quinta-feira, 26 de março de 2026

30DVII -- Canção/Poema

Este poema foi escrito por Ursula K. Le Guin em 1987, como parte do livro Buffalo Gals and Other Animal Presences, e aqui ele recebeu uma trilha sonora composta por Christopher M. Wicks em 2007, como parte do show/antologia Songs of the Here and Now.
Desfrutem.
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A COROA DE LOURO

Ele gostava de sentir meus dedos em seu cabelo.
Então ele os arrancou de mim, fez com eles uma guirlanda,
e a usa em paradas e torneios,
meus dedos mortos cheirando a cozinha entrelaçados em seus cachos ensolarados.
Às vezes ele repousa reclinado em mim.
Fora isso, ele parece ter se desinteressado.

Não foi para preservar minha virtude que fugi!
O que faria uma ninfa como eu
com algo que pertence aos homens?
É só que eu não estava a fim.
E ele não se importou. E isso me assustou.

Os garotos de pernas-de-bode mal sabem falar,
e no entanto esperam até saber pelo cheiro que
você quer trepar com um perna-de-bode nos bosques,
rolando e se arranhando e rindo -- eles sabem rir!
Pobres pauzinhos peludos, sinto saudade deles.

Quando nos cansávamos desse tipo de coisa,
minhas irmãs ninfas e eu nos deitávamos por aí
para falar, e provocar, e acariciar, e perseguir, e espreguiçar
ansiando por outra conversa, e dormir
à sombra tépida lado a lado
sob a folhagem, e tudo nos agradava.

E então os mortais caçadores do gamo,
os clandestinos, os pastores decíduos --
eles ficavam de boca aberta, olhos como corujas,
sem mesmo uma esperança, ainda que eu lhes sorrisse...
Novos a cada primavera, como narcisos, esses garotos. 

Mas uma vez por quarenta anos encontrei um homem
nas colinas da Arcádia tosadas por carneiros.
Beijei suas rugas, ravinas do tempo
onde não posso entrar, olhando o escuro de seus olhos
que se apagou e aprofundou, vendo cada vez menos, até morrer.
Eu acompanhei seu funeral. Entre os aldeões 
caminhei atrás de sua grisalha esposa.
Ela podia ter sido a esposa do Tempo, minha avó.

E então havia meus irmãos das correntezas,
ó meus rios-amantes de línguas de prata,
tão doces para a sede! O frio, prolongado deleite
de um rio se movendo por mim, seu fluir e fluir e fluir!
Eles enviam a minhas raízes sua gentileza, mesmo agora,
e lentamente bebo das mãos de minha mãe. 

E isso era tudo o que eu conhecia, até ele chegar,
duro, brilhante, ardente, seco, atento:
uma só vontade, ao invés de desejos em encontro,
nenhum centro senão ele mesmo, o Sol. Um Deus
é assim, eu suponho: ele tem que ser.
Mas então, eu nunca pedi para conhecer um deus,
quanto mais fazer amor com um. Porque ele achava
que eu queria? E quando eu lhe disse não, 
qual o dano que ele pensava que isso lhe causou?
Não deve ser difícil achar uma garota ansiosa
para amar um deus grande e louro de olhos azuis.
Ele disse isso, ele falou "vocês são todas iguais".
Ele nos viu a todas, ele sabe. Então, porque eu?

Eu acho que o tempo tinha chegado para mim
de abandonar a nudez, de me vestir.
E foi preciso um deus para me levar a isto.
Minha mãe nunca pôde. Então, eu vesti
minhas meias castanhas e com nervuras, 
e minha roupa de baixo de sedoso câmbio,
e meu vestido verde.
E me tornei minha roupa, sendo o que vestia.

Não corro mais: os ventos me dançam.
Minha irmã, costureira, ascende soberana
da escuridão sob as raízes 
para remendar minhas roupas em Abril. E eu permaneço
em minha verde paciência nas chuvas de inverno.

Ele me honra, diz ele, ao vestir
meus dedos tornados marrons e quebradiços, entrelaçados no luminoso cabelo de sua cabeça.
Ele canta.

Meu silêncio coroa a canção. 
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(traduzido do inglês por Ricardo Soares Silva  (Endovelicon) em 26 de Março de 2026 para publicação n'O Bosque do Javali nesta data; republicação permitida APENAS sem fins lucrativos, devendo obrigatoriamente constar o nome do tradutor e da autora e um link para esta postagem)

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