(SPOILERS ABAIXO, EU AVISEI)
Por onde começar?
A Odisséia do Nolan NÃO é NADA do que os trailers, entrevistas, comentários de redes sociais e críticas deram a entender, eu fui assistir sem expectativas e o que vi me surpreendeu, e muito.
Concordo com a crítica quanto a falta de cores no filme (exceto pela Penélope), discordo veementemente das queixas quando ao elenco inclusivo (todo mundo está perfeito em seus papéis, os diálogos são maravilhosos).
Mas a minha queixa pessoal é outra.
Sou só eu que me cansei dessas versões desmitologizadas de lendas como os mitos gregos ou as narrativas arturianas? Ninguém mais odiou a Tróia do Brad Pitt totalmente expurgada de Deuses e oráculos?
Aqui as Divindades são mencionadas todo o tempo, tudo o que acontece é entendido como sendo do desígnio divino, mas há um certo pudor em mostrá-Las como personagens encarnados (Atena é a única que é retratada, e parcimoniosamente demais para o meu gosto, e para cúmulo de tudo nesse filme Mentor NÃO é o avatar Dela) -- o que os diretores/produtores modernos não entendem é que na antiguidade da Grécia as pessoas não "acreditavam" nas Divindades, assim como nós não "acreditamos" nas árvores e nuvens, em ambos os casos as coisas são fatos consumados da existência com os quais temos de lidar, e com os quais às vezes brigamos e tentamos negar, e sofremos as consequências dessa teimosia humanocêntrica.
Onde o filme falha com os Deuses, ele compensa generosamente com os Ancestrais: na cena em que Odisseu, instruído por Circe, faz a oferenda necromântica de sangue aos mortos para evocar o espectro do vidente Tirésias e perguntar sobre seu destino, vemos retratada com perfeição terrível a visão dos Gregos antigos sobre a desolação do pós- morte no Hades e a inexorabilidade do destino humano, em especial o daqueles que incorrem no desfavor dos Deuses.
(a propósito, Circe está simplesmente perfeita, menos a majestosa sacerdotisa-filha-de-Hélios e mais a rústica bruxa-da-floresta, o tipo que se sentiria em casa no The VVitch)
E quanto aos Espíritos da Natureza, a ninfa Calipso aqui está no papel clássico de tentadora e aprisionadora do original homérico, mas o detalhe de ter seu mito fundido com o dos comedores-de-lótus e de ser mostrada no processo quase-terapêutico de conduzir Odisseu entre esquecimento e memória até a cura e a liberdade é uma inovação absolutamente brilhante onde uma Charlize Theron desglamurizada brilha pela interpretação e interação com o Odisseu quebrado que ela tenta restaurar.
A pergunta do filme é "qual o caminho?", seja para Odisseu em busca de Ítaca, seja Penélope procurando meios de enganar os pretendentes, seja Telêmaco tentando achar provas da morte ou vida de seu pai e crescendo no processo (e é aí que a falta de Atena-como-Mentor pesa mais e enfraquece o arco dele, que no original é quase a proto-versão de um Bildungsroman).
Não tem Deuses, mas tem mitologia pra todos os gostos: Polifemo, Cila e Caribdis parecem diretamente saídos do livro que li aos 10 anos, as Sereias viraram uma abstração simbólica do desejo e da falta quase psicanalítica em sua concepção, as feras da ilha de Circe são simultaneamente bonitinhas e terríveis porque deixam transparecer o que resta de humano nelas, e a tempestade final de Poseidon que dizima a tripulação do barco é simplesmente aterradora.
Mas o que eu mais gostei desta versão, certamente inspirado pela Awen, é o clima quase-apocalíptico que perpassa a narrativa como pano-de-fundo, um ar de Fim-dos-Dias centrado na ameaça historicamente real da vinda dos Povos do Mar, um grupo heterogêneo e ainda não-plenamente identificado de povos cujas imensas frotas trouxeram às civilizações do Mediterrâneo guerra e caos, culminando com o fim da Era do Bronze: no final, Penélope pergunta a Odisseu "porque eles irão cantar nossa história?" e ele responde "para lembrar de um tempo em que ainda havia quem pudesse escrevê-la" -- a expectativa do fim de um mundo, e a esperança de um mundo novo a sucedê-lo; e não é no Fim-dos-Dias que estamos vivendo agora, onde uma nação após a outra sucumbe ao caos, a cultura luta para não submergir no algoritmo, e o próprio clima se volta contra nós?
Odisseu se pergunta, em seu diálogo com Penélope, se foi a violência perpetrada contra Tróia e seu povo, a violação da lei sagrada da hospitalidade, que deu origem aos Povos do Mar, se eles não são senão sintomas da doença que acometeu a civilização micênica e teve sua expressão máxima na Guerra de Tróia, e talvez tenhamos que nos perguntar o mesmo sobre a sombra despontando no horizonte.
E talvez, quem sabe, podíamos começar restabelecendo um relacionamento correto com os Deuses e não-Deuses, não?
(VÃO VER!)