sexta-feira, 17 de julho de 2026

Odisséia

(SPOILERS ABAIXO, EU AVISEI)

Por onde começar?
A Odisséia do Nolan NÃO é NADA do que os trailers, entrevistas, comentários de redes sociais e críticas deram a entender, eu fui assistir sem expectativas e o que vi me surpreendeu, e muito.
Concordo com a crítica quanto a falta de cores no filme (exceto pela Penélope), discordo veementemente das queixas quando ao elenco inclusivo (todo mundo está perfeito em seus papéis, os diálogos são maravilhosos).
Mas a minha queixa pessoal é outra.
Sou só eu que me cansei dessas versões desmitologizadas de lendas como os mitos gregos ou as narrativas arturianas? Ninguém mais odiou a Tróia do Brad Pitt totalmente expurgada de Deuses e oráculos?
Aqui as Divindades são mencionadas todo o tempo, tudo o que acontece é entendido como sendo do desígnio divino, mas há um certo pudor em mostrá-Las como personagens encarnados (Atena é a única que é retratada, e parcimoniosamente demais para o meu gosto, e para cúmulo de tudo nesse filme Mentor NÃO é o avatar Dela) -- o que os diretores/produtores modernos não entendem é que na antiguidade da Grécia as pessoas não "acreditavam" nas Divindades, assim como nós não "acreditamos" nas árvores e nuvens, em ambos os casos as coisas são fatos consumados da existência com os quais temos de lidar, e com os quais às vezes brigamos e tentamos negar, e sofremos as consequências dessa teimosia humanocêntrica. 
Onde o filme falha com os Deuses, ele compensa generosamente com os Ancestrais: na cena em que Odisseu, instruído por Circe, faz a oferenda necromântica de sangue aos mortos para evocar o espectro do vidente Tirésias e perguntar sobre seu destino, vemos retratada com perfeição terrível a visão dos Gregos antigos sobre a desolação do pós- morte no Hades e a inexorabilidade do destino humano, em especial o daqueles que incorrem no desfavor dos Deuses.
(a propósito, Circe está simplesmente perfeita, menos a majestosa sacerdotisa-filha-de-Hélios e mais a rústica bruxa-da-floresta, o tipo que se sentiria em casa no The VVitch)
E quanto aos Espíritos da Natureza, a ninfa Calipso aqui está no papel clássico de tentadora e aprisionadora do original homérico, mas o detalhe de ter seu mito fundido com o dos comedores-de-lótus e de ser mostrada no processo quase-terapêutico de conduzir Odisseu entre esquecimento e memória até a cura e a liberdade é uma inovação absolutamente brilhante onde uma Charlize Theron desglamurizada brilha pela interpretação e interação com o Odisseu quebrado que ela tenta restaurar.
A pergunta do filme é "qual o caminho?", seja para Odisseu em busca de Ítaca, seja Penélope procurando meios de enganar os pretendentes, seja Telêmaco tentando achar provas da morte ou vida de seu pai e crescendo no processo (e é aí que a falta de Atena-como-Mentor pesa mais e enfraquece o arco dele, que no original é quase a proto-versão de um Bildungsroman).
Não tem Deuses, mas tem mitologia pra todos os gostos: Polifemo, Cila e Caribdis parecem diretamente saídos do livro que li aos 10 anos, as Sereias viraram uma abstração simbólica do desejo e da falta quase psicanalítica em sua concepção, as feras da ilha de Circe são simultaneamente bonitinhas e terríveis porque deixam transparecer o que resta de humano nelas, e a tempestade final de Poseidon que dizima a tripulação do barco é simplesmente aterradora.
Mas o que eu mais gostei desta versão, certamente inspirado pela Awen, é o clima quase-apocalíptico que perpassa a narrativa como pano-de-fundo, um ar de Fim-dos-Dias centrado na ameaça historicamente real da vinda dos Povos do Mar, um grupo heterogêneo e ainda não-plenamente identificado de povos cujas imensas frotas trouxeram às civilizações do Mediterrâneo guerra e caos, culminando com o fim da Era do Bronze: no final, Penélope pergunta a Odisseu "porque eles irão cantar nossa história?" e ele responde "para lembrar de um tempo em que ainda havia quem pudesse escrevê-la" -- a expectativa do fim de um mundo, e a esperança de um mundo novo a sucedê-lo; e não é no Fim-dos-Dias que estamos vivendo agora, onde uma nação após a outra sucumbe ao caos, a cultura luta para não submergir no algoritmo, e o próprio clima se volta contra nós?
Odisseu se pergunta, em seu diálogo com Penélope, se foi a violência perpetrada contra Tróia e seu povo, a violação da lei sagrada da hospitalidade, que deu origem aos Povos do Mar, se eles não são senão sintomas da doença que acometeu a civilização micênica e teve sua expressão máxima na Guerra de Tróia, e talvez tenhamos que nos perguntar o mesmo sobre a sombra despontando no horizonte.
E talvez, quem sabe, podíamos começar restabelecendo um relacionamento correto com os Deuses e não-Deuses, não?

(VÃO VER!)

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Encontro em Silêncio

SPOILER SPOILER SPOILER
(não digam que não avisei!)

Então, ontem eu assisti Dia D.
O retorno do Spielberg ao tipo de cinema que fez dele o que é.
A descrição do enredo parece clichê -- uma apresentadora de TV e um especialista em informática trabalhando para uma ONG paramilitar tem seu caminhos cruzados pela possibilidade de, após 79 anos de negativas e desinformação, a verdade sobre a vida extraterrestre na Terra ser finalmente revelada -- mas, como sempre, é a forma pela qual essa história é contada que faz toda a diferença.
E encontramos a pergunta-tema do filme, "o que aconteceu comigo?" centrada em memórias de infância, brilhantemente apresentadas pelo diretor que soube mostrar a infância como nenhum outro (e que aqui conseguiu a tarefa impossível de mostrar uma abdução alienígena como um momento mágico).
Em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, a canção-tema de PinóquioWhen You Wish Upon a Star, percorre o filme de uma ponta a outra e prenuncia a transformação, não do boneco em menino, mas do protagonista Roy em algo além de toda a sua imaginação; aqui a canção vem da Branca de NeveSomeday My Prince Will Come, e entendemos que Margaret também teve seu momento de, acompanhada de animais amigáveis, encontrar uma casa mágica no meio da floresta e deitar numa cama de cristal (assistam e entenderão)
Mas, olhando com olhos-de-druida, que vemos nesse filme? Eis que os pássaros são os mensageiros do (literalmente) Outro-Mundo, que Margaret, como os Awenyddion da tradição Galesa, fala em línguas estranhas e revela os segredos de cada coração desde que a Awen despertou nela, que não é à toa que os Deuses e não-Deuses costumam se valer de formas animais para o contato conosco, vemos várias instâncias do uso de um poder que só posso chamar do glamour da Boa Gente, e que, no diálogo crucial entre os líderes das duas facções, é revelado que a empatia é considerada a qualidade essencial neste mundo e nos outros, algo que qualquer Druida passado ou futuro sabe ser uma verdade indiscutível
(provavelmente Spielberg e os roteiristas tiveram contato com a obra de Jacques Vallée, ufólogo francês, que ao invés de pesquisar casos contemporâneos de aparições dirigiu sua atenção aos relatos e lendas medievais sobre cruzes, bolas e pratos luminosos nos céus, e pessoas pequenas com peles de cores diversas saindo e voltando de florestas, e concluiu que a fronteira entre ufologia clássica e mitologia folclórica era um tanto quanto arbitrária)
E tudo isso com a brilhante quase-ausência do mestre John Williams, que em vez de entregar composições com um protagonismo que rivaliza com os atores, aqui criou uma trilha sonora incaracteristicamente contida, discreta, um ou dois floreios sonoros mesmo nas cenas mais dramáticas, e que no final apoteótico culmina em...silêncio.
Pessoas em todo o mundo ligadas na TV ou nos seus celulares, assistindo ao vivo a revelação das revelações (lembrando que a palavra grega para isso é "apocalipse") em silêncio e contemplação: literalmente, o dia em que a Terra parou.
Mas essas palavras não dão mais que uma pálida ideia do filme, então VÃO VER!

terça-feira, 14 de abril de 2026

Moya

Ontem Tech Duinn, a Casa de Donn, a última parada das almas da Irlanda em sua jornada ao Outro-Mundo, recebeu uma visitante ilustre.
Eis que a mais velha de nove crianças, filha e sobrinha de músicos no interior da Irlanda, cantando e tocando harpa com seus irmãos no pub do pai, aos 18 anos se juntou aos seus irmãos Pól e Cíaran e seus tios gêmeos Pádraig e Noel em 1970 para criar a legendária banda Clannad.
Que fez sucesso local, depois nacional, e então mundial, apresentando o puro suco da música irlandesa tradicional, temperado com porções bem dosadas de pop e rock, que entraram em trilhas sonoras de séries como Robin of Sherwood e filmes como O Último dos Moicanos (e que fizeram a banda ser chamada de new age, o que ela abominava com todas as suas forças).
Ela dividiu o tempo entre o Clannad, seus projetos solo, e iniciativas religiosas, obras de filantropia e preservação ambiental; enfrentou a crise que vem com a fama súbita e a narrou na sua autobiografia The Other Side of the Rainbow.
E hoje o mundo ora por sua chegada segura aos salões dos Bardos, uma das notas mais afinadas da Grande Canção. 
Máire Philomena Ní Bhraonáin, bênçãos dos Deuses e não-Deuses a você, hoje & sempre.
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quinta-feira, 9 de abril de 2026

(30DVII -- BÔNUS)

...com atraso, chegou ontem à noite a minha encomenda especial da Herbal Saboaria para completar a experiência dos 30 Dias.
O sabão de Aleppo, de origem síria em um passado indefinido, é um sabão clássico à base de óleo vegetal (oliva) e alcalinizantes (soda cáustica), com o luxuoso acréscimo de 20 a 40% de óleo dos frutos do louro, com o aroma inconfundível que o caracteriza, secado e cortado em blocos antes de ser embalado; tem propriedades tradicionais de hidratar e proteger peles secas e tratar doenças dermatológicas (psoríase, dermatites, eczema), uso polivalente (sabonete, shampoo, creme facial, espuma de barbear) e serve desde bebês a anciãos sem agredir a pele.

Então, eu abri o pacote, e quase apaguei pela sobrecarga sensorial do odor literalmente divino que invadiu o banheiro, mas acabei me recuperando e cortei uma fatia do bloco para usar, voltando a embalá-lo e guardando num canto escuro e fechado.

...não tenho palavras para descrever o banho com o sabão de Aleppo, a maciez untuosa da pele, a nuvem aromática que flutuou à minha volta e se entranhou na carne até os ossos, a nítida alteração de estado de consciência -- acho que vou reservá-lo para os dias de ritual, decididamente é a experiência perfeita para encerrar o meu retiro com o Louro, louvado seja.

segunda-feira, 30 de março de 2026

30DVII - Revisão

E, tendo chegado ao fim destes 30 Dias do Aliado Vegetal, a que conclusões chegamos?
Como já disse anteriormente, foi uma experiência particularmente intensa de imersão no mundo particular do Loureiro, um reforçar dos laços entre nós, e uma verdadeira educação sobre como se aproximar da planta em todos os níveis; como prática didática, eu recomendaria a todos os Vates ou outros seguindo caminhos com ênfase no herbalismo como um processo onde inevitavelmente a pessoa sai da experiência sabendo, fazendo e sendo mais do que antes de ter entrado no desafio.
Que agora deixo em suas mãos. 

domingo, 29 de março de 2026

30DVII - Valores do Herbalista

O tema de hoje é central, no sentido de que se eu fosse fazer outra jornada dos 30DV com outra planta (e isso não está fora de cogitação) eu repetiria o mesmo texto a cada vez, desde que não há motivos para os valores da prática do herbalismo serem diferentes a cada planta estudada.
Dito isso, eu começaria pelo aspecto ambiental/ecológico: o bom herbalista procura manter o equilíbrio do ambiente onde colhe suas plantas, não poluindo o local, não danificando as plantas no processo da colheita, deixando sempre uma parte sem colher para usufruto dos seres do habitat (incluindo outros herbalistas!) e fazendo uso integral do que colheu, sem desperdiçar nada, e sempre que possível retribuir ao ambiente, seja devolvendo a matéria descartada da planta após seu processamento, seja periodicamente fornecendo água e/ou adubo ao local.
Outro aspecto é o espiritual: o bom herbalista participa de uma visão de mundo animista, onde as plantas são pessoas de direito e que devem ser respeiradas como tal; criar hábitos como o de pedir licença às entidades do local antes de entrar no ambiente, pedir permissão à planta para colher o que precisa (e explicando o que pretende fazer com o que colheu), deixar periodicamente oferendas de agradecimento pelo auxílio prestado, meditar frequentemente nos aspectos psíquicos da planta e estabelecer relacionamentos recíprocos com ela, ao invés de considerá-la uma mera fonte de matéria prima, e procurar ter em mente a essência viva da planta durante o preparo dos medicamentos, a serem considerados aspectos manifestados da entidade-planta em vez de meros compostos moleculares frios e sem vida.
E por fim o aspecto social: o bom herbalista percebe a si mesmo como membro de um meio social com o qual está em interação constante, e ao qual serve com sua arte e ciência: é seu dever manter-se atualizado com boas práticas e procedimentos, ter sempre em mente o bem-estar das pessoas que a ele recorrem, partilhar com elas não só o conhecimento das ervas mas também a responsabilidade e as decisões sobre a melhor conduta a cada caso, e lembrar sempre que elas também são entidades tanto espirituais quanto materiais, que não basta dizer "tome este chá, volte em 2 semanas" sem tentar entender os processos que levaram a doença a se manifestar e ajudar a pessoa a entendê-los e ser participante ativa do processo de cura.

sábado, 28 de março de 2026

30DVII - Pessoal

Hoje é o dia mais subjetivo dos 30 Dias, porque implica em avaliar a mim mesmo (aquela pergunta que eu gosto de fazer a quem completou outros desafios, "o que mudou, o que continua o mesmo?")
Descobri que é realmente desafiador ir atrás das informações requeridas a cada dia, e ver o que vou aprender nesta etapa; nas partes mais práticas, o desafio é encontrar tempo suficiente para realizar as tarefas no dia em questão, como quando encontrei os nomes novos do loureiro.
E descobri que incluir o louro em pó no meu dia-a-dia faz sentido, levando em conta todas as suas propriedades naturais e sobrenaturais.
Então, eu mudei.