quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Episódio VIII, Awen/Força


(quem ainda não assistiu o Episódio VIII que vá embora, SPOILERS adiante!)
Chegamos a um ponto crucial da saga: em todo Episódio de Desenvolvimento (II, V, VIII) se descobre que as coisas não são o que pareciam ser nos episódios anteriores, a trama se torna complexa e densa, e é justamente nesta etapa de cada Trilogia SW que essa coisa misteriosa que é a Força é um pouco mais explicada, porque é justamente quando o Herói avança em seu treinamento e depara com as complexidades do mesmo.
Mas este episódio em particular merece uma observação com olhos-de-Druida, a começar porque a ilha-refúgio de Luke Skywalker é a muito sagrada Skellig Michael, no litoral da Irlanda: no mar há uma ilha, na ilha uma montanha, na montanha uma árvore, e dentro dela os livros sagrados dos Jedi: uma imagem do Centro Sagrado, onde tudo começa e termina, a fonte da Sabedoria primordial - e como em todo centro, a luz e as trevas habitam lado a lado, o que sempre pega desprevenido o discípulo ingênuo que pensa que o Sagrado é apenas luz e graça e gostaria de negar em si a Sombra.
Não se chega no Centro por acaso: a pergunta é feita, "por que você veio aqui?", e deve ser respondida do fundo do ser, independentemente do que o buscador ache que é o seu dever ou do que é "correto".
O Centro "é", imutável, mesmo que o Mestre ali presente não o seja: Yoda em Dagobah estava centrado e em equilíbrio, enquanto Luke buscou a ilha como uma ermida onde se esconder de seu fracasso em fazer a Ordem Jedi renascer, o que o torna um instrutor mais que relutante em aceitar Rey como discípula, e só a determinação férrea dela consegue arrancar dele o ensinamento.
E que ensinamento! Pela primeira vez na série temos um vislumbre da Força que não é visto de fora, mas sim de dentro: os elementos da Natureza percebidos como opostos e complementares, e o Equilíbrio entre eles que une o todo e dá forma ao Universo manifesto.
E como já vimos em episódios anteriores, o primeiro contato com o lado sombrio da Força vem com a revelação de verdades cruciais mas dolorosas sobre si mesmo, como todo contato com a Sombra digno do nome proporciona - claro, o Herói recusa esta primeira revelação, para mais tarde tê-la atirada à cara pelo Adversário, a forma encarnada do lado sombrio, e essa ferida deixa cicatrizes externas e internas que, apesar das aparências, serão fonte de força e não de fraqueza se forem corretamente compreendidas e integradas.
Mas nos adiantamos, e antes disso temos aquela cena arrepiantemente druídica onde um Luke amargurado decide destruir os livros sagrados dos Jedi, mas desiste no último instante...apenas para ver Yoda, seu antigo mestre, agora unificado com a Força, completar o que ele começou com um relâmpago que fulmina árvore & livros; ele exclama para Yoda, rindo como um louco taoísta (no qual sua imagem foi inspirada) "mas esses eram os livros sagrados!"
"Lê-los, você o fez?"
"...bem, eu..."
"Tediosos eles eram, sim"
"Mas porque -"
"Nos livros nada havia que naquela garota não existisse já" - isso é um ensinamento crucial do Druidismo e de outras espiritualidades: mesmo que os textos, templos e mestres fossem completamente erradicados da face da Terra, o contato direto com a Inspiração sempre viva permitiria reconstruir até a última vírgula dos ensinamentos, e portanto não é com as relíquias, mas com as pessoas, que podem se tornar os receptáculos vivos destes, que devemos nos preocupar.
Mais importante que a miraculosa aparição de Luke para confrontar a Primeira Ordem, mais sublime que sua unificação com a Força sob o mesmo pôr-do-sol com o qual sua jornada começou, é ver que a esperança que ele trouxe à Resistência, e esta traz à galáxia, é, bem druidicamente, uma semente que brota sempre que o terreno é propício, que ao semeador cabe apenas espalhar e confiar com esperança, e que se o terreno for inóspito a semente simplesmente dormirá para germinar num tempo mais favorável; onde antes a Força era um privilégio de poucos iniciados, um novo tempo se apresenta no qual ela brota nos locais e pessoas mais diversas, anunciando uma Primavera do espírito que, com a bênção dos Deuses, você e eu iremos testemunhar muito em breve.
Que a Força esteja com todos nós.
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segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Lago, Salmão, Árvore


Partindo do princípio de que os Druidas originais guardaram sua sabedoria codificada nos mitos que a nós chegaram, e tentando lê-los com olhos-de-Druida, cheguei a algumas idéias que quero partilhar aqui.
Todo druidista moderno que se preza conhece a história de Ceridwen e Gwion, de como ele veio a provar a poção de sabedoria que ela destinava a seu filho e se tornou o bardo supremo Taliesin; quando passamos de Gales à Irlanda, vemos na história de Finneces e Fionn um padrão similar, o salmão da sabedoria cobiçado pelo primeiro concedendo seus dons ao segundo, e ficamos de orelha em pé pela virtual identidade de ambas as histórias...e então topamos com a lenda do gigante Einigen, que teve a revelação do Awen mas só conseguiu transmiti-la depois de morto a Menw, que fundou o bardismo galês, e aí vemos que duas versões podem ser mera coincidência, mas três são conspiração deliberada para passar adiante uma mensagem, mas qual?
Nas três histórias, a sabedoria originalmente destinada a um vai ter com outro, e só depois de "um ano e um dia", o prazo tradicional das lendas, e que eu me arriscaria a traduzir como "no devido tempo", é que ela se torna acessível; talvez isso seja uma advertência para não ter pressa de passar adiante uma inspiração recebida, ou fazê-lo sem expectativa de que ela venha a ser compreendida no ato da transmissão, porque "há um tempo para cada coisa".
Outro ponto notável é que nas três histórias a sabedoria é um conteúdo distinto do veículo que a contém, o qual, sem ela, é inútil ou até mesmo nocivo; a poção de Ceridwen envenena o riacho, o salmão torna-se inútil, os postes de sorveira são adorados sem atenção ao que neles foi inscrito, e o "tempo devido" é necessário para destilar e separar a essência da sabedoria, descartando a parte não essencial.
Mas o que me levou mais tempo e meditação para ver é o seguinte: nas três histórias, há um personagem A, que detém a sabedoria e quer transmiti-la (Ceridwen, Einigen, o vidente que falou a Finneces), um personagem B que é (ou seria) o pretendido herdeiro dessa sabedoria (Avagddu, Finneces, o povo de Einigen), e o personagem C, o inesperado (e aparentemente acidental) receptor da mesma (Gwion, Fionn, Menw); quem leu neste blog a série de postagens sobre as Três Almas vai reconhecer A como representando a Alma Celeste, B a Alma Oceânica e C a Alma Telúrica, e notar que, como já vimos, é a Alma Telúrica que está sempre pronta a receber mensagens da Alma Celeste, enquanto a Alma Oceânica está absorta no seu incessante fluxo de pensamentos e deixa passar a oportunidade.
E as três histórias, uma ao lado da outra, apresentam cada uma um símbolo central (caldeirão, salmão, árvores) que, juntos, remetem à fonte de toda a Inspiração, o mítico poço de Segais: um lago (caldeirão) cercado de aveleiras (árvores) onde vive o Salmão da Sabedoria, as avelãs alimentando o Salmão, cuja presença consagra as águas, que fluem em cinco riachos, os cinco sentidos e a Mente onde eles tem seu substrato, e "sábio é aquele que bebe tanto dos riachos quanto da nascente"
E se avançarmos um pouco mais, e aplicarmos o Ogham a este símbolo composto, o que encontramos?

Salmão - EA ("madeira flutuante", uma metáfora poética)
Água - S (além do salgueiro, este fid se refere ao meio líquido)
Aveleiras - C (uma referência direta)

EASC, a palavra formada, tem similaridade fonética com as palavras irlandesas referentes a água, peixe/salmão e, vejam só, à Lua; referência a um estado contemplativo, diferente do pensamento mais analítico de tipo solar, mas também uma imagem: o que acontece se, ao contemplarmos a Lua cheia, a percebermos como um lago de água prateada, um grande caldeirão de prata, um ovo de salmão, uma avelã descascada, o crânio de um gigante ancestral?
Vejam, o que estou propondo com toda essa elucubração é mais que mero malabarismo de idéias, é um possível método para extrair os ensinamentos ocultos nos contos antigos, começando com uma comparação de imagens e temas, a análise destes conteúdos inicialmente revelados, e o uso controlado da imaginação para "mexer o caldeirão" e destilar todo este processo em imagens, sons/palavras e cenas completas, e deixar as gotas que resultarem desta mistura refinada agirem sobre a alma em contemplação. Obviamente não temos como saber se os Druidas que nos passaram os contos usavam esse método com seus alunos, e nem mesmo se os resultados deste trabalho analítico-intuitivo são válidos como ensinamento espiritual, mas quero trabalhar com isso um pouco e convido todos os que me acompanharam neste texto meio confuso a tentarem também: desde que 2018 começa com uma Lua cheia, vamos mergulhar nesse caldeirão?

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

300


Há 300 anos, a Europa estava em uma encruzilhada.
Recém-saída de um conflito religioso de longa duração, tentada pelo materialismo como reação contra o dogmatismo, berço dos primeiros presságios de novas tecnologias mas cega à ameaça destas ao mundo natural - uma civilização perdida em busca de novos caminhos e cercada de todos os riscos inerentes às opções já tentadas.
Foi neste contexto que dois eruditos fascinados pela pesquisa do passado, John Aubrey e John Toland, realizaram sua magnum opus, o verdadeiro milagre da ressurreição dos mortos, o processo de reunir citações de cronistas greco-romanos, tradições folclóricas semi-esquecidas, pesquisas recentes sobre as ruínas megalíticas, costurar essa miscelânea de elementos díspares com muita filosofia panteística, e reunir os outros sonhadores que vinham trabalhando na mesma obra, para que, naquela tarde do Equinócio de Outono de 1717, no salão de reuniões da Apple Tree Tavern, a Ancient Druid Order fosse oficialmente criada, e antigas sementes esquecidas por séculos finalmente rebrotassem.
Sob o signo de Libra, o poder da concórdia e equilíbrio, a nova Ordem manteve apenas princípios gerais - a reverência ao mundo natural como a imagem do Sagrado, a dedicação ao auto-aperfeiçoamento espiritual, e a insistência em manter suas cerimônias abertas ao público, ao ar livre, "em face ao Sol, o olho da Luz" - dando a seus membros a liberdade de crer, pensar e falar como quisessem, um exercício de tolerância que, três séculos depois, é causa de vergonha para nós, que ainda precisamos aprender essa lição.
Sem o trabalho dos pioneiros, o Druidismo não seria mais que uma palavra esquecida em livros empoeirados de história antiga, uma nota de pé de página curiosa mas irrelevante, um fragmento morto e enterrado do passado - mas, como foi dito antes, "tudo o que nasce deve morrer, mas tudo o que morre deve renascer", e assim o espírito perene do Druidismo mais uma vez revestiu-se de carne e reapareceu num mundo para o qual tinha muito a contribuir.
Amanhã, no dia do Equinócio, a comunidade druídica brasileira e mundial, unida em pensamento, palavra e ato, comemora os primeiros três séculos da filosofia renascida com cerimônias, festas, eventos de todo o tipo, em gratidão aos Ancestrais do Espírito, os Druidas originais e os renascidos, na certeza de que "as canções de nossos ancestrais são as canções de nossos filhos" e que a Grande Canção nunca cessa.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Arte


Está acontecendo de novo.
Usando argumentos não dessemelhantes aos da campanha contra a "arte degenerada" feita pelo bigodinho ridículo há 90 anos, uma horda dita "apartidária", cuja sigla não escreverei para não lhes fazer propaganda, conseguiu mover parte suficiente da opinião pública para cancelar uma exposição de arte com temas polêmicos, ofensivos ao bom gosto, à moral e aos bons costumes esta semana.
O que escrevo agora é a minha opinião, apoiada por argumentos que considero válidos e considerando as consequências morais e sociais dela decorrentes.
Como já disse antes, o Druidismo é talvez a única religião que, na classe dos Bardos, inclui as artes como parte crucial da sua filosofia e prática - para nós, o ponto culminante da experiência religiosa, a manifestação da Awen, é descrito como sendo nada mais nada menos que a Inspiração, que não se limita ao campo artístico mas necessariamente o compreende.
A questão é que a Inspiração é uma lei em si mesma, e não se importa em ir contra leis, códigos morais ou artigos de fé, desde que consiga se expressar da forma mais poderosa possível; um poder selvagem, anárquico e elemental, que não se limita às manifestações mais convencionais de beleza e harmonia mas as expressa lado a lado com obras mais caoticamente criadas.
Quando Platão baniu os poetas da sua República, ele estava expressando sua indignação contra essa tendência iconoclasta e rebelde dos artistas, que desde Homero chegavam às raias da blasfêmia ao retratar os Deuses como sujeitos às imperfeições e mesquinharias mortais - não deixa de ser irônico que seu mestre, Sócrates, tenha cometido por meio da filosofia o mesmo "pecado" que os poetas cometeram com sua arte, e seu castigo tenha sido mais severo que o mero banimento...
Não por coincidência, esta semana tivemos furacões no Caribe e terremotos no México - muita gente, mesmo os que se dizem pagãos, esquece que a Natureza não se resume a flores, borboletas e arco-íris, mas também inclui esses aspectos mais devastadores e "feios"; do mesmo modo a Arte, cuja Inspiração flui da mesma fonte primordial que origina os fenômenos naturais, cria o belo e o terrível, o casto e o obsceno, o que nutre e o que pode destruir, e não temos voz nisso tanto quanto nossa opinião não é consultada quando um vulcão entra em erupção.
Como a Verdade no quadro de Jean Léon Gerome, acima exposto, a Arte às vezes choca, saindo nua e desavergonhada de seu refúgio, e o chicote em sua mão muitas vezes é menos doloroso que a mera nudez da sua presença.
A Arte é perigosa.
Não é para todo mundo.
Deve haver controle sobre ela - NÃO na sua criação, ou mesmo na sua exposição, mas sim quanto ao público que pode assisti-la; classificação etária, avisos de possível trauma/conflito, são estratégias legítimas e razoáveis para lidar com os riscos que a exposição à Arte no seu aspecto mais cru pode causar, e eliminam a suposta necessidade de censura prévia ou posterior.
E para os que não se conformam que tanta "indecência" passe impune, eu lembro que há precedentes, os mais sacrossantos possíveis: a Bíblia mostra cenas de assassinato com requintes de crueldade, incesto de filhas com o pai, e trechos de pornografia explícita SEM nenhum tipo de condenação ou sequer uma reprimenda, e vem sendo lida há séculos sem que ninguém tenha levantado a menor objeção a estes e outros trechos polêmicos, ofensivos ao bom gosto, à moral e aos bons costumes.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Nativos


Hoje, 19 de Abril, é o Dia do Índio, e as postagens nas redes sociais se dividem entre as que comemoram a data e os que lamentam o que foi feito à população indígena no meio milênio passado; mas eu meditei a respeito e me ocorreram certas idéias que quero partilhar agora.
Nós os chamamos de "nativos", os que nasceram aqui, e "indígenas", os deste local, e não usamos estes termos para nós mesmos, nem se formos a sétima geração nascida no Brasil, porque sabemos no fundo que nossas tribos vieram de longe, Europa, África e Ásia: em algum ponto perdido no passado nossos antepassados também foram nativos de uma terra, indígenas daquele lugar, com o mesmo relacionamento com seu solo-mãe que os índios daqui tem com esta terra. Não é demais repisar isso: os Romanos olharam os nossos ancestrais Celtas, Germanos, Eslavos e outros povos "nativos" do mesmo modo que os "descobridores" europeus olharam os indígenas aqui, como selvagens incultos a conquistar e por a seu serviço ou criaturas a serem aculturadas e integradas à civilização verdadeira (...)
Nesta terra miscigenada e pan-cultural, somos os descendentes na diáspora de várias tribos nativas, sem sequer saber de todas elas ou dos solos sagrados que lhes deram origem, e eu ouso dizer que, por detrás do preconceito que muitos ainda tem contra os índios, se esconde uma imensa e amarga inveja inconsciente, porque eles, "primitivos" como aparentam ser, tem esse tesouro da conexão ancestral com a terra natal que nos foi negado (e há tanto tempo que nem sequer tivemos consciência da perda).
Deveríamos ser capazes de respeitar e zelar pelos nossos povos nativos simplesmente por eles serem humanos como nós, de sangue igualmente vermelho, mas se essa empatia básica ainda for difícil de evocar, talvez pensar que, na noite dos tempos, nossos ancestrais deviam ser bem parecidos com eles ajude a fazer nascer esse senso de responsabilidade e solidariedade tão necessário em nossos tempos.

quinta-feira, 2 de março de 2017

A Verdade Contra o Mundo


Essa frase faz parte da tradição Bárdica de Gales, conforme descrita por Iolo Morganwg no Barddas, uma exortação a afirmar o que é certo mesmo que o mundo inteiro seja contra –não é irônico que isso faça parte do que é considerada uma das maiores imposturas da história da literatura? A essa altura até as pedras do fundo do riacho sabem que Iolo não se furtou a preencher as muitas lacunas de seu trabalho de pesquisa da tradição céltica de Gales com textos de sua própria criação, e com uma costura tão bem feita que não dá pra distinguir o forjado do autêntico...e no entanto não foi exatamente uma mentira, podemos dizer que ele, durante seu surto de Inspiração poética, estava agindo como um Bardo antigo o faria, e portanto sua criação é válida mesmo que não autêntica.
A ênfase quase obsessiva com a verdade está presente desde os primórdios da tradição Celta, certamente herdada dos seus antecessores culturais, os Proto-Indo-Europeus: a ilustração acima evoca o lendário cálice de quatro lados que o deus Manannán deu ao rei Cormac, e que se partia em pedaços se uma mentira fosse dita diante dele, mas se reconstituía como novo se três verdades fossem proclamadas do mesmo modo – um perfeito detector de mentiras, e um instrumento valioso para um rei em seu papel de juiz.
Havia até mesmo uma expressão, firínne flátha, “a verdade/justiça do regente”, que expressa uma verdade de ordem ritual/cosmológica: se o rei, o ponto de equilíbrio entre Tribo e Terra, este mundo e o Outro-Mundo, entre Cáu, Mar e Terra, é saudável de corpo e espírito, e essa saúde se manifesta como a harmonia entre o que ele diz e como as coisas são, o reino permanece harmônico, mas se ele falha ao manter a Verdade o reino malogra – lemos que o rei Lugaid proferiu um juízo falso e metade do salão real desabou, incluindo a colina onde estava assentado, mas imediatamente o jovem Cormac mac Art pronunciou o juízo verdadeiro e salão & colina foram miraculosamente restaurados.
A função jurídico-legal é partilhada entre reis e Druidas, que são “como dois rins na mesma besta”, e sabemos que Druidas como Cathbad do Ulster são consultados a todo momento sobre a verdade de uma situação, ou a verdade do que virá a ser, e a divinação é um meio auxiliar da razão e da memória freqüentemente utilizado; mas todas as classes tem um compromisso, fundamentado na honra e na imagem pessoal, com a Verdade: como Oisín disse a são Patrício, os Irlandeses se sustentavam “pela verdade de nossos corações, pela força de nossos braços, pela palavra cumprida em nossas línguas”.
Mas, e hoje?
Depois que o Pós-Modernismo declarou que não existe uma verdade objetiva e absoluta, e que todos os pontos de vista sob qualquer tema são igualmente válidos, chegamos recentemente ao abismo da “pós-verdade”, onde notícias deliberadamente falsas disputam espaço midiático e atenção com as verdadeiras e usurpam seu lugar, e poucos são os que tem o discernimento de examinar com cuidado cada uma antes de lhe dar crédito; a Mentira, antes abominada por virtualmente todas as civilizações antigas, foi entronizada, e já nem precisa se disfarçar de Verdade para obter admiração, e as pessoas não percebem que bem mais que um salão real está desabando sobre suas cabeças em decorrência disto.
Aqueles de nós que ainda nos apegamos aos modos originais de ser continuamos devotos da Verdade, cultivando-a em nossas vidas, família, amigos, trabalho, diante dos Deuses, Ancestrais e Espíritos e, o mais difícil, sozinhos conosco mesmos...e faz parte de nossa vocação sustentar a excelência da Verdade sobre a Mentira, lembrar as pessoas quais são as conseqüências da falsidade no indivíduo e na sociedade, e proclamar a Verdade ainda que contra o Mundo, sabendo que seu tempo voltará um dia.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Testemunhas


Quem já assistiu ao recém-estreado Animais Fantásticos e Onde Habitam voltou a se expor (ou o fez pela primeira vez) ao universo reripótico e à magia ali encerrada -- mas o que me atraiu a atenção foi o personagem do Jacob Kowalski, o sujeito comum que, ao esbarrar no bruxo/naturalista Newt Scamander, inadvertidamente cruzou o limiar para um aspecto do mundo que poucos conhecem, e acabou completamente fascinado por ele:
"Não, isto não é imaginação minha, sabe, eu não tenho cabeça pra criar coisas como essas"
O que acontece com o sr. Kowalski eu não vou contar, quem quiser que vá ver o filme -- mas o que tenho a dizer é que ele é a mais recente encarnação de um arquétipo fundamental nas histórias de fantasia, o Homem Comum que participa da jornada do Herói e que volta pra contar aos outros aquilo de que se tornou testemunha, e é sobre ele e sua importância que vamos conversar agora.
O exemplo que me vem como sendo o mais antigo é o de Bors, um dos Cavaleiros da Távola Redonda, e um dos três a encontrar o Graal na cidade sagrada de Sarras: quando Galahad é arrebatado em êxtase e cai morto aos pés do Graal, e Percival é iniciado na Companhia do Graal e se torna seu protetor, é a Bors, o mais velho dos três (e o único casado e com filhos), que recai a tarefa de voltar a Camelot e narrar a Artur e à Távola o que testemunhou (e é graças a isso que a história chegou até nós).
No ciclo de Tolkien, temos o heroísmo visível dos guerreiros de Minas Tirith e Rohan contra Sauron e seu exército das trevas, e o menos visível de Frodo em sua jornada de auto-sacrifício para destruir o Anel antes que ele o destrua: mas quem leu direito os livros sabe muito bem que é Sam o verdadeiro centro da história, é pelos olhos arrebatados dele que vemos as maravilhas de Rivendell e Lothlórien e os terrores de Moria e Cirith Ungol, e é ele, que fez a jornada movido apenas pela lealdade, que fica para trás quando os outros seguem para o Oeste além do Mar, para cuidar de sua família, filhos e jardins, e escrever o que viu para preservar a Grande História do fim da Terceira Era.
Dito assim, até parece fácil, não? Basta aguentar até o fim, tentar não morrer no meio do caminho, e você vira o sobrevivente/testemunha, pronto para a fama e a felicidade -- mas existe um risco, algo gravíssimo, pior que a morte, no caminho do candidato a testemunha, e o exemplo clássico está nas crônicas de Nárnia: quem vê Susan, uma das quatro crianças que cruzou o armário para o outro lado, chorando com Lucy a morte de Aslan, ou usando seu arco e flechas na batalha contra a Rainha do Gelo, e por fim se tornando uma rainha em Cair Paravel, mal pode acreditar quando lê, no fim do último livro, a declaração seca e amarga de Peter: "nossa irmã Susan já não é mais uma amiga de Nárnia". O que aconteceu? O pior dos pecados: ela cresceu e se permitiu esquecer tudo o que viu e viveu, a ponto de achar "fofo" que seus irmãos, mesmo crescidos, ainda se lembrem das "brincadeiras" de Nárnia da infância...
Mas isto será possível, dá pra ver uma maravilha do Outro Mundo e chegar a se esquecer dela?
Não é preciso ir muito longe, basta ver o que acontece com os sonhos: quantas vezes você acordou com um sonho absolutamente fantástico que se desintegrou diante dos olhos da mente à medida que a consciência diurna da Alma Oceânica assumia o controle? Nossa percepção, linguagem e filtros culturais nos programam para deixar de lado tudo o que não se conforma à narrativa-padrão, e parte do objetivo de uma Iniciação bem-feita é não apenas dar acesso ao Outro Mundo, mas também treinar a mente a assimilá-lo e integrar devidamente o que foi visto à consciência.
Mas, mais importante que o treinamento, uma certa estrutura de caráter se faz necessária: nos apêndices do Senhor dos Anéis, lemos que Gandalf, após explorar a Terra-Média, começou a estudar os hobbits meio que por curiosidade, e foi ele quem descobriu o grande segredo oculto na natureza hobbítica: aqueles sujeitinhos folgazões, adeptos de boa comida e bebida, camas macias, canções e erva-de-cachimbo, escondiam dentro de si uma resistência inquebrantável que podia, se necessário, permitir a eles passarem sem todos esses pequenos e grandes confortos e suportarem o que fosse preciso enquanto fosse necessário – ele testou algumas famílias hobbits, meio como Mendel fazendo experimentos com ervilhas, até chegar, com Bilbo, à certeza de que sua hipótese estava certa, e isso guiou seus planos para a Terra-Média a partir de então.
E onde nós entramos nisso?
A maioria das pessoas que vem ao Druidismo (ou, como já vimos, que se reconhecem nele) teve uma ou mais experiências do tipo inexplicável, em graus maiores ou menores de maravilhamento, e a exposição às práticas, cerimônias, meditações e histórias abre os portais da Inspiração para eventos ainda maiores; talvez apenas poucos de nós sejamos chamados para os papéis mais heróicos, mas todos nós podemos, ao menos, aspirar a essa mistura de solidez interna e abertura externa que caracteriza as Testemunhas e lhes dá o poder de dedicar suas vidas a passar para a frente o que testemunharam e aprenderam.