terça-feira, 1 de outubro de 2019

Midsommar


Eu escrevi no Facebook que Midsommar se resume a duas palavras: Terror, Sagrado.
É isso, sim, e ainda mais.
Midsommar é o filho espiritual do Homem de Palha e da Bruxa, que viajaram à Suécia para ter o bebê.
Só com descrever o filme – um grupo de universitários americanos vai passar o verão numa aldeia sueca, onde os costumes antigos são preservados, e que está comemorando um festival que ocorre a cada 90 anos – os desavisados já pensam que vai haver um massacre, muitos sustos e gritos, e no fim todos morrem; obviamente, desavisados que são, adivinharam errado. Este não é um scare movie, não há monstros que pulam detrás das árvores com facas e machados, não há nada para os fãs de terror barato aqui.

(mas, para prosseguir, aviso que há SPOILERS adiante, NÃO leiam se ainda não viram o filme!)

Começo dizendo que me ocorreu que é possível descrever os impulsos por trás da história de um filme como sendo perguntas.
No caso do The Wicker Man, a pergunta é “como arranjaremos um forasteiro que venha aqui voluntariamente para participar de nossa cerimônia?” e aí descobrimos, no final, que o sargento Howie era, desde o princípio, a vítima escolhida pelo Lord Summerisle para o sacrifício ritual pelo bem da colheita, insidiosamente manipulado desde o começo para este fim (e que cena magnífica a do final!)
No caso do The VVitch, a pergunta é “o que faremos com esta garota?” desde que Thomasin é objeto da incompreensão do pai, do ressentimento da mãe, do desejo incestuoso do irmão e do desprezo dos irmãos menores, e só a intervenção de Black Philip, o avatar das profundezas, lhe oferece a alternativa, antes impensável, de “viver deliciosamente” (e que cena magnífica a do final!)
Pois bem, em Midsommar ambas as perguntas conduzem a trama – os aldeões de Helga precisam de vítimas para o sacrifício quase-centenial, e Dani, a protagonista, está afundando na depressão, perdida entre o trauma da perda familiar e a indiferença dos amigos e do namorado, mas seus passos a levam para uma oportunidade de cura e reinício (literalmente, porque é através da dança das donzelas que ela assume a coroa florida da Rainha da Primavera e se encontra na posição de, perto do fim, escolher a última das nove vítimas sacrificiais).
O contraste das cenas escuras do início do filme e da luminosidade sobrenatural do sol-da-meia-noite, brilhando desde o céu ferozmente azul sobre as roupas e paredes brancas da aldeia e seus habitantes, já deixa claro que saímos de um mundo e um tempo que nos são familiares para adentrar terreno desconhecido, e que segredos antes ocultos na escuridão serão impiedosamente iluminados pela luz incessante.
Há muitos momentos absolutamente chocantes, tanto visual quanto psicologicamente, e nada é ocultado, nem do sol, nem dos protagonistas e nem dos espectadores; no entanto, a pura beleza que permeia o filme emoldura cada cena e faz o milagre de reconciliar opostos de um modo inacreditável.
Só sei que saí do cinema em transe e maravilhamento, e desejo a vocês a mesma experiência.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Amazônia, 2019



A Enobolico dubnotigernos,
Javali negro das profundezas,
Eu chamo com minha voz;
A Ategina dubnotigerna,
Cabra negra das profundezas,
Eu chamo com minha voz;
Pela vela negra acesa,
Luz emergida da escuridão,
Eu chamo com minha voz;
Pelo pão negro no prato,
Semente abatida pela foice,
Eu chamo com minha voz;
Pelo vinho negro no cálice,
Sangue da fruta derramado,
Eu chamo com minha voz;
Para acolher os mortos
E recebê-los na casa-de-baixo,
Eu chamo com minha voz;
Para proteger os vivos
E defendê-los de todo mal,
Eu chamo com minha voz;
Para ferir os malfeitores
Malditos de corpo e alma,
Eu chamo com minha voz;
Para selar este conjuro
E vingar a profanação,
Eu chamo com minha voz.

EX IMPERATO AVERNO!
TEIUOREIKIS!
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segunda-feira, 1 de abril de 2019

Acorrentados

Vamos conversar sobre uma questão de mitologia comparada.
Todos certamente ouviram falar de Prometeu, o Titã Acorrentado do mito grego, preso no pico do Cáucaso com uma águia a lhe devorar o fígado, castigado pelo duplo pecado de desafiar os Deuses e de dar à Humanidade por ele criada uma condição mais elevada do que o Olimpo desejava -- todos os revolucionários românticos dos séculos XVIII e XIX eram apaixonados por ele e o retrataram nas artes e literatura da época como um avatar da Liberdade do espírito humano.
Aí encontramos no cerne do mito cristão a figura de Lúcifer, o Caído, o mais belo e sábio dos anjos, que ousou interferir nos planos do Ciumento para a Humanidade recém-nascida e lhes abriu os olhos para a realidade de sua condição, sendo então banido do Céu e acorrentado a esta Terra, junto com os humanos por ele iniciados no pensamento autônomo e livre; outros revolucionários, de índole mais antireligiosa e antinomianista, também o adotaram como seu padroeiro.
Mal refeitos da surpresa da semelhança icônica e mítica entre os dois, voltamos o olhar para o Norte, e eis que encontramos Loki, o Forjador de Mentiras, amarrado numa caverna no centro do mundo, com uma serpente gotejando veneno em sua face, cada espasmo de dor abalando os alicerces da Terra: sim, uma vez é coincidência, duas casualidade, mas três é conspiração...
Analisando o que os três tem em comum, vemos que não são Deuses propriamente ditos, mas circulavam livremente e com honra entre eles antes de sua rebeldia; que eram todos conhecidos por seu intelecto poderoso e amplo e sua língua ágil; que todos tem como atributo simbólico o Fogo/Luz (no caso de Loki, uma etimologia discutível de seu nome o associa à chama); e que seu crime fundamental foi o de questionar os Deuses e apontar os limites de seu poder e sabedoria, levantando um espelho em cuja imagem os Deuses não quiseram se reconhecer. Nos dois primeiros casos, eles manifestam um interesse caloroso pelos seres humanos e não medem esforços para despertar neles as faculdades superiores do intelecto (mas em Loki este aspecto aparentemente está ausente).
Podemos então falar num mito específico, O Deus Acorrentado?
Se procurarmos bem, outras mitologias o tem presente, reais ou mesmo fictícias (o Melkor do Silmarillion de Tolkien e o Dyaus do ciclo da Atlântida de Marion Zimmer Bradley são os primeiros que me ocorrem).
Mas, então...porque NÃO HÁ um Acorrentado nos mitos dos Celtas? Há incontáveis Deuses sábios, astutos e eloquentes, há Deuses do Fogo e da Luz a mancheias, há imagens do acorrentamento em si mesmo (Cu Chulainn ferido, amarrando a si mesmo no menir para lutar e morrer em pé) mas esses elementos não se reúnem na mesma configuração já vista.
Nisso, como em tantas outras coisas (como a aparente ausência de um Mito da Criação), os Celtas teimam em ser diferentes do resto. Mas porque isso?
Eu tenho uma hipótese, surgida ao olhar as culturas grega, cristã e nórdica de um lado e a céltica do outro, com olhos-de-Druida.
Nos três exemplos do Acorrentado, ele é aquele-que-desafia, o que se opõe à superioridade (presumida) dos Deuses e toma partido dos seres humanos contra Eles: a relação homem/Divindade é a mais assimétrica e desigual possível, e o papel do Acorrentado é ajustar o fiel da balança um pouco mais à favor da humanidade -- mas não vemos isso acontecendo nos mitos celtas, até onde os conhecemos: ali a distância ontológica e existencial entre os dois lados é menor, as relações entre eles são bem menos carregadas, e assim não se faz necessária uma figura para impor limites aos Deuses nem para defender os humanos de Sua ação.
Nossos Deuses não exigem de nós que nos prostremos em submissão abjeta a Seus pés, nem obediência cega, nem abdicação do livre-arbítrio: podem ser severos mas não cruéis, rigorosos mas não opressores, capazes de traçar limites mas não castrar as almas, e é por essa razão, além de inúmeras outras, que merecem nosso amor e devoção, em nome da liberdade que o Acorrentado tanto preza.

Sacrifício


Sacrifício animal religioso é o tema da vez, desde que uma recente decisão do STF manteve o direito das religiões de matriz africana de continuar com a prática sem impedimentos -- como não podia deixar de ser, o clamor dos opositores à decisão sobe aos céus, criaturinhas indignadas protestando contra a crueldade sancionada legalmente, agindo por puro reflexo sem parar para analisar a questão e seus prós e contras.
Sim, o Druidismo tem algo a dizer sobre essa questão, porque não podemos nos alienar de nada que é humano (e/ou animal) e porque vários aspectos dela nos afetam diretamente e devem ser trazidos à atenção para debate.

I - O Círculo da Vida
É irônico pensar que as pessoas desinformadas que protestam contra o abate ritual de animais são as mesmas que cantam "The Circle of Life" do Rei Leão - com uma lagriminha no canto do olho - sem parar pra pensar sobre o que, realmente, a canção descreve; ninguém questiona o fato explícito de que o protagonista é um predador, filho e neto de predadores, e que seus fiéis "súditos" vão se tornar, cedo ou tarde, carcaças ainda sangrando a serviço de seu apetite.
Isso é o Círculo da Vida.
E sim, ele é sagrado.
E mesmo os predadores não escapam dele, porque um dia vão morrer e o Círculo os entregará àqueles que limparão seus ossos e os devolverão à reciclagem do ecossistema.
Chocados? Enojados? Horrorizados?
Pois, essas reações aos fatos da vida são o fruto amargo e murcho dos milênios em que a civilização ocidental disse que os seres humanos são "a coroa da Criação" e isentos das leis que regem o mundo natural, mas também dos três séculos da Revolução Industrial e do afastamento do mundo natural por ela causado - já não caçamos nossa carne, nem a abatemos em nosso quintal, apenas compramos bandejas de isopor e plástico com algo que nem remotamente faz lembrar o animal que era, e assim nos cremos inocentes e de mãos limpas e decididamente não-cúmplices daquela morte.
Esse horror ao que é desavergonhada e explicitamente orgânico, essa "biofobia" como John Michael Greer a chama, é parte da reação contra o sacrifício: a ideia de que alguém possa deliberadamente derramar o sangue quente e denso de um animal e expor suas vísceras no lugar consagrado enche os desinformados profanos de um horror sem limites, porque não conseguem ver ali uma declaração explícita da sacralidade da vida ofertada e da devoção dos que a fazem - e antigos instintos desviados de seu propósito também tem parte nisso, porque a visão do sangue do abate sempre evoca a ideia "esse sangue podia ser meu", e onde antes esse pensamento levava à identificação positiva com o animal morto ("como ele me alimenta hoje, um dia eu alimentarei outros", a perfeita expressão do Círculo) hoje essa reação é reprimida como sendo uma ameaça à (ilusória) excepcionalidade e superioridade humanas.
Mas, para além da biofobia, outros fatores se levantam contra o sacrifício.

II - Inquisição
Sempre é bom lembrar, e eu o faço aqui, que a ação julgada no STF começou da parte de deputados da dita "bancada evangélica" abrindo processo contra casas de culto afrobrasileiras pela alegada "crueldade" contra os animais abatidos: não foi uma ação piedosa, movida apenas por idealismo e preocupação genuína com o bem-estar animal, mas tinha intenções mais insidiosas.
Lembrem-se, os evangélicos vivem sob o dogma de que os outros animais não tem almas, só os humanos, e a interpretação distorcida que eles fazem de Gênesis 1:28 os leva a crer que os humanos são "donos" do mundo e de tudo e todos que há nele, e não há aí lugar para interpretações menos literais e mais gentis.
O interesse deles na questão não passa nem de longe pela preocupação com o bem-estar animal, mas sim pela denúncia e condenação das religiões afro como sendo desumanas, cruéis e demoníacas, e portanto merecedoras de perseguição até a extinção total - e toda vez que um ativista, evangélico ou não, assume o discurso discriminatório de que as religiões que praticam o sacrifício são "primitivas, não-evoluídas, atrasadas" (que meia hora de leitura de tratados de antropologia e religião comparada provariam estar totalmente errado) os Inquisidores ganham mais um aliado inconsciente e regozijam com a conquista.

III - Quem Ganha com Isso?
Como acabamos de ver, o clamor contra o sacrifício, agregando veganos, ativistas animais e outros movimentos humanitários, está sendo usado como massa de manobra pela bancada evangélica, para seus planos dominionistas e supremacistas, e esse povo não se deu conta que seu discurso contra a opressão animal está sendo usado como munição para legitimar a opressão aos cultos afro.
Mas até agora só vimos os argumentos contrários, e o que há por trás deles: e os argumentos a favor? O que realmente acontece num sacrifício, e quem ganha com isso?
Nas religiões antigas, em várias religiões modernas, e nas raízes hebraicas da cristandade, o sacrifício era a prática central da devoção às Divindades: na prática, era uma refeição comunitária, uma comunhão, entre as Divindades e os devotos, onde o animal sacrificado era ritualmente abatido e repartido entre a porção no altar, para oferenda divina, e a porção a ser consumida pelo povo. Os animais a ser sacrificados tinham de ser saudáveis, muito bem tratados, e honrados como partes essenciais do culto que eram, e o treinamento sacerdotal incluía a ciência e arte de como abater o animal de modo rápido, preciso, sem dor e sem medo (e qualquer evidência de falha em qualquer desses quesitos tornava o procedimento inválido para fins de culto).
No caso dos praticantes das religiões afro (para não mencionar os especialistas judeus e islãmicos no abate ritual kosher/halal) as mesmas obrigações e especificidades de treinamento se aplicam, a mesma ética da morte digna está presente.
Não se abatem cães, gatos ou outros animais não- comestíveis, as aberrações que os ativistas escancaram como exemplos do que eles supôem que acontece no culto regular não procedem e são obra de sádicos fora de qualquer contexto religioso legítimo, então o seu pet não está na mira dos cultos afro e nunca estará.
Se essa ética, essa dignidade de prática e trato animal, fosse a regra nos abatedouros leigos (onde o Inferno se manifesta na Terra), esta civilização seria muito mais saudável de corpo e alma, mas enquanto tratarmos os animais como blocos de carne descartável, a carne que formarmos em nossos corpos a partir do que comemos será igualmente objetificada e descartável, como tudo o mais na civilização ocidental moderna; se os veganos centrassem seu ativismo no combate às práticas abjetas da indústria da carne (que é a verdadeira inimiga da santidade do Círculo da Vida) ao invés de reforçar o preconceito religioso e a agenda dominionista, aí sim as coisas poderiam mudar para melhor.
No Druidismo moderno não fazemos sacrifícios animais (exceto, talvez, quem tenha criação de animais em sua fazenda, já pratique o abate para consumo alimentar, e queira introduzir uma dimensão devocional/cúltica ao que já faz regularmente, nesse contexto seria adequado) mas reconhecemos o pleno direito dos nossos irmãos de matriz africana de fazê-los sem obstáculos ou prejuízos, sabendo bem que a liberdade religiosa de uns favorece a todos e que a ignorância e o preconceito estão aí para serem combatidos sem trégua.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Excelsior


E hoje ele partiu para as terras dos Ancestrais no Outro-Mundo.
E hoje muitos são os que choram sua morte, e relembram seu legado.
Já disse antes, o Druidismo é possivelmente a única religião que inclui as Artes no centro da instituição sacerdotal, é no caminho do Bardo que a formação do Druida tem seu início, porque é pela Arte que idéias e ensinamentos são passados de uma geração à outra, e é por isso que acho que Stan Lee merece ser contado entre os Bardos desta era.
E o que o mestre da Casa das Idéias (o apelido da Marvel Comics) ensinou?
Antes dele, todos os heróis da literatura popular tinham raízes no Pimpinela Escarlate da baronesa Orczy – um espadachim aventureiro e anti-revolucionário que se escondia sob a aparência frívola e inofensiva de sir Percy, um nobre inglês ostensivamente ridículo que ninguém, nem mesmo sua esposa, suspeitaria capaz de heroísmos e coisas que tais; claro, vocês reconhecem a fórmula, sujeito tímido X herói destemido, esta é a origem do Zorro, do Sombra, do Superman e do Batman, e este era o padrão até Stan e seus mosqueteiros Jack Kirby e Steve Ditko subverterem o tema.
O Homem-Aranha também, à primeira vista, contrapõe o nerd tímido Peter Parker a seu alter-ego lançador de teias, mas aí, pela primeira vez, a balança pende para o lado humano: onde o Superman é o indivíduo “real” e inventa Clark Kent como um disfarce para andar no mundo humano, Peter é inescapavelmente humano e sujeito a todo tipo de vicissitude (em uma fase clássica, ele alternava combates contra supervilões com doses de antiácidos para uma úlcera gástica de stress!) e ser o Homem-Aranha era mais uma fonte de problemas e dificuldades em sua vida já complicada, e era apenas por pura responsabilidade que ele mantinha sua missão heróica.
A Marvel criou uma legião de fãs conquistados por esses heróis de face humana, quase todos eles desajustados sociais que acabavam encontrando suas famílias verdadeiras uns com os outros, como o Quarteto Fantástico ou os Vingadores, e chegando ao auge com a apologia da diferença manifesta nos X-Men em sua luta por aceitação e respeito.
Heróis de todos os gêneros, raças e nacionalidades, de todas as linhas políticas e orientações sexuais, de todas as faixas etárias, gente-como-a-gente, feitos à imagem e semelhança da Humanidade em cujo nome lutavam, e que, ao se reconhecer neles, podia despertar para seu próprio e insuspeitado heroísmo.
Esse é o legado que Stan deixou.
Esse é o legado expresso no seu lema, “Excelsior”, Latim para a expressão “mais acima”.
Heróis humanos, e que não se alienam de sua humanidade nem usam seus poderes para dela fugir, e que exortam essa mesma humanidade a seguir pelo caminho que eles abriram, porque, como o Surfista Prateado, talvez a criação favorita de Stan e porta-voz de muitas de suas idéias, é esse potencial oculto que eles vêem quando olham para nós.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Zeitgeist


Ah, esta postagem tem a ver com as eleições do Brasil?
Sim.
Não.
Talvez.
Um velho lema do ativismo ambiental dos anos 60/70 dizia “pensar globalmente, agir localmente” – perceber que os fenômenos locais tem causas em níveis acima da manifestação mais imediata, e só podem ser entendidos como fazendo parte de um contexto mais amplo, é um axioma básico da teoria dos sistemas, e é um insight que todos os pagãos, e o Druidismo em particular, deviam sempre ter em mente.
Desviando os olhos da Terra Papagallis, vemos as mesmas tendências de radicalização e polarização ideológica, a mesma ascensão das forças autoritárias, a mesma incapacidade dos bem-pensantes de deixar de lado diferenças irrelevantes e se unir em prol do bem mais amplo em plena manifestação pelo mundo afora (não, não vou dar nomes nem exemplos), e o panorama enche a muitos de um desânimo impotente, uma perplexidade angustiada que exclama “onde foi que erramos?” – se a tendência é global como parece, se é simultânea a ponto de parecer fazer parte intrínseca do zeitgeist, se então não podemos atribuir a culpa ao partido-feio-bobo-carademamão de nossa escolha, então o que vamos fazer?
Quando olhamos com olhos-de-Druida o panorama da cultura de massas dos últimos anos, o que vemos? Space operas que retratam o confronto governo totalitário X rebelião popular, fantasias clássicas ou modernas onde as forças do obscurantismo se erguem para ser enfrentadas pelos guardiões da esperança e da liberdade, ficções distópicas onde a tecnocracia absolutista treme diante da revolta iminente dos oprimidos...toda uma geração cresceu assistindo esses filmes e/ou lendo esses livros, e agora que estão chegando à maioridade e prestes a receber seus direitos políticos, entre eles o de eleger quem represente seus interesses e sonhos, este é o cenário que se apresenta diante deles.
Pensando assim, parece óbvio que eles vão saber escolher direito, que vão dar ao Bem a vitória sobre o Mal – mas será mesmo?
Nunca é demais lembrar o quanto o Outro Lado é sedutor, o quanto ele apela para as emoções, o quanto bajula seus admiradores, o quanto o vulto de luz esconde o mais profundo e fétido abismo dentro de si – temos o relato das Testemunhas, de todas as épocas e culturas, nos advertindo que as coisas não são o que parecem à primeira vista, que as aparências enganam, e que só juntos podemos enfrentar a ameaça que nos esmagaria separados, um a um.
Não devemos ficar olhando a democracia morrer com um estrondoso aplauso.
Não devemos aceitar passivamente o fim da era de tudo que é humano.
Não devemos contemplar Você-Sabe-Quem (seja-lá-quem-for) ascender sem lhe oferecer a mais irredutível oposição.
Há 300 anos atrás, os Druidas ressurgiram num mundo que os havia esquecido, para fazer guerra contra os conflitos religiosos, o materialismo burocrático, e a ameaça ambiental das novas tecnologias, e a batalha agora chega a uma escala global sem precedentes; como Merlin contra os magos de Vortigern, Taliesin contra os bardos de Maelgwyn, como Mog Ruith contra os druidas de Cormac, nossa habilidade, nosso poder e nossa coragem serão postos à prova, e apenas a Inspiração pode mover a balança para nosso lado – não lutamos apenas por nós, mas também para ensinar por palavras & exemplos às novas gerações, que estão se preparando para a batalha para a qual nasceram, e que precisam apenas lembrar de quem são e o que está em jogo.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Pensamento Errado


As redes estão em fúria pelo caso da palestra da coach que disse um-absurdo-após-o-outro (não vou repetir aqui pra não poluir meu blog limpinho, quem quiser (e tiver estômago) que olhe este link); sim, é fato que na internet há mais comentários infames como esse que folhas de grama verde na Irlanda, mas então porque esse em particular está atraindo tanto a atenção - sobretudo quando outras fontes dizem coisas virtualmente idênticas e conseguem aplausos de admiradores?
Sei que o que vou dizer vai deixar minha idade à mostra, mas havia um tempo no esoterismo ocidental moderno em que apareceu uma tendência chamada de Novo Pensamento, que resumidamente dizia que nós criamos nossa realidade com nossos pensamentos e crenças, e que mudando estes aquela é também mudada...isso parece familiar? Pois é, o pessoal d'O Segredo pode ser tudo menos original - como disse a modista da rainha Maria Antonieta, ao reformar um chapéu antigo, "só é novo o que estava esquecido".
Foi a partir daí, com acréscimos posteriores de interpretações distorcidas da doutrina do karma, que a vertente solipsista se estabeleceu no pensamento esotérico, tendo tido um renascimento em escala mundial com a Nova Era dos anos 80 e seu lema repetido ad nauseam como se fosse um mantra, "sua mente cria sua realidade". Daí para, como um vírus, infectar escolas psicoterapêuticas, doutrinas administrativas e escritórios de marketing, e criar todo o sub-ramo literário da "auto-ajuda", e então chegar ao fundo do poço com o surgimento do coaching, foi um passo (em falso) após o outro.
Bom, dirão alguns, o que essa arqueologia do pensamento (ou da sua falta) está fazendo aqui no Bosque?
Humani nil a me alienum puto, como já se dizia há 23 séculos atrás, e o Druidismo se importa com a humanidade como sendo parte integrante e essencial da Natureza, sua cosmovisão sistêmica não lhe permite separar os humanos do mundo onde habitam, e nem mesmo separar cada indivíduo humano da Tribo da qual faz parte - e esse é o coração putrefato dessas doutrinas nefastas, o pressuposto de que o indivíduo é rei em seu castelo e não precisa de ninguém nem de nada além de si mesmo e do incrível-poder-adormecido-dentro-dele; qualquer sugestão de que mudanças deveriam ser feitas na sociedade, na família, no trabalho, no ecossistema, são rejeitadas como desnecessárias, coisas para os fracos de alma que não sabem o segredo de sair de um pântano suspendendo a si mesmos pela própria trança ( mas podem aprender a fazer isso, e muito mais, assistindo infindáveis palestras de motivação, cursos esotéricos, e workshops a preços de 3 ou 4 dígitos...).
Olhando nas lendas, o povo das Tuatha Dé Danann foi escravizado pelo rei Bres, meio-Fomoriano que era, e não foi com meditação e visualização que eles se livraram do jugo, mas com atos públicos e coletivos, como o compartilhar da sátira corrosiva do bardo Cairpre em represália pelo tratamento insultuoso sofrido na corte do rei, que despertou a revolta que culminaria na batalha de Magh Tuiread; em outro lugar & época, quando as bruxas da Itália sofriam a dupla opressão da nobreza e do clero, Aradia não lhes disse "mudem suas crenças e a sua vida mudará" nem "tenham fé e eu as libertarei", mas sim "amaldiçoem, envenenem e destruam os que as oprimem, eu lhes ensinarei como": a responsabilidade individual, exercida coletivamente e de modo prático e ativo no mundo, e sem medo de sujar as mãos no processo.
Porque é disso que se trata, não?
É tããão conveniente sentar por 5 ou 10 minutos e mentalizar "minha mente manifesta a abundância em minha vida" ao invés de questionar as condições que levam as pessoas à carência, é tããão mais seguro do que dar a cara pra bater, seja literalmente num protesto público ou simbolicamente numa rede social sujeita a críticas razoáveis ou não, e é tããão mais arrogante não notar aquele pensamentozinho sujo que corre logo abaixo do limiar da consciência, "esses pobres-diabos só fazem reclamar, porque não mudam sua crenças? Eles merecem o que lhes ocorrer"
E com esse pensamento vil, eles jogam sob as rodas do ônibus os pobres, os doentes, toda mulher estuprada, os mortos de Hiroshima, as vítimas do Holocausto, os que morreram na fome da Irlanda com a boca verde da grama que comeram para tentar enganar o estômago vazio, os hereges torturados e mortos pela Inquisição, as bruxas queimadas, os povos indígenas dizimados, toda essa gente, todos eles culpados de não ter criado suas realidades direito!
Então, embora no início minha primeira reação ao assistir o famigerado vídeo fosse sonhar com a criatura sendo flagelada com arame farpado em brasa até perder a voz de tanto gritar, olhando melhor...ela não fez mais do que levar essa doutrina malsã até as últimas consequências e expor, urbi et orbi, o erro dessa linha de pensamento e os perigos morais e espirituais a que as pessoas se arriscam ao seguir esse culto blasfemo; então, mesmo sendo uma pobre-diaba desinformada, odiosa e desprezível, ela prestou um grande serviço, que espero tenha como resultado abrir os olhos das pessoas e, quem sabe, sepultar de vez o Novo Pensamento e sua ninhada maldita.