.
Não repita isso mais de uma vez por mês no início; mais tarde a visão pode ser repetida a cada sete ou nove dias.
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Essa visão me foi dada há muito tempo, e foi mudando a cada vez até a forma atual, que compartilho aqui --- que lhes seja de proveito!


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Endovélico, Semana 28: Desconhecimento

O tema desta semana é vasto, desde que o que se sabe comprovadamente sobre Endovélico é bem menos do que o que se desconhece...
Ele tinha outros títulos além dos encontrados nas inscrições dos seus altares? Existiram imagens dele no período pré-sincretismo romano, e como eram elas? Há alguma placa inscrita com uma invocação completa, quem sabe partes da sua liturgia, esperando que um arqueólogo empreendedor a encontre? Quais métodos eram usados para a incubação dos sonhos oraculares? Como era o processo de iniciação/consagração dos seus sacerdotes? Quantos e quais mitos sobre ele existiam?
...e essas são só as minhas perguntas: juntando todos os interrogantes, sejam pagãos com interesses devocionais ou historiadores com interesses mais técnicos, nossa ignorância coletiva encheria livros inteiros só com essas confissões do não-saber -- e o desgosto de desconfiar que muitas destas perguntas não terão resposta é uma dor sem nome e sem medida.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Endovélico, Semana 27: Enganos


Meses atrás, vimos algumas concepções errôneas sobre a natureza de Endovélico; hoje, vamos olhar de perto o mesmo tema, mas centrado em meus erros e enganos sobre ele.
Acho que o maior dos enganos foi o de, no início, considerar apenas o lado solar de Endovélico, o seu aspecto luminoso, apolíneo, "romanizado" pelo sincretismo com Esculápio -- mesmo nesse tempo vários sonhos e presságios apontavam para uma outra face, escura e oculta, mas eu não soube reconhecer esses sinais naquela ocasião...foi só quando li o artigo de Gilberto de Lascariz, "A Demanda Mágico-Religiosa de Endovélico" (que, infelizmente, já não está disponível online) e lá encontrei a proposta divisão do ano em duas metades, a luminosa, regida por Andevélico, o "Senhor da Flor", e a obscura, regida por Enobólico, o "Muito-Negro", que o choque do reconhecimento se deu; li o texto, uma e várias vezes, e então me fiz a pergunta "e se for deste modo, o que acontece?".
Aconteceu que o Muito-Negro veio a mim de modo inequívoco, com um sentimento subjacente similar a "AGORA estamos nos entendendo..."




segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Endovélico, Semana 26: Relacionamento

Para falar do meu relacionamento com Endovélico, penso que não vou ser nada original -- como todos nós no meio pagão em relação aos nossos Padroeiros, eu parti de um ponto de desconhecimento quase total sobre ele e suas características, apenas com a certeza tão inexplicada quanto inabalável de que ele era o "meu" deus e que veio para ficar; com o passar dos anos, e certamente guiado por ele, fui encontrando os livros e sites de que precisava para entendê-lo cada vez mais (e, a partir de certo ponto, encontrando outros tutelados dele para trocar idéias).
Esse corpo de informação sempre crescente se refletiu na complexidade crescente dos meus ritos devocionais e numa compreensão mais aprofundada da natureza dele -- atualmente eu me sinto mais à vontade com o seu lado sombrio, e em consequência ele vem se revelando mais sob esse aspecto que sob os outros (que não deixaram de ser importantes, só estão sendo desenfatizados).
Um relacionamento devoto-Divindade é como qualquer outro, precisa ser deliberadamente cultivado de ambos os lados: da minha parte é um esforço combinado de oferendas, oração e meditação dedicados ao propósito de me aproximar dele, e da parte dele...bem, só posso repetir o que tantos outros estão dizendo, ou seja, que após dois milênios de exílio pelo culto do Ciumento, os velhos deuses estão voltando com tudo, e não lhes faltam sinais, sincronicidades e milagres pequenos e grandes com os quais eles atraem nossa atenção e sinalizam o seu retorno -- e  bem sei que a cada dia mais pessoas despertam com alegria ao chamado que Eles fazem soar em nossas almas.