"Ain, o Carnaval é uma energia muito densa/ deixa a aura carregada/ só atrai entidades negativas e ligadas à matéria/ gente espiritualizada DE VERDADE não participa disso/ etc, etc, etc"
Eu entenderia se esses comentários rançosos viessem do puritanismo dos Cristãos (esses dias quase que só se fala disso nas páginas catolicrentes das redes), mas nunca deixa de me chocar a presença desse chorume conceitual no meio Pagão/esotérico, e parece que a cada ano fica pior.
O que acontece se olhamos para o Carnaval com olhos-de-druida?
Começamos por ver que o tríduo momesco, para usar seu nome mais empolado, é o exemplo clássico do que a Antropologia chama de "período de reversão": festividades que, desde a antiguidade clássica e o medievo, promovem uma ruptura temporária das estruturas sociais estabelecidas enquanto o evento durar -- homens se vestem de mulher (e vice-versa), servos se sentam à mesa do banquete e são servidos por seus senhores, bêbados fazem sermões nas igrejas e os clérigos cantam canções profanas nas tabernas, e por aí vai, e no dia seguinte tudo volta ao normal, as pessoas exaustas mas estranhamente aliviadas, como se essa ruptura tivesse purgado as tensões e frustrações acumuladas ao longo do ano e destravado as neuroses pessoais e coletivas por elas causadas.
É um tempo de perigo, sim, mas a liberdade caminha lado a lado com ele: vai que a reversão extravase para além do terceiro dia, e a Ordem dê lugar ao Caos (como acabou acontecendo na Veneza renascentista, onde era Carnaval por quase metade do ano, e ninguém mais andava nas ruas sem as máscaras elaboradas que viraram símbolos do Carnaval de Veneza).
É uma energia densa, sim, mas não é mil vezes melhor excretá-la do organismo psicofísico do que fingir que ela não existe e deixá-la fermentando pestilência nas almas? Qualquer miasma que reste na atmosfera é eventualmente metabolizado pela Terra, que sabe muito bem que nem toda densidade é intrinsecamente nociva desde que esteja em seu devido lugar.
É uma festividade essencial para a saúde mental/espiritual do indivíduo/coletividade, e execrado seja quem a declara anátema.
...e agora eu vou fazer uma proposta que vai soar herética para Cristãos e Pagãos ao mesmo tempo...
A Quarta-Feira de Cinzas, o fim do Carnaval, marca o início da Quaresma, o período que antecede a Páscoa e que é caracterizado por pequenas penitências autoimpostas como preparação para a Paixão de Cristo -- isso é a prática católica tradicional dos últimos dois milênios, e não há nada novo nisso, mas os olhos-de-druida não podem deixar de ver paralelos desse costume com o conceito druídico do geis, do qual já escrevi em outra ocasião -- bem, e se nós, Druidistas, utilizássemos este período para trabalhar com os geasa, escolhendo uma privação ou obrigação voluntária e temporária (até o Equinócio, talvez?)
Minha teoria é que, após a purificação trazida pelo Carnaval, a alma (ou as Três Almas) pode ver as coisas com mais clareza, e a disciplina implicada nos geasa neste período em especial pode fortalecer os propósitos da tríplice alma de modos que não seriam possíveis em outras fases do ano.
Assim sendo, em consonância com a Inspiração /|\ , eu proclamo o Tempo dos Votos, entre a exaltação da Festa da Reversão e a celebração do Equinócio da Colheita, e convido quem quiser participar comigo
(porque o bom herege sempre divide a culpa com quem cruzar seu caminho...)
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