terça-feira, 14 de abril de 2026

Moya

Ontem Tech Duinn, a Casa de Donn, a última parada das almas da Irlanda em sua jornada ao Outro-Mundo, recebeu uma visitante ilustre.
Eis que a mais velha de nove crianças, filha e sobrinha de músicos no interior da Irlanda, cantando e tocando harpa com seus irmãos no pub do pai, aos 18 anos, se juntou aos seus irmãos Pól e Cíaran e seus tios gêmeos Pádraig e Noel em 1970 para criar a legendária banda Clannad.
Que fez sucesso local, depois nacional, e então mundial, apresentando o puro suco da música irlandesa tradicional, temperado com porções bem dosadas de pop e rock, que entraram em trilhas sonoras de séries como Robin of Sherwood e filmes como O Último dos Moicanos (e que fizeram a banda ser chamada de new age, o que ela abominava com todas as suas forças).
Ela dividiu o tempo entre o Clannad, seus projetos solo, e iniciativas religiosas, obras de filantropia e preservação ambiental; enfrentou a crise que vem com a fama súbita e a narrou na sua autobiografia The Other Side of the Rainbow.
E hoje o mundo ora por sua chegada segura aos salões dos Bardos, uma das notas mais afinadas da Grande Canção. 
Máire Philomena Ní Bhraonáin, bênçãos dos Deuses e não-Deuses a você, hoje & sempre.
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quinta-feira, 9 de abril de 2026

(30DVII -- BÔNUS)

...com atraso, chegou ontem à noite a minha encomenda especial da Herbal Saboaria para completar a experiência dos 30 Dias.
O sabão de Aleppo, de origem síria em um passado indefinido, é um sabão clássico à base de óleo vegetal (oliva) e alcalinizantes (soda cáustica), com o luxuoso acréscimo de 20 a 40% de óleo dos frutos do louro, com o aroma inconfundível que o caracteriza, secado e cortado em blocos antes de ser embalado; tem propriedades tradicionais de hidratar e proteger peles secas e tratar doenças dermatológicas (psoríase, dermatites, eczema), uso polivalente (sabonete, shampoo, creme facial, espuma de barbear) e serve desde bebês a anciãos sem agredir a pele.

Então, eu abri o pacote, e quase apaguei pela sobrecarga sensorial do odor literalmente divino que invadiu o banheiro, mas acabei me recuperando e cortei uma fatia do bloco para usar, voltando a embalá-lo e guardando num canto escuro e fechado.

...não tenho palavras para descrever o banho com o sabão de Aleppo, a maciez untuosa da pele, a nuvem aromática que flutuou à minha volta e se entranhou na carne até os ossos, a nítida alteração de estado de consciência -- acho que vou reservá-lo para os dias de ritual, decididamente é a experiência perfeita para encerrar o meu retiro com o Louro, louvado seja.

segunda-feira, 30 de março de 2026

30DVII - Revisão

E, tendo chegado ao fim destes 30 Dias do Aliado Vegetal, a que conclusões chegamos?
Como já disse anteriormente, foi uma experiência particularmente intensa de imersão no mundo particular do Loureiro, um reforçar dos laços entre nós, e uma verdadeira educação sobre como se aproximar da planta em todos os níveis; como prática didática, eu recomendaria a todos os Vates ou outros seguindo caminhos com ênfase no herbalismo como um processo onde inevitavelmente a pessoa sai da experiência sabendo, fazendo e sendo mais do que antes de ter entrado no desafio.
Que agora deixo em suas mãos. 

domingo, 29 de março de 2026

30DVII - Valores do Herbalista

O tema de hoje é central, no sentido de que se eu fosse fazer outra jornada dos 30DV com outra planta (e isso não está fora de cogitação) eu repetiria o mesmo texto a cada vez, desde que não há motivos para os valores da prática do herbalismo serem diferentes a cada planta estudada.
Dito isso, eu começaria pelo aspecto ambiental/ecológico: o bom herbalista procura manter o equilíbrio do ambiente onde colhe suas plantas, não poluindo o local, não danificando as plantas no processo da colheita, deixando sempre uma parte sem colher para usufruto dos seres do habitat (incluindo outros herbalistas!) e fazendo uso integral do que colheu, sem desperdiçar nada, e sempre que possível retribuir ao ambiente, seja devolvendo a matéria descartada da planta após seu processamento, seja periodicamente fornecendo água e/ou adubo ao local.
Outro aspecto é o espiritual: o bom herbalista participa de uma visão de mundo animista, onde as plantas são pessoas de direito e que devem ser respeiradas como tal; criar hábitos como o de pedir licença às entidades do local antes de entrar no ambiente, pedir permissão à planta para colher o que precisa (e explicando o que pretende fazer com o que colheu), deixar periodicamente oferendas de agradecimento pelo auxílio prestado, meditar frequentemente nos aspectos psíquicos da planta e estabelecer relacionamentos recíprocos com ela, ao invés de considerá-la uma mera fonte de matéria prima, e procurar ter em mente a essência viva da planta durante o preparo dos medicamentos, a serem considerados aspectos manifestados da entidade-planta em vez de meros compostos moleculares frios e sem vida.
E por fim o aspecto social: o bom herbalista percebe a si mesmo como membro de um meio social com o qual está em interação constante, e ao qual serve com sua arte e ciência: é seu dever manter-se atualizado com boas práticas e procedimentos, ter sempre em mente o bem-estar das pessoas que a ele recorrem, partilhar com elas não só o conhecimento das ervas mas também a responsabilidade e as decisões sobre a melhor conduta a cada caso, e lembrar sempre que elas também são entidades tanto espirituais quanto materiais, que não basta dizer "tome este chá, volte em 2 semanas" sem tentar entender os processos que levaram a doença a se manifestar e ajudar a pessoa a entendê-los e ser participante ativa do processo de cura.

sábado, 28 de março de 2026

30DVII - Pessoal

Hoje é o dia mais subjetivo dos 30 Dias, porque implica em avaliar a mim mesmo (aquela pergunta que eu gosto de fazer a quem completou outros desafios, "o que mudou, o que continua o mesmo?")
Descobri que é realmente desafiador ir atrás das informações requeridas a cada dia, e ver o que vou aprender nesta etapa; nas partes mais práticas, o desafio é encontrar tempo suficiente para realizar as tarefas no dia em questão, como quando encontrei os nomes novos do loureiro.
E descobri que incluir o louro em pó no meu dia-a-dia faz sentido, levando em conta todas as suas propriedades naturais e sobrenaturais.
Então, eu mudei.

sexta-feira, 27 de março de 2026

30DVII -- Experiência

No ciclo da Amoreira eu descrevi/imaginei uma experiência de imersão na sua essência, usar simultaneamente todas as suas formas (chá, tintura, culinária, óleo, incenso, banho, talismã, etc) com a ressalva que fazer isso ao mesmo tempo, ou ao longo de um mesmo dia, não é exatamente a coisa mais exequível e acessível à maioria das pessoas (incluindo eu mesmo...); para o ciclo do Louro, eu vou me ater só a uma forma, mas preparada e desfrutada em atenção total e intenção focada na comunhão com a planta.
Então, eu decidi experimentar fazer o chá de louro com a folha em pó, não inteira, e ver se isso modificava significativamente o gosto e o cheiro: preparei, tomei, observei a experiência imediata.
O gosto e aroma ganharam uma qualidade mais amadeirada/terrosa, com o perfume básico do louro no fundo, e a sensação final é energizada e despertadora da consciência interna e externa: só tenho a dizer que recomendo.

quinta-feira, 26 de março de 2026

30DVII -- Canção/Poema

Este poema foi escrito por Ursula K. Le Guin em 1987, como parte do livro Buffalo Gals and Other Animal Presences, e aqui ele recebeu uma trilha sonora composta por Christopher M. Wicks em 2007, como parte do show/antologia Songs of the Here and Now.
Desfrutem.
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A COROA DE LOURO

Ele gostava de sentir meus dedos em seu cabelo.
Então ele os arrancou de mim, fez com eles uma guirlanda,
e a usa em paradas e torneios,
meus dedos mortos cheirando a cozinha entrelaçados em seus cachos ensolarados.
Às vezes ele repousa reclinado em mim.
Fora isso, ele parece ter se desinteressado.

Não foi para preservar minha virtude que fugi!
O que faria uma ninfa como eu
com algo que pertence aos homens?
É só que eu não estava a fim.
E ele não se importou. E isso me assustou.

Os garotos de pernas-de-bode mal sabem falar,
e no entanto esperam até saber pelo cheiro que
você quer trepar com um perna-de-bode nos bosques,
rolando e se arranhando e rindo -- eles sabem rir!
Pobres pauzinhos peludos, sinto saudade deles.

Quando nos cansávamos desse tipo de coisa,
minhas irmãs ninfas e eu nos deitávamos por aí
para falar, e provocar, e acariciar, e perseguir, e espreguiçar
ansiando por outra conversa, e dormir
à sombra tépida lado a lado
sob a folhagem, e tudo nos agradava.

E então os mortais caçadores do gamo,
os clandestinos, os pastores decíduos --
eles ficavam de boca aberta, olhos como corujas,
sem mesmo uma esperança, ainda que eu lhes sorrisse...
Novos a cada primavera, como narcisos, esses garotos. 

Mas uma vez por quarenta anos encontrei um homem
nas colinas da Arcádia tosadas por carneiros.
Beijei suas rugas, ravinas do tempo
onde não posso entrar, olhando o escuro de seus olhos
que se apagou e aprofundou, vendo cada vez menos, até morrer.
Eu acompanhei seu funeral. Entre os aldeões 
caminhei atrás de sua grisalha esposa.
Ela podia ter sido a esposa do Tempo, minha avó.

E então havia meus irmãos das correntezas,
ó meus rios-amantes de línguas de prata,
tão doces para a sede! O frio, prolongado deleite
de um rio se movendo por mim, seu fluir e fluir e fluir!
Eles enviam a minhas raízes sua gentileza, mesmo agora,
e lentamente bebo das mãos de minha mãe. 

E isso era tudo o que eu conhecia, até ele chegar,
duro, brilhante, ardente, seco, atento:
uma só vontade, ao invés de desejos em encontro,
nenhum centro senão ele mesmo, o Sol. Um Deus
é assim, eu suponho: ele tem que ser.
Mas então, eu nunca pedi para conhecer um deus,
quanto mais fazer amor com um. Porque ele achava
que eu queria? E quando eu lhe disse não, 
qual o dano que ele pensava que isso lhe causou?
Não deve ser difícil achar uma garota ansiosa
para amar um deus grande e louro de olhos azuis.
Ele disse isso, ele falou "vocês são todas iguais".
Ele nos viu a todas, ele sabe. Então, porque eu?

Eu acho que o tempo tinha chegado para mim
de abandonar a nudez, de me vestir.
E foi preciso um deus para me levar a isto.
Minha mãe nunca pôde. Então, eu vesti
minhas meias castanhas e com nervuras, 
e minha roupa de baixo de sedoso câmbio,
e meu vestido verde.
E me tornei minha roupa, sendo o que vestia.

Não corro mais: os ventos me dançam.
Minha irmã, costureira, ascende soberana
da escuridão sob as raízes 
para remendar minhas roupas em Abril. E eu permaneço
em minha verde paciência nas chuvas de inverno.

Ele me honra, diz ele, ao vestir
meus dedos tornados marrons e quebradiços, entrelaçados no luminoso cabelo de sua cabeça.
Ele canta.

Meu silêncio coroa a canção. 

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(traduzido do inglês por Ricardo Soares Silva  (Endovelicon) em 26 de Março de 2026 para publicação n'O Bosque do Javali nesta data; republicação permitida APENAS sem fins lucrativos, devendo obrigatoriamente constar o nome do tradutor e da autora e um link para esta postagem)

quarta-feira, 25 de março de 2026

30DVII - Talismã

Como na ocasião da Amoreira, hoje eu tenho um talismã de louro antigo e um atual.
À esquerda eu tenho o meu dado ogâmico, ideia do meu amigo Ricardo Aguiar (dos tempos do Ramo de Prata): um pedaço de madeira com cinco faces e marcas de 1 a 5 em cada aresta, que ao ser jogado cai com uma das arestas para cima -- se eu jogo uma vez e cai 2, é o 2o. aicme (família) de letras, e jogando outra vez tenho o 3, que indica o fíd (letra), então isso é a 3a. letra da 2a. família, ou seja, Tinne/Azevinho; parece difícil enquanto você não estiver familiarizado com a sequência das letras, mas então é um método simples, rápido e supremamente portátil de consulta oracular.
À direita está o talismã que eu fiz hoje de manhã, uma folha de louro devidamente despertada e conjurada com um sigilo mágico em tinta dourada, para ser levada na carteira e ir agindo ao longo do tempo de modo sutil mas poderoso.
Os poderes divinatório e manifestador do louro, em forma visível e utilizável por todos.

terça-feira, 24 de março de 2026

30DVII - Escrever Nova Fonte III

(cont.)
MAGIA: cura, divinação, manifestação de desejos, purificação, proteção contra o mal, ritos de benzimento, vitória 

ASTROLOGIA: planeta Sol, elemento Fogo

CONTRAINDICAÇÕES: uso concomitante de hipoglicemiantes, gravidez e amamentação 

INTERAÇÕES: hipoglicemiantes (hipoglicemia), sedativos/benzodiazepínicos/anestésicos (sedação)

DOSE: 1 colher de sopa de folhas secas para 1-2 xícaras de água fervente, 3 a 6 xícaras por dia; 
uso excessivo pode causar gastrite/úlcera (oral) ou alergia/dermatite (tópico)

segunda-feira, 23 de março de 2026

30DVII -- Escrever Nova Fonte II


(cont.)
PROPRIEDADES: anti-inflamatório, bactericida, hepatoprotetor, digestivo, hipoglicemiante

USOS: indigestão, cólicas, gases, acne e cicatrização de feridas, hepatite gordurosa, diabetes

domingo, 22 de março de 2026

30DVII - Escrever Nova Fonte I


...e agora, sintetizar o que aprendemos num texto novo:

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LOUREIRO

NOME CIENTÍFICO: Laurus nobilis sp. (3 espécies no gênero, outras aparentadas de gêneros diversos)

HABITAT: nativa do Mediterrâneo, atualmente em toda a zona temperada e subtropical

CULTIVO: solo profundo, com bom conteúdo orgânico e boa drenagem de umidade, boa exposição à luz solar, irrigação apenas se a terra estiver seca; plantio na Primavera (em alguns lugares também no Outono), poda dos ramos no começo do Inverno

COLHEITA: fim do Verão (folhas e frutos)

PARTES UTILIZADAS: folhas, frutos

SABOR/AROMA: folhas aromáticas, amargas quando frescas, sabor suave quando secas; componente tradicional do bouquet garni

FARMACOQUÍMICA: óleos essenciais eucaliptol, linalol, eugenol, terpenila e pinenos, além de taninos, alcalóides, flavonóides, potássio e magnésio, e vitaminas C, A, B6 e B9

(continua amanhã)

sábado, 21 de março de 2026

30DVII - Ler Nova Fonte Médica

Diferentemente do ciclo da Amoreira, desta vez eu nem me dei ao trabalho de ver o que o alfarrábio do Culpeper diz a respeito do Louro, provavelmente outra enxurrada de pataquadas com uma ou outra informação relevante perdida no meio.
Então fui procurar uma fonte mais respeitável. 
E eis que a Ayurveda tem uma boa dose de tradição e sensatez para oferecer.
Segundo este site, os textos védicos falam do uso de outras variedades do louro que não a mediterrânea, mas atualizaram as informações quando ele foi posteriormente introduzido na Índia -- as folhas são eficazes em infusão contra cólicas e gases, o óleo dos frutos tem efeito antiacne por sua ação bactericida, e também alivia dores reumáticas e contusões.
(ah, sim, o site adverte que NÃO há estudos com gestantes ou amamentantes, então seu uso é contraindicado nestes casos).

sexta-feira, 20 de março de 2026

30DVII - Nome Pessoal

O desafio hoje é mais complexo: criar (ou descobrir?) um novo nome para o louro, um nome pessoal, a ser usado em ritos de cura e magia, que expresse algo de sua natureza essencial. 
Decido por um nome "secreto" e um título público - para o nome, eu peguei o nome do gênero, Laurus, e usei meu código numerológico baseado no Ogham, chegando ao número 316; a partir daí obtenho três arranjos de letras, ficando com o terceiro deles, de base Celtibérica.
Quanto ao título, o que me veio foi "verde cura" que em Proto-céltico seria glassoiakos e soa muito bem: amanhã, nas comemorações do Equinócio, verei o que as Divindades tem a dizer.

quinta-feira, 19 de março de 2026

30DVII - Personalidade

Eu não incluí este quadro da Pítia do Oráculo de Delfos na postagem de ontem porque ela me pareceu um retrato perfeito do caráter não-totalmente-deste-mundo do louro, a Liminalidade em forma de planta, algo diante do qual se guarda um silêncio reverente.

quarta-feira, 18 de março de 2026

30DVII - Artes

Como a planta-símbolo da Inspiração, o louro foi tema de incontáveis obras de arte desde a Antiguidade clássica, em especial pelo mito de Dafne e Apolo que já vimos:


A escultura clássica de Bernini, com sua Impressionante riqueza de detalhes como a transição da textura da pele humana para a casca da árvore, é o exemplo mais conhecido do público em geral, mas quadros como o de Antonio del Pollaiuolo não ficam atrás:


Ou a versão mais moderna de Waterhouse:

Mas o louro em si mesmo também é presente, com a coroa de louro como símbolo de vitória:


...e de Inspiração poética: Dante e Virgílio, aqui retratados por Hippolyte Flandrin visitando o Purgatório, estão ambos coroados de louro como poetas que são:

E o louro passou a fazer parte dos retratos oficiais do Poeta:

E a imagem da coroa se tornou um dos ornamentos gráficos mais frequentemente usados no design contemporâneo:

Mas, para mim, o detalhe do quadro de René-Antoine Houasse que encabeça este post é o mais expressivo e sintético de todos eles, uma imagem que fala por mil palavras.

terça-feira, 17 de março de 2026

30DVII - Meditação

Lavada a cabeça com a tintura de louro, bebido o elixir espagírico de louro, um ramo de louro sob o travesseiro, um ramo de louro em minha mão, uma folha de louro em minha boca, eu me deito em meditação esta manhã. 
Visualizo uma mandala de folhas de louro, com uma vela no centro, e deixo a atenção interior se mover pela imagem.
Um raio de Sol desce, e um loureiro se eleva, o verde respondendo ao ouro; a luz e a planta se fundem, um loureiro dourado brilha à minha frente.
Minha consciência entra na Árvore, e o que vejo? Escuridão, a força sombria no centro de todas as coisas, a matriz de onde tudo nasce e para onde tudo retorna.
Percebo que não há como entender a Luz sem a Escuridão, e que não há Vida onde uma ou outra estão ausentes. 
Consciente ao mesmo tempo da Luz fora e da Escuridão dentro, respiro uma e outra, invertendo suas posições e retornando-as, com a Vida crescendo no encontro de ambas.
Minha consciência se dissolve junto com a visão, e retorno ao mundo aparente. 

segunda-feira, 16 de março de 2026

30DVII -- Tintura

Hoje é o dia de falar sobre tinturas, e esta é uma tintura regular, não-espagírica, feita nos dias consagrados a Endovélico para ser parte de banhos rituais dedicados a Ele (junto com tintura de pinheiro preparada do mesmo modo, ambas diluídas em água de coco para unir as 3 plantas sagradas do seu culto).
Ponha as folhas secas do louro (para a umidade das folhas frescas não causar mofo) num recipiente com tampa até quase encher, acrescente a base alcoólica de sua escolha (eu uso vodka, mas álcool de cereais é mais tradicional), agite bem o recipiente e guarde em local escuro e seco, agitando uma vez por dia, e consagrando à Divindade de sua escolha a cada 9 dias; depois de +/- 30 dias coe a mistura, descarte as folhas e transfira o líquido para outro frasco guardado no escuro.
Para usar, dilua 1 colher de café num copo de água (para uso interno) ou 3 colheres de sopa numa bacia de água (para banhos), conjurando devidamente a mistura antes de usar.
Bom proveito, pessoal.  

domingo, 15 de março de 2026

DVII - Mitologia

E Dafne contemplou Apolo com repulsa.
Não sabia que essa repulsa, e a paixão no olhar do deus à sua frente, eram frutos das flechas da vingança de Eros.
De quem Apolo zombou, ao vê-lo tão pequeno empunhando um arco tão grande, à beira do rio Ladon.
Onde Apolo foi enviado para se purificar, como penitência imposta por Gaia.
Que estava ultrajada por ele ter abatido Python, a serpente sagrada de seu santuário em Delfos
...e mesmo sem saber disso tudo, ela sabia que devia fugir.
E longa foi sua fuga, e a perseguição que a motivava.
E quando tudo parecia perdido, a terra se abriu sob seus pés e a engoliu
(há quem diga que foi o rio Ladon, seu pai, que fez isso, há quem diga que foi Gaia, de quem ela era sacerdotisa).
E sobre a fenda agora fechada, o primeiro loureiro ergueu sua verde ramagem em advertência e desafio ao impetuoso perseguidor. 
Que caiu em si, toda paixão tornada arrependimento, e abençoou e consagrou a si a nova árvore, que batizou com o nome da náiade desaparecida
(dizem que ela foi conduzida por rios subterrâneos no seio da terra, e que chegou à ilha de Creta, onde encontrou santuário em um outro templo de Gaia).
Assim os aedos antigos, coroados de louro, cantaram inspirados pelas Musas do cortejo de Apolo.
Quem tiver ouvidos, que ouça. 

sábado, 14 de março de 2026

30DVII - Emoção

Que outra coisa é possível sentir, diante de um loureiro verde, ou mesmo de um simples ramo, que não um silêncio reverente, o sentimento de uma Presença que purifica e abençoa simplesmente por estar ali?

sexta-feira, 13 de março de 2026

30DVII - Astrologia

Como vimos ontem, o louro é uma planta do Sol (e, por extensão, do signo de Leão), então se supõe que operações mágicas com ele sejam mais eficazes se feitas num dia e/ou hora do Sol, ou com o Sol domiciliado em Leão: este é o caso da minha tintura espagírica de Louro, feita durante o Sol em Leão e com cada etapa do processo executada em Domingos consecutivos (dia do Sol) ao amanhecer (hora do Sol) -- três gotas disto num copo de água é como beber a luz do Sol...

quinta-feira, 12 de março de 2026

30DVII - Magia

Uma planta tão evidentemente poderosa e abençoada pelos Deuses não poderia ficar fora dos grimórios antigos e modernos: as fontes concordam que o louro é regido pelo Sol e seu elemento é o Fogo, e são legião as Divindades a quem ele é consagrado, sendo usado para cura (um saquinho com folhas no pescoço), divinação (um ramo sob o travesseiro), manifestação de desejos (escritos numa folha que é queimada), purificação e proteção contra o mal (um ramo na porta, ou queimado para defumação), benzimento (um raminho com orações) e vitória (guardado no bolso, ou dentro da boca) -- as possibilidades são inúmeras, quem quiser que tente.

quarta-feira, 11 de março de 2026

30DVII - Chá

Hoje repetimos o chá de louro conforme as especificações da postagem de ontem: 1 colher de sopa de folhas secas para 1 xícara de água, desligar o fogo antes da fervura, por as folhas, cobrir e aguardar entre 5 e 10 minutos; a infusão tem uma cor bem clarinha, o perfume do louro é bem marcado sem ser excessivo, às vezes lembrando eucalipto, e o gosto é leve e delicioso mesmo sem adoçar (imagino que com mel deve ficar muito bom, em especial o de eucalipto) -- eu recomendo a quem quiser um bom chá matinal.

terça-feira, 10 de março de 2026

30DVII - Preparo

A maioria das fontes pesquisadas investiga o louro com ênfase nos extratos aquosos ou alcoólicos das folhas e/ou frutos, que são ricos em eucaliptol, linalol, eugenol, terpenila e pinenos como óleos essenciais, além de taninos, alcalóides, flavonóides, potássio e magnésio, e vitaminas C, A, B6 e B9, com uso primariamente terapêutico mas também aplicações em produtos cosméticos e processos de conservação de alimentos e medicamentos; para uso doméstico, o melhor e mais acessível preparo é a infusão, na base de 1 colher de sopa de folhas secas para 1 xícara de chá de água, desligando o fogo assim que a fervura começa, e deixando tampado por 5 minutos antes de servir, usando 3-4 xícaras por dia; quanto à tintura alcoólica, veremos isso mais à frente. 

segunda-feira, 9 de março de 2026

domingo, 8 de março de 2026

30DVII - Contato Pessoal

Diferentemente da amoreira, o louro não é uma espécie difundida no paisagismo urbano de São Paulo, não sei de nenhum exemplar disponível nas ruas daqui, então não tive um relacionamento mais próximo com ele desde a infância in natura.
 Como a maioria de nós, eu vim conhecer o louro na cozinha, aquelas folhas verdes e perfumadas que entravam na panela de pressão pra fazer o feijão e depois eram pescadas de dentro do prato já pronto, e sempre gostei muito dele.
Mas um relacionamento mais íntimo só veio a surgir anos depois, quando eu vim a conhecer os Deuses da Lusitânia, Endovélico entre eles, e reconheci o louro como uma de Suas plantas consagradas, com sua imagem gravada nos altares a Ele dedicados:

Na minha liturgia pessoal, uma folha de louro é oferecida a Ele todas as manhãs antes das oferendas às outras Divindades, e a cada 9 dias eu faço um rito centrado Nele onde 3 folhas, escolhidas entre as maiores e mais perfeitas, são amarradas juntas com um fio vermelho para formar um ramo sagrado, que se torna a chave do portal entre os mundos que Ele abre e guarda enquanto o rito durar -- no dia seguinte, as folhas são cerimoniosamente picadas com as mãos e vão forrar a tigela de oferendas devidamente esvaziada e lavada, e ali ficam até a próxima novena.
E é para aproximar mais esse contato que eu escolhi o louro como homenageado neste ciclo dos 30 Dias.

sábado, 7 de março de 2026

30DVII - 3 Fontes Médicas

Mantendo o mesmo padrão do ciclo anterior, eu vou me basear nas mesmas fontes já consultadas.
Physica, o tratado médico de Santa Hildegarda, menciona o uso do louro como elixir e bálsamo para tratar doenças respiratórias e reumáticas e revitalizar o organismo, pelo seu calor interno e suave que aquece, restaura e vivifica a alma.
O WebMD menciona mais 5 plantas chamadas "louro" além do L.nobilis, que não tem nenhum parentesco entre si, mas refere que há estudos indicando seu uso para reforçar o sistema imunológico, ajudar na digestão e possivelmente prevenir o surgimento da diabetes tipo 2 (neste último caso os estudos ainda são inconclusivos) e adverte contra seu uso em mulheres grávidas ou amamentando.
O PubMed, já na primeira página da busca por "bay laurel", lista artigos (4751 no total) sobre a possível ação do louro como anti-inflamatório e tratamento para a gordura no fígado (esteatose hepática), bem como o uso do óleo essencial de louro como preservante em alimentos e medicações.
Mais à frente vamos explorar os fatores bioquímicos implicados nesses usos, mas já deu pra perceber a riqueza oculta nessa folha verde e aromática. 

sexta-feira, 6 de março de 2026

30DVII - Olfato/Paladar

Nada substitui a experiência direta, e os 30 Dias tem muitas oportunidades para isso; comecei por provar uma ponta de folha fresca de louro e uma de folha seca -- a fresca tem odor e sabor mais intensos, mas tem um fundo meio amargo que a torna meio contraindicada para a ingestão (é fazer o feijão, por exemplo, e retirar a folha antes de servir).
Fiz chá de louro com 1 xícara de água e 2 folhas grandes e secas, postas na água ainda fria e deixadas até a fervura, o chá abafado por 10 minutos antes de servir: suave, perfumado de modo discreto, quase incolor na quantidade usada -- daqui a 5 dias vou repetir o chá de modo mais elaborado e veremos como fica.

quinta-feira, 5 de março de 2026

30DVII - Colheita

Interessantemente, eu comecei esta edição dos 30 Dias no final do Verão, que é justamente o período da colheita do louro.
O plantio é feito na Primavera (e, em lugares mais frios, no Outono também), basta apenas cortar um galho, tirar as folhas da base e deixar algumas na extremidade e enfiar na terra (pode ser num vaso, de onde irá pra terra quando criar raízes); para colher as folhas, é melhor cortá-las com uma tesoura (o ato de arrancá-las com a mão pode lesar a casca do ramo e ocasionar doenças), dando preferência às folhas maiores e mais escuras, que são mais ricas em óleos essenciais.
As frutinhas (que são tóxicas para comer) são colhidas separadamente na mesma época e são a fonte do óleo essencial de louro, que veremos mais detalhadamente em postagens futuras.
Uma vez colhidas, as folhas são secadas ao ar livre (sem exposição ao Sol, que reduz os componentes da folha) ou em forno baixo, e então, guardadas em recipiente fechado e escuro, podem durar até um ano.
O que fazer com elas, é o que veremos a seguir.

quarta-feira, 4 de março de 2026

30DVII - Habitat

Há milhares de anos, todas as terras banhadas pelo que hoje é o Mediterrâneo eram cobertas por vastas florestas de louro (o qual, deixado em paz, cresce e se torna uma árvore de 12 metros de altura e tronco de 30 centímetros de diâmetro); quando o nível do mar baixou aos níveis atuais e o clima ficou menos úmido (no Plioceno) essas florestas recuaram para perto da costa e deram espaço às outras espécies que agora vivem lá, e a última delas desapareceu há mais ou menos 10 mil anos, restando ainda bosques isolados em toda a região costeira -- mas devido a seu uso cada vez mais difundido, suas mudas foram levadas a todas as partes, e hoje até aqui no Brasil ele é encontrado e devidamente apreciado.

terça-feira, 3 de março de 2026

30DVII - Nomes

Toda planta tem muitos nomes além daquele pelo qual é conhecida, é o louro não é exceção; ele também é Daphne (por razões que veremos mais à frente), Louro Grego, Laurier d'Apollon, Baig Tree, Lorbeer, e seu nome na classificação de Linneu é Laurus nobilis.
(mais à frente eu terei de encontrar um nome próprio para ele, como fiz com a amoreira, mas ainda tem chão nesse caminho).

segunda-feira, 2 de março de 2026

30DVII - Escolha

Neste ciclo vamos trabalhar com o Louro, uma das plantas que cheguei a cogitar na temporada passada: uma erva culinária, medicinal e mágica, cheia de usos e recursos, algo a se explorar com mais atenção.
Embarcando na jornada....

domingo, 1 de março de 2026

30DVII - Intenção

E aqui começamos mais um ciclo.
Minha intenção nestes novos 30 Dias é basicamente a mesma de 2022, ou seja, aprender mais sobre a planta da minha escolha, fazer isso como uma prática devocional do Caminho dos Vates (como uma novena, mas 3X mais longa) e encarar esse ciclo como uma iniciação nos mistérios da Planta em questão - a diferença é que desta vez eu já escolhi a planta que será o foco do meu trabalho (ou ela me escolheu, o que dá na mesma), mas falaremos disso amanhã. 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Desafio II

Anos depois do primeiro ciclo, eis que inicio uma nova edição dos 30 Dias do Aliado Vegetal, um desafio imersivo de explorar por um mês completo uma planta importante para a sua prática espiritual e, assim, reforçar seus vínculos com ela (além de aprender mais e, partilhando o aprendizado, ensinar a mais pessoas); como da outra vez apresento aqui o currículo, dividido nos seguintes temas: 

1 – Intenção 
2 – Escolha 
3 – Nomes 
4 – Habitat 
5 – Colheita 
9 – Desenho 
10 – Preparo 
11 – Chá 
12 – Magia 
13 – Astrologia 
14 – Emoção 
15 – Mitologia 
16 – Tintura
17 – Meditação 
18 – Artes 
19 – Personalidade 
25 -- Talismã
26 – Canção/Poema 
27 -- Experiência 
28 – Pessoal 
30 -- Revisão 

...nos vemos em Março 

(PS: eu incluí um bônus que complementa a experiência a nível de imersão, leiam aqui)