sexta-feira, 16 de maio de 2014

Os Outros

Uma notícia recente, sobre uma decisão judicial que contém a declaração polêmica de que apenas as religiões baseadas num livro sagrado (como a Torá hebraica, o Evangelho cristão ou o Corão islãmico) são religiões legítimas, está causando uma compreensível revolta entre os seguidores das religiões afro-brasileiras, dos cultos indígenas nativos, e dos pagãos em geral, seguidores do Druidismo aí incluídos -- a decisão, embora seja tão inconstitucional que seja passível de ser contestada e derrubada com facilidade, aponta para um recrudescimento do conflito inter-religioso, fomentado específicamente por denominações radicais evangélicas que querem primeiro a supremacia, e depois a exclusividade, sobre todas as outras fés, que para elas são de origem demoníaca e portanto devem ser combatidas e exterminadas a todo custo.
Mas antes de prosseguir, gostaria de contar uma história, criada há décadas atrás por Oberon Zell, e aqui narrada com minhas palavras...
No primeiro capítulo do Gênesis, vemos Deus criando o ser humano, macho e fêmea, e no segundo vemos Deus criando o homem do barro e o pondo no Jardim do Éden, plantado por Deus para ele -- vários teólogos cristãos já fizeram a distinção entre o que, na verdade, são dois relatos da criação do homem, o "eloísta" (Gen 1) e o "javísta" (Gen 2), sendo o primeiro a ação de Elohim e o segundo de Yahveh.
Começa que Elohim é um nome misto, uma raiz feminina (Eloha, "deusa"?) e o plural masculino "im", o que sugere um coletivo de Deuses de ambos os gêneros (para mim, na tradição Celta, isso de "Deusa-e-Deuses" evoca as Tuatha Dé Danann, as tribos (divinas) da Deusa Danu), e sugere uma criação inicial onde as Divindades criam o mundo, os seres vivos, e o homem, de comum acordo, talvez cada uma responsável por um território específico...e então, no 2° capítulo, o foco da narrativa vai para Yahveh, uma das Divindades, e sua criação particular de Adão e Eva no Éden, que todos sabemos que não correu como o planejado por obra & graça da Serpente (que fez exatamente como Prometeu no mito grego, enfrentando os desígnios Divinos para abrir os olhos da humanidade: porque ele é considerado um herói e benfeitor da Humanidade e ela é vilipendiada ainda hoje, é um mistério...)
Depois disso temos a história de Caim e Abel, onde o primeiro mata o segundo e foge para longe, onde se casa e gera descendência -- pois então, com quem ele poderia ter se casado, se não com uma mulher dos Outros, daqueles humanos feitos pelos incontáveis Elohim e fora da jurisdição de Yahveh? Set, o terceiro filho de Adão e Eva, e as centenas de irmãos e irmãs que teve, também foram encontrar parceiros entre os Outros, já que o tabu do incesto fazia parte da linha adãmica desde o início...
E então veio o Dilúvio, e só a linhagem adãmica de Set, via Noé, sobreviveu na Arca...só que a Bíblia esqueceu, ou não quis contar, que pelo mundo afora Outros estavam sendo orientados por seus respectivos Elohim a fazerem suas próprias Arcas e nelas salvarem a si e seus animais, de modo que, entre mortos e feridos, salvaram-se todos.
Fim da história.
Qual é a moral, qual o ensinamento, que essa história quer transmitir?
Apenas isso:
Nós, Pagãos do passado, presente e futuro, não temos nada a ver com vocês, Adãmicos.
Nossos Deuses e Deusas são os Elohim citados no início da sua Bíblia, o seu Yahveh era apenas um dentre eles, não o único e nem ao menos o maior deles.
Os Deuses nos criaram pelas leis da mesma Natureza por eles feita, nós não fomos moldados como artefatos ou brinquedos por um deus caprichoso e ciumento.
Nós somos os Outros.
Nossos Ancestrais, guiados pelos Deuses, sobreviveram ao Dilúvio lado a lado com o seu Noé, igualmente merecedores da vida.
Nós não herdamos de nossos Ancestrais nenhum pecado original, nenhum fruto proibido queima em nossos ventres, nenhuma marca de Caim arde em nossas frontes.
Nós somos os Outros.
Não sofremos a Queda que vocês dizem ter sofrido, não precisamos de profetas a nos guiar, escrituras sagradas às quais seguir, messias para nos salvar, sacramentos para nos redimir.
Nós somos os Outros.
Nossos Deuses, os Elohim que criaram céus e terras, falam conosco, em nossos corações e mentes, e essa é toda a orientação de que precisamos.
Somos livres para ler e escrever o que quisermos, criar fantasias ou desenvolver ciências, pois os Deuses não são ciumentos como o seu Yahveh, não exigem devoção exclusiva sob pena de condenação eterna.
Nem estamos destinados ao Céu, nem condenados ao Inferno -- nossos Deuses têm outros planos em mente para nós, e nesses planos não há espaço para o choro e o ranger de dentes que vocês, Adãmicos, tanto temem.
Nós somos os Outros.
Nosso caminho não é o seu, suas leis e crenças não se aplicam a nós, todo o proselitismo que tem regido sua interação conosco é inútil, indesejável e, a partir de agora, veementemente rejeitado.
Nós somos os Outros.
Porque os Elohim eram um todo harmônico desde o início, entre as tribos dos Outros nunca uma blasfemou contra os Deuses da outra -- não até Yahveh, sob cujo jugo vocês vivem, voltar as costas aos Elohim e declarar guerra a Eles e aos que os seguem, em seu ciúme e ambição de ser o Único.
Nós somos os Outros.
Àqueles de vocês que se cansarem do jugo e da violência de tantos milênios, nós estendemos a mão para que andem lado a lado conosco, árvores diferentes num Jardim bem mais amplo e diverso que o do Éden.
Aos que ainda sonham em fazer a vontade de seu ciumento senhor, e estabelecer seu reino ainda que às custas de tudo que é sagrado aos Elohim, nós advertimos: o tempo da tolerância ao mal já passou.
Nós viemos para ficar.
Nós somos os Outros.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Wesak

Nesta noite (14/05) ergue-se no céu a Lua Cheia de Maio, festejada pelos esotéricos no Festival de Wesak.
(O que isso tem a ver com o Druidismo? Tenham paciência e verão...)
O que era uma festividade exclusiva dos Budistas, a celebração da Iluminação do Buda Gautama, foi, por assim dizer, "sequestrada" pela Sociedade Teosófica no começo do século XX, e passou a ser o dia máximo da Grande Fraternidade Branca, onde os Mestres Ascensionados desciam próximo ao mundo material para derramar suas bênçãos e ensinamentos, às vezes tornando-se visíveis aos discípulos e peregrinos reunidos no vale secreto onde a celebraçäo ocorre -- sim, parece algo saído do clássico "Horizonte Perdido" e sua lendária Shangri-lá, mas é com detalhes ainda mais luxuriantes que Leadbeater descreve a cena em "Os Mestres e a Senda", então tentem não estranhar muito...
Essa idéia do contato com os Mestres e sábios que já partiram para o Outro Mundo é virtualmente universal -- ocorrendo mesmo em contextos monoteístas: a literatura Cabalística é pródiga em discussões entre Rabinos já desencarnados e seus discípulos terrenos, por exemplo -- e nunca é demais lembrar que o texto do Táin Bó Cuailnge, a Ilíada irlandesa, havia se perdido deste mundo até ser restaurado a nós pela aparição espectral de Fergus mac Roich, um de seus protagonistas, que narra o texto completo da epopéia ao jovem Bardo que sem querer o evocou em seu túmulo, e que anotou o relato para nossa felicidade.
Mas, diferentemente dos Teosofistas, cuja visão dos Mestres chegava às raias da idolatria e fomentava a passividade mais abjeta (e que foi severamente denunciada por Krishnamurti em seu discurso de rompimento com a Sociedade), o que eu vejo no caso da visão de Fergus e nos debates rabínicos transdimensionais é uma relação mais igualitária e afetuosa, a visão que o Druidismo tem dos Ancestrais do Espírito, os que nos passaram a Tradição quando foi a nossa vez de zelar por ela, e que nunca deixaram de estar por perto para aconselhar e trazer um lampejo de Inspiração.
E além disso -- aqui é uma especulação minha -- a própria ocasião parece druidicamente auspiciosa, com o Sol em Touro oposto à Lua Cheia: Plutarco nos diz que as "eras" druídicas duravam mais ou menos 30 anos, contando o tempo que Saturno levava para entrar no primeiro grau de Touro, dar a volta no Zodíaco e retornar ao ponto de partida, e o Caldeirão de Gundestrup mostra a constelação de Touro, completa com suas vizinhas Órion, Cão Maior e Lebre, e repete essa configuração 3 vezes para marcar a sua importância...
Assim sendo, pelos motivos acima expostos, eu tomo posse do Wesak em nome dos Druidas modernos, no espírito dos Druidas antigos, e o resignifico para ser o Festival dos Sábios, uma clareira aberta no círculo do tempo, uma noite mágica onde os Antigos nos falam em meditação, visão ou sonho, e da qual, quem sabe, acordemos amanhã um pouquinho mais sábios.
Que a luz da Lua lhes ilumine a noite!

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quarta-feira, 30 de abril de 2014

Portas X Muros


Amanhã a comunidade druídica do hemisfério Sul (excetuando os que seguem o calendário da Roda do Norte) comemora o festival céltico do Samhain, o fim/começo do ano, o dia de reverenciar os Ancestrais, a noite em que os mortos e os ainda por nascer visitam suas famílias terrenas -- e que deu origem à festa completamente secular do Halloween, mas isto é outra história...
Já virou um clichê pagão dizer que nesta data, e nos dias antes e depois dela, o véu entre os mundos fica mais fino, e mesmo os menos sensitivos percebem que algo fora do comum acontece, um cheiro do sobrenatural invade o cotidiano, e só dias depois a normalidade mundana é restaurada...mas vamos olhar com mais cuidado esta noção do "véu" e o que ela pressupõe das relações entre o Outro Mundo e o nosso.
Começo por uma pergunta simples: qual é a distãncia entre este mundo e o Outro?
Já aviso que a tradição não ajuda -- se de um lado a história de Donn, filho de Mil, sugere uma rota por mar, com paradas específicas, outros mitos falam de transições instantãneas e muitas vezes involuntárias, geralmente envolvendo lugares/tempos ditos liminares como o crepúsculo, a orla do mar, o espaço entre duas árvores ou pedras megalíticas, algo tão fácil como ir de um cômodo da casa a outro passando pela porta entre eles.
Um conceito fundamental nas culturas Indo-Européias é o da Ordem universal, que sustenta a Criação e é sustentada pelos ritos e ações humanas; uma manifestação dessa Ordem aparece no mito de Rõmulo e Remo fundando a cidade de Roma -- Rõmulo traça os limites da futura cidade com um arado de boi, e ao chegar ao local designado para os portões ele levanta a lâmina do arado, pousando-a mais à frente; Remo, para zombar dele, cruza a fronteira pela linha do arado, não pelo portão, e Rômulo o mata ali mesmo pela transgressão da ordem humana, reflexo da Ordem universal.
Muros e barreiras tem a função de delimitar e separar, não podem ser cruzados diretamente sem serem destruídos, mas é para isso que existem as portas -- ao invés de postular um "véu" ou membrana entre os mundos, a ser rasgado sem cerimônia todos os anos, uma expressão da Ordem violada pelo Caos, não parece muito mais razoável imaginar um ou mais portais ligando os mundos, conhecidos apenas pelos Sábios, e abertos ao viajante?
Foi por isso que os fundadores da Ár nDraíocht Féin, a ADF, incluíram como parte da sua cosmologia e liturgia o conceito do Portal entre o Outro Mundo e o nosso, guardado/controlado por uma Divindade do tipo Psicopompo, e que nos ritos é deliberadamente evocado e aberto pela ação conjunta dos ritualistas e da Divindade para permitir a livre troca de bênçãos entre os Deuses, Ancestrais e Espíritos da Natureza e os participantes humanos do rito, e que no encerramento é expressamente fechado pelo Psicopompo até a próxima vez.
Voltando à pergunta anterior -- qual é a distância entre este mundo e o Outro? -- a noção do Portal torna sua resposta irrelevante: tanto faz se a jornada entre ambos é de 3 dias, 3 meses ou 3 anos, ou se são tão próximos como a cara e a coroa da mesma moeda, a distância se dissolve pela magia do Portal e seu Guardião, e os Ancestrais nos visitam no festival sempre renovado, partilhando do banquete, da música e do fogo da hospitalidade a eles devida.
Eles estão batendo na porta, é falta de educação deixá-los esperando, faça-os entrar!

quarta-feira, 23 de abril de 2014

A Restauração de Ascalon

Neste dia recém-acabado, discussões de todo tipo ocorrerm na internet sobre a propriedade, ou não, de se louvar São Jorge, o matador de dragões, um santo que deu origem a um culto popular tão poderoso que até os Islãmicos, monoteístas exclusivos, participam dele; há algo naquela imagem arquetípica do guerreiro a cavalo enfrentando o dragão que toca algum lugar oculto da alma, e no entanto muitas pessoas na comunidade pagã denunciam veementemente qualquer referência ao ex-soldado da Capadócia como propaganda cristã de opressão ao paganismo, que eles vêem retratado no dragão ferido e subjugado pelo santo -- sim, já vimos essa discussão no dia de Pádraig, mas agora acho que terei de me estender mais sobre o assunto e usar outra abordagem, a fim de tentar sanar o que vejo como um mal-entendido de séculos e que, enquanto não for abordado frente a frente, barrará o crescimento e amadurecimento do Paganismo moderno.
Como disse antes, a imagem de Jorge no cavalo enfrentando o dragão tem um apelo universal -- todas as culturas Indo-Européias (e não só elas) tem uma imagem de herói X monstro, Perseu contra Cetus, Hércules contra a Hidra, Sigurd contra Fafnir, e os Celtas tem as lendas de monstros habitando lagos e mares, mas mais frequentemente é outra besta, como o javali, que assume o papel de adversário arquetípico: já aí saímos do dualismo cristão de Divino X diabólico, mas então a que se refere esse antagonismo?
No caso Celta, essa oposição reflete uma outra, miticamente mais antiga, que é aquela entre os Tuatha Dé Danann, os deuses, e os Fomorianos, entidades primordiais que habitam a Irlanda desde o princípio; alguns textos os descrevem como tendo um só olho, uma só mão, um só pé, o que na minha imaginação lhes dá uma forma longilínea e algo serpentina. Eles não são malignos, ideologicamente falando, não são a versão irlandesa das hostes do Inferno, mas são intrinsecamente perigosos como um lobo faminto, um terremoto ou uma tempestade o são -- eles são as forças brutas da Natureza, contra as quais se levanta o trabalho da Tribo/Cultura, cujas artes e ofícios são prerrogativa dos Deuses; na batalha final, os Fomorianos são derrotados mas não exterminados, acabando por revelar, a contragosto, os segredos do plantio, cultivo e colheita, as únicas artes desconhecidas pelos Tuatha Dé Danann -- a partir daí, surge um ciclo definido ao longo do ano agrícola, opondo verão e inverno, cultivo e repouso, luz e escuridão, cada qual marcando ora o domínio de uma facção, ora a outra: o monstro derrotado pelo herói sempre volta no ano seguinte, não há verão sem que o inverno o siga, e essa verdade implícita nos mitos pagãos, derivada da natureza cíclica da sua visão do tempo, acaba se perdendo no tempo linear e unidirecional dos monoteístas, e então o santo mata o dragão de uma vez para sempre, sem volta, sem o entendimento de que ele é parte essencial da ordem das coisas, por mais inconveniente e até nocivo que seja.
E eis o ponto: agora que sabemos a natureza do dragão, e vemos o quão maior ela é do que uma mera alegoria caluniosa dos pagãos ignorantes que devem dar lugar aos cristãos triunfantes, porque ainda damos ouvidos à versão cristã do mito, mesmo enquanto o rejeitamos e contra ele protestamos?
O que eu chamo olhos-de-druida, o outro modo de ver as coisas, é metade embasamento histórico baseado nos fatos e metade criatividade sustentada pela Inspiração -- o que proponho, meu desafio aos que lêem isto, é o de subverter o discurso cristão da lenda de São Jorge, desidentificando seus protagonistas dos "partidos" em disputa, devolvendo o mito desideologizado ao tempo cíclico, e honrando a Serpente do Inverno Escuro lado a lado com o Cavaleiro da Luz do Verão, iguais ainda que opostos, aprendendo a vê-los sob cada roupagem mítica que os oculte.
Subversivo, talvez...tenho certeza que os cristãos e pagãos lendo isso estão igualmente horrorizados com a minha proposta (que nega a ambos os lados o vitimismo persecutório das Catacumbas e do Tempo das Fogueiras, o que já seria um grande progresso em ambas as facçôes) -- mas eu não vejo, para o Druida moderno vivendo numa civilização insana e autodestrutiva como a nossa, outro destino que não seja a subversão cultural, e é a esse destino que os convido, sob o signo de Jorge e Ascalon, reconciliados ainda que para sempre opostos.

(sim, esse é o nome esquecido do dragão nas lendas medievais...)

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Noé



Acabei de assistir a recém-estreada versão da história de Noé, e muito embora esse não seja em absoluto um mito dos Celtas (embora os monges da Irlanda tenham tentado a todo custo criar uma conexão celta, declarando que o primeiro povo a chegar lá foi a tribo de Cessair, neta de Noé, pouco depois do dilúvio) a abordagem do diretor Darren Aronofsky (que também nos deu o belíssimo Fonte da Vida) entrelaçou no mito original temas tão relevantes ao nosso tempo que merecem comentário.
Para começar, o filme deixa completamente de lado o tom beato com que temas bíblicos costumam ser tratados -- a atmosfera é desavergonhadamente mítica, com direito a céus onde as estrelas brilham durante o dia, animais fantásticos que fazem parte da fauna local, um Matusalém, avô de Noé, que mais parece um Merlin antediluviano com seus chás visionários e bênçãos de fertilidade, e a revelação de que os humanos partilham seu jovem mundo (lembrem, aquela é a décima geração depois de Adão) com os gigantescos Guardiões, uma fusão do mito dos Nefilim do Gênesis com os Grigori do livro de Enoch, os anjos caídos que ensinaram as artes e ciências aos humanos -- só por isso tudo, o filme já mereceria ser visto por todos, mesmo pelos Pagãos mais abraãmicofóbicos...
Mas o motivo central do filme é o embate entre duas visões de mundo, simbolizadas pelas duas linhagens descendentes de Adão: os filhos de Caim, nascidos para explorar e devastar a Terra, construindo a ferro e fogo cidades por toda a parte, poluindo a água, destruindo florestas e matando animais para comer, e os filhos de Seth, vegetarianos, pacíficos quando não provocados, tentando viver em harmonia com o mundo à sua volta e seguir a vontade do seu Criador (que curiosamente nunca é chamado de Deus, e que só se manifesta em visões, não por vozes celestes).
Nessa versão, Noé não parece nada antropocêntrico -- após a visão do Dilúvio, ele está convencido de que a Arca se destina apenas aos "inocentes", ou seja, aos animais ("porque eles ainda vivem como nos tempos do Jardim"), e uma visita ao acampamento dos cainitas, onde ele testemunha horrores de todo tipo, só faz confirmar sua convicção de que toda a Humanidade deve se extinguir, e mesmo ele e sua família, quando as águas baixarem e os animais forem liberados no mundo purificado, não merecerão nada mais além de morrer sem descendência.
E essa visão do homem-como-incuravelmente-mau é uma que se encontra facilmente em foruns e redes sociais Pagãs, sobretudo quando alguma notícia sobre poluição, maus-tratos a animais, mudanças climáticas é postada -- um coro se ergue, cantando a perversidade sem cura do ser humano e desejando sua extinção imediata, pelo bem da pobre-Natureza-sofrida... e quem adere ao coro não percebe o quanto ele é o lado oposto do antropocentrismo que eles tanto abominam, ao colocar o ser humano em oposição à Natureza e, portanto, fora dela; porque extinguir rinocerontes ou leopardos é "mau" e extinguir os humanos é "bom"? Quem disse que somos especiais, para o bem ou o mal?
Como Noé vem a aprender, não é a espécie humana que merece a extinção, mas sim as diferentes civilizações humanas que vivem em desarmonia consigo mesmas, com as outras e com o mundo em que vivem, e que não precisariam perecer se estivessem dispostas a mudar para modos mais iluminados de ser: não é o homem, mas todo um modo de vida, que hoje está tentando destruir o mundo, e cabe a nós, Druidistas, e aos outros que partilham de nosso ideal de harmonia com o mundo, aprender a deixar esse modo de vida do lado de fora de nossas Arcas interiores, onde ele será lavado e dissolvido pelas mesmas águas da mudança que nos levarão a um mundo renovado.

segunda-feira, 17 de março de 2014

O Santo e as Serpentes


Talvez seja adequado que hoje, no dia da festa de São Patrício da Irlanda, eu vá mexer num ninho de cobras... ;-)
Poucas coisas são tão polêmicas no meio Pagão em geral e Celto-Druídico em particular quanto a questão, aparentemente inocente, de se é “certo” (leia-se politicamente correto) comemorar o St.Patrick bebendo num pub irlandês – para muitos é apenas um pretexto para tomar uma Guinness e se divertir, para outros é uma homenagem indevida a um suposto genocida cultural, responsável pela extinção do Druidismo na Irlanda, a versão-vestindo-verde de Hitler, o Mal encarnado (essas são as coisas mais “delicadas” que li sobre ele na última semana, as outras eram escatologicamente impublicáveis)
Mas a missão secreta deste blog é fazer as pessoas enxergarem tudo e todos com olhos-de-Druida, ver o lado não-aparente das coisas, e é neste espírito que vamos olhar o pobre Pádraig mais de perto.
A essa altura, todo mundo já sabe que Patrício não expulsou cobra nenhuma da Irlanda, desde que a última delas morreu na Era Glacial passada e ninguém pensou em repovoar a ilha, e todo mundo sabe (ou pensa saber) que as “cobras” eram os Druidas, para quem elas seriam os símbolos vivos da Sabedoria sempre-mutável e renascente – mas e se eu lhes dissesse que o tema do santo-exterminador-de-serpentes não é exclusivo do pobre Paddy, que dúzias de santos católicos no Continente gozavam da mesmíssima reputação, mesmo em regiões não-Célticas, e que esse tema foi pego de propósito para criar a história de São Patrício, porque é bem possível que ele NUNCA tenha existido – o que vocês diriam?
Cronistas supostamente contemporâneos de Patrício curiosamente omitem seu nome das listas de missionários enviados à Irlanda, enfatizando antes um certo Paládio, que teria sido o primeiro missionário enviado diretamente por Roma à Irlanda (e não para converter os Pagãos, mas sim para zelar pelos Cristãos já convertidos); as biografias de Patrício datam do século VII, mais de duzentos anos após sua morte, e os historiadores tendem a encará-las como o que eles chamam de “lendas piedosas”, artigos de fé mas não de ciência.
Mas então, diriam vocês, vamos continuar discutindo por causa de uma ficção histórica, o santo-que-era-sem-nunca-ter-sido? (por sinal, não há registro de sua canonização como tendo sido oficializada por algum papa)
Mas é aí que entra em ação o olhar druídico...
Se era tão importante para o projeto de poder da Igreja de Roma que houvesse um santo evangelizador para a Irlanda e as Ilhas Britânicas, porque então não se enfatizou mais o papel de Paládio e seus contemporâneos, porque se achou necessário criar um santo costurado com retalhos de histórias diversas?
A não ser que esse “Patrício” tivesse realmente existido, e fosse o líder carismático que a lenda diz, mas que de algum modo ameaçasse a Igreja, e que ela não pudesse simplesmente apagar dos registros porque era famoso demais e o povo não deixaria isso passar batido, e só lhe restasse encobrir o Patrício real sob o manto costurado às pressas do Patrício da lenda – e qual a razão disso? Qual era a ameaça que a Igreja tanto temia?
Um santo que não achava que entrar em duelos mágicos com Druidas das cortes dos reis irlandeses fosse algo abaixo de sua dignidade, que aceitava os presentes das mulheres de famílias nobres para construir novas comunidades (que eram cabanas circulares arranjadas em círculo à volta da capela, onde o abade era um cargo vitalício e hereditário, onde a Páscoa era calculada diretamente pela Lua Cheia do equinócio vernal), que criou a hoje famosa Lorica de São Patrício (que é estimada mesmo pelos Pagãos, porque é exatamente essa a sua natureza e simbologia), que usou o trevo para explicar a Trindade cristã a partir daquelas Trindades mais antigas, que usava a cruz patée ou a saltire, ambas solares (de braços iguais) e não a cruz do Calvário, e que foi um dos primeiros a propagar a doutrina do Purgatório como uma terceira opção entre a díade cristã de Céu e Inferno...seria possível que esse Patrício fosse mais Druida que Cristão, ou que simpatizasse o suficiente com a fé antiga para criar uma síntese dela com a Cristandade?


Descobrir essas coisas sobre Pádraig me faz gostar um pouco mais dele, e espero que meus correligionários druídicos também possam sentir o mesmo – mas acho que ainda vai demorar um pouco antes que possamos devolver as serpentes a ele...

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A Visão de Derg Corra

Neste final de semana, enquanto o Ramo de Carvalho e outros grupos da comunidade druídica celebravam Brasil afora os festivais de Lughnasad ou Imbolc, eu fiquei em casa cozinhando vírus no duplo calor da febre e do verão abrasador, jogado na cama, dormindo e acordando sem qualquer controle sobre nenhum dos estados.
Eis que, ao anoitecer, o Imbas fluiu sobre mim e me fez rever a cena central da história de Derg Corra:

(...) um homem no topo de uma árvore, um pássaro-preto no ombro direito, e na mão esquerda um grande caldeirão de bronze branco cheio de água com uma truta arisca dentro, e um gamo aos pés da árvore. E o homem fazia isto, quebrar avelãs, e ele dava metade da avelã ao pássaro-preto em seu ombro direito enquanto comia a outra metade; e ele retirava uma maçã do caldeirão de bronze em sua mão esquerda, cortava-a em duas, atirava uma metade ao gamo aos pés da árvore, e comia a outra metade. E bebia um e outro gole do caldeirão de bronze em sua mão, e ele e a truta e o gamo e o pássaro-preto bebiam juntos (...)

Uma cena tão precisa que, como John Matthews comentou em seu livro sobre Taliesin, sugere que seu autor a escreveu contemplando um ícone real da mesma; tive a certeza intuitiva de que havia algo naquela profusão de detalhes, algo que podia ser decifrado, como letras formando uma palavra, e me pus a meditar sobre a imagem, em seu todo e em cada parte.
E então eu a vi com olhos-de-druida, e uma revelação me veio -- os três animais, além de representarem os Três Reinos da cosmovisão Celta, tem em comum seus nomes em Irlandês, todos com a letra D:

Gamo -- Damh

Pássaro-preto -- Druid-dubh

Truta -- Breac-donn
("truta-marrom", ou Salmo trutta, a mais abundante na Irlanda e "arisca", como o texto a chama, aparentada com o salmão e com os mesmos hábitos migratórios)

E quanto aos três alimentos dos três animais, todos tem o C presente:

Aveleira -- Coll

Macieira -- Ceirt

Caldeirão -- Coire


D e C, iniciais de Derg Corra -- será que foi isso que fez Fionn descobrir, em seu transe profético, a identidade do homem sentado na árvore?
Um homem que inicialmente aparece no conto como um criado da cozinha, que brinca saltando sobre as chamas da lareira, que foge após ter rejeitado os avanços de uma amante de Fionn e ser caluniado por ela, subitamente está ali, na floresta, como se fosse uma versão irlandesa do Cernunnos gaulês -- o que significa isso? Quem se esconde detrás dessas camadas-sobre-camadas de significado?
A truta/salmão, a ave que tem "druida" em seu nome, o Gamo Rei da floresta, sugerem em conjunto o Druida enquanto sábio da Floresta, possuidor de segredos, mas quem me vem à mente, quando olho as avelãs do poço de Segais, as macieiras da Ilha das Maçãs, e as águas sempre fluindo do Caldeirão, é Manannán, o sutil mestre dos disfarces e enigmas, saltando como um salmão de um ao outro lado da fogueira, chamando a si os animais com sua magia (e talvez chamando o próprio Fionn, talvez para lhe ensinar uma lição sobre a conduta própria a um rei?)
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Antes que alguém diga algo, eu não estou afirmando que o Druida que criou esse conto o fez de propósito, juntando deliberadamente as peças do quebra-cabeça com a intenção proposital de embutir no conto uma lição seja de que tipo for; não, eu suspeito que a imagem veio "pronta" e inteira do Imbas, e que mesmo enquanto a recebia o Druida-autor fluía pelas várias camadas de significado nela presentes, durante o instante-fora-do-tempo que a visão durou, e que só lhe restou passar adiante o conto, oralmente primeiro e por meio da escrita mais tarde, sabendo que dentre os que ficassem, no futuro, diante da visão do Homem na Árvore, alguns teriam a Inspiração e veriam o que ela ocultava...
E aqui vai meu desafio à comunidade druídica brasileira: o que aconteceria se fizéssemos o mesmo com os outros contos que a nós chegaram, e se tentássemos "ler" suas imagens -- o que aconteceria?

Bendito o Imbas sempre-fluente,
Benditas as imagens por ele reveladas,
Benditos os que as interpretam,
Pois o Imbas fluirá também neles