segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Ategina, Semana 30: Conselhos

Ao longo destas 30 semanas, tentei passar algo da natureza de Ategina, e é possível que, a essa altura, alguns dos que leram isto tenham tido uma reação de reconhecimento após o impacto do primeiro contato, quem sabe até mesmo algo como um chamado à ação -- e agora, o que fazer? Como dar os primeiros passos na trilha do santuário da Renascida?
Eu começaria bem devagar, sem pressa, sem a obrigação de ter tudo perfeito desde o primeiro dia de devoção; isso incluiria até mesmo uma advertência para não fazer nenhum juramento ou consagração ao serviço Dela nesta fase, que deveria ser puramente exploratória.
Primeiramente, muita leitura e pesquisa: eu mencionei vários autores, livros e sites, inclusive com os links, e é sempre bom ir atrás de informação confiável, sem delírios esquizotéricos ou charlatanice deslavada.
Junto com o estudo, que pode ocupar semanas ou meses, pode-se iniciar uma prática devocional simples, talvez uma oração pela manhã, oferendas simples como pão e vinho ou maçã, um altar mesmo que seja só uma vela, sem imagens ou símbolos; o objetivo é iniciar uma aproximação a Ela, uma intenção de tentar entendê-la e criar um relacionamento -- uma oração do tipo "eu ainda não a conheço bem, mas por favor aceite minhas oferendas, e deixe-me conhecê-la melhor", ou algo parecido, seria adequada à ocasião.
Preste atenção, ao longo do dia, nos presságios e eventos inusitados que ocorram, e anote cada sonho que tiver, mesmo que não pareçam fazer sentido, porque é aí que as respostas Dela às suas invocações poderão ser encontradas.
Se você fizer isso por algumas semanas, ou um contato mais direto ou uma certeza crescente de que esse não é o seu caminho vão se manifestar, e então aja de acordo com a resposta; talvez aí seja a ocasião para tentar a meditação visionária da semana passada, e prestar muita atenção nas imagens que surjam durante a visão.
Se chegar à conclusão de que este não é o seu caminho, despeça-se Dela com uma última oferenda e agradecimentos; se descobrir que está se sentindo em casa com esse relacionamento, agradeça a Ela por isso e aí, se quiser, faça um rito de dedicação agora (nada muito elaborado, apenas declare sua intenção de se ligar a Ela de modo mais comprometido), e seja bem-vindo à crescente congregação dos seus devotos!
Que estas Semanas de Ategina lhes sejam benéficas!
Bênçãos dos Deuses e não-Deuses aos que lêem isto!

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Ategina, Semana 29: Experiência Pessoal

Qualquer um de nós que teve a oportunidade de cultuar, e então contactar, alguma das Divindades antigas, tem inúmeras histórias para contar -- ou teria, se algumas delas não estivessem sob interdição por ordem da Divindade em questão e a maioria delas, como já disse, ocorrer de modo tão despretensioso e ordinário que simplesmente não teriam sentido para alguém fora da relação. Mas esta semana é a das vivências particulares, diferentemente dos testemunhos dados anteriormente, então vamos ver o que conseguimos...
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Você está diante de um monte tumular verde, numa planície verde, do outro lado de um rio de águas escuras; cruze o rio, raso e muito frio, até a outra margem, e caminhe ao redor do monte, no sentido anti-horário, até encontrar um caminho de subida ao monte (voltado para qual direção?), com dois pilares de pedra negra e uma terceira pedra suspensa sobre eles como entrada do caminho; suba ao monte e siga por uma trilha serpenteante e escura, com cheiro de terra, até uma luz bem no alto do monte.
Você contempla uma pilha de pedras que chega à sua cintura, coberta de flores secas, com um crânio de cabra sobre ela; os chifres são revestidos de prata, há uma vela preta na órbita esquerda, uma vela branca na órbita direita,  uma vela vermelha entre os chifres, e o crânio está recoberto de letras desconhecidas; faça uma reverência ao crânio e peça permissão para descer às profundezas, ofertando o ramo de cipreste que subitamente surge em suas mãos.
Se nada ocorrer, não é a ocasiao: agradeça, desça pela trilha, volte por onde veio.
Se for a ocasião...você subitamente cai para dentro do monte, uma escuridão fria e silenciosa, e após eras de queda você se percebe deitado na escuridão total, que lentamente deixa ver um círculo de pedras negras entremeadas com ossos brancos, e uma fogueira no centro que cheira a resina de cipreste.
Olhe para além do círculo à sua frente, veja o que (ou quem) há para ser visto; olhe à direita, atrás e à esquerda, dando tempo para perceber o que se revela ali.
Agradeça, vire de costas para o fogo central, deite-se, feche os olhos; num instante você flutua na escuridão sobre o abismo, no instante seguinte está diante do crânio de cabra no monte santo.
Sobre o altar há uma taça de cerãmica, na qual você bebe a mesma água fria do rio que cruzou para chegar aqui; ofereça a romã surgida agora em suas mãos como agradecimento, faça uma reverência, volte-se e desça pelo caminho, sem olhar para trás, até cruzar o portal de pedra.
Olhe a planície verde uma última vez (algo mudou?), cruze o rio para a outra margem, respire fundo e volte ao mundo do dia-a-dia.
Escreva o que viu e sentiu.
Escreva o que sonhar esta noite.
Não repita isso mais de uma vez por mês no início; mais tarde a visão pode ser repetida a cada sete ou nove dias.
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domingo, 10 de agosto de 2025

Ategina, Semana 28: Desconhecimento

O tema desta semana é vasto, desde que o que se sabe comprovadamente sobre Ategina é bem menos do que o que se desconhece...
Ela tinha outros títulos além dos encontrados nas inscrições dos seus altares? Existiram imagens Dela no período pré-sincretismo romano, e como eram elas? Há alguma placa inscrita com uma invocação completa, quem sabe partes da Sua liturgia, esperando que um arqueólogo empreendedor a encontre? Quais métodos eram usados para as defixiones no período pré-romano? Como era o processo de iniciação/consagração dos seus sacerdotes? Quantos e quais mitos sobre Ela existiam?
...e essas são só as minhas perguntas: juntando todos os interrogantes, sejam pagãos com interesses devocionais ou historiadores com interesses mais técnicos, nossa ignorância coletiva encheria livros inteiros só com essas confissões do não-saber -- e o desgosto de desconfiar que muitas destas perguntas não terão resposta é uma dor sem nome e sem medida.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Ategina, Semana 27: Enganos

Reavaliando o meu culto às Divindades celtolusitanas, vejo um erro de abordagem já no princípio, que está sendo corrigido pela crescente aproximação a Ategina.
Como disse antes, minha devoção quase exclusiva a Endovélico deixava os outros Numes em segundo plano, menções honrosas num culto para todos os efeitos henoteísta; nas cada vez menos raras ocasiões em que eu sentia o impulso para ampliar o foco e adotar (ou ser adotado) por uma outra Divindade padroeira, Ategina era a que primeiro aparecia diante de mim -- para ser imediatamente negada, sob o pretexto de que isso ficava com cara do par Deus&Deusa da Wicca (...) e não podia ser um chamado legítimo.
Mas as evidências se impõem à razão,  após serem inquestionavelmente aceitas pela intuição, e assim Ela veio para ficar.
E desde então, cada vez mais eu me convenço de que a devoção a um padroeiro específico é uma atitude arriscada por ser desequilibrada a longo prazo, tendendo a levar a uma identificação unilateral e possívelmente patológica com os arquétipos associados à Divindade em questão; o pareamento com outra Divindade tende a flexibilizar essa identificação por oferecer aspectos complementares e harmônicos à consciência do devoto, para sua saúde psíquica e espiritual.
"Coincidentemente", como dizem os profanos, semana passada eu conversava com uma pessoa do meio Pagão que estava justamente apresentando essa identificação excessiva com a sua Padroeira, e me veio a intuição de sugerir a ela incluir a devoção a outra Divindade que é tradicionalmente considerada sua consorte, com atributos praticamente opostos agindo para equilibrar as influências espirituais e psicológicas sobre ela, que disse que iria tentar.
Pode ser o meu lado libriano, eu sei, mas cada vez mais eu me inclino a recomendar a devoção a pares Divinos (que não precisam ser amantes: irmãos como Aengus e Brighid ou Modron como mãe de Mabon também valem), e agradeço a Ategina por me revelar isto e trazer mais harmonia à minha vida.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Ategina, Semana 26: Relacionamento

Começo a discussão desta semana dizendo que, diferentemente do meu relacionamento com Endovélico, o com Ategina partiu de uma posição menos, digamos assim, compulsória: Ele surgiu e deixou claro que o relacionamento que ali se iniciava seria uma das coisas mais importantes da minha vida, senão a maior delas, e o contato e conhecimento das outras Divindades veio como consequência dele, como planetas acompanhando seu Sol pelas trilhas escuras do espaço.
Mas ocorreu que ter acrescentado a prática ritual de incluir na celebração dos Equinócios o rito da Descida/Retorno do Outro-Mundo, e honrar Ategina junto com Endovélico nestes pontos críticos da Roda, levou a uma crescente aproximação Dela, que cada vez mais deixava de ser uma parte acessória do rito para se destacar das outras Divindades do meu culto, e Sua importância só fez crescer no último ano -- isso acabou culminando em me sentir chamado, de modo sutil mas inequívoco, a fazer um ciclo das 30 Semanas só para Ela como parte do processo de aproximação/consagração.
E por isso eu repeti a ilustração que usei na 26a. Semana de Endovélico, porque aqui também o relacionamento é algo construído a quatro mãos, sustentado tanto pelo meu estudo e esforço quanto pela vontade Deles em se fazerem presentes em minha vida e meu mundo, e juntos estamos plantando a semente de um futuro ainda ignorado mas já pressentido.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Ategina, Semana 25: Testemunho Negativo

(copio o que escrevi no ciclo de Endovélico,  porque realmente não há como dizer estas coisas de modo mais claro)
Agora entramos num caminho acidentado.
Eu posso dizer, sucintamente, que em várias ocasiões pedi coisas a Ategina que não me foram concedidas, mas se ficar só nessa afirmação isso soaria como uma queixa magoada ou uma afirmação resignada de fé ou mesmo uma desconfiança básica no próprio valor Dela como uma divindade digna de culto, e por isso vamos ter que expandir a discussão...
Os últimos 2 mil anos de monoteísmo compulsório nos fizeram crer que o Único deus (ou Deus, como ele gosta de ser chamado) não pode ser senão onipotente e onisciente, ou não seria Deus; claro, isso não dura senão até o velho paradoxo

"Deus pode criar uma pedra tão pesada que nem mesmo Ele poderia levantá-la?"

...que não era um paradoxo para as fés politeístas, para as quais as Divindades, mesmo sendo imensamente mais poderosas e sábias que os seres humanos, ainda assim tinham limites perfeitamente óbvios e naturais ao seu poder e sabedoria, e para quem a pergunta acima simplesmente não faz sentido algum.
O tema desta Semana, ou seja, em que situações eu fiz pedidos a Ategina que não me foram concedidos, não pode ser corretamente entendido se não olharmos os pressupostos da cultura ocidental cristã dos últimos dois milênios -- aquilo que a Filosofia e a Teologia chamam de "O Problema do Mal", ou seja,

"porque um Deus amoroso e todo-poderoso permite a existência da injustiça, da doença e do mal no mundo?"

Filósofos já abordaram o tema de modo negativo: se Deus não pode eliminar o mal da Criação, Ele é impotente; se pode, mas não o faz, Ele é desumano; em qualquer caso, Ele não é digno de nossa devoção -- os teólogos mais ortodoxos, por outro lado, consideram tudo como sendo um Mistério, ininteligível à compreensão humana, e portanto não devemos perder tempo com essas perguntas perigosas e possívelmente heréticas...
E mesmo no meio esotérico/pagão a questão continua sem resposta, agravada por interpretações distorcidas de conceitos ocultos como o karma e a evolução espiritual -- sofremos, segundo essa visão, por consequência do que fizemos de errado em vidas passadas, e é tudo para o nosso aprendizado; ou, mais recentemente, segundo certos livrinhos nefastos de auto-ajuda, sofremos porque criamos errado a nossa realidade, e é tudo responsabilidade nossa.
(...desafio essa gente espiritualizada a dizer isso aos pais daquela criança morrendo de câncer, olhando bem nos olhos deles, e depois que eles acabarem de quebrar cada dente de suas INÚTEIS bocas, aplicar esses "ensinamentos" à sua própria situação!)
O que as fés antigas tem a dizer a respeito disso, eu aqui escrevo: o Universo está repleto de coisas que nos são benéficas, indiferentes ou danosas; os Deuses, pela nossa experiência (a minha, a de meus companheiros pagãos, e a de milênios de observação atenta) são benevolentes e justos, e nos exortam a exercermos a benevolência e a justiça do melhor modo que pudermos; se eles não tem poder, individual ou coletivamente, para eliminar o mal e a imperfeição do mundo, pelo menos nos dotaram de razão, compaixão e coragem para enfrentar esses males e imperfeições na medida do possível, e nunca nos negam auxílio nisso (entendido como um reforço da razão, compaixão e coragem dentro de nós).
Se eu estivesse diante daqueles pais daquela criança acima mencionados, eu não perderia meu tempo ou o deles tentando "explicar" o porque daquela situação de sofrimento físico e emocional; eu perguntaria o que poderia fazer para ajudar, e faria o que estivesse ao meu alcance, porque é o certo e justo a se fazer numa situação dessas, e porque os Deuses preferem ações plenas, mesmo que limitadas, a palavras vazias, porque é através de mim que Eles agiriam ali.

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Ategina, Semana 24: Testemunho Positivo

Depois destas semanas de ver Ategina manifestada nas artes, esta semana volta ao campo pessoal -- como e quando um pedido a Ela feito é atendido, e de que modo isto se manifesta em minha vida?
Passei a semana tentando lembrar de um momento em especial, alguma coisa mais dramática, algum evento tão portentoso que deixasse o mais cético dos leitores de boca aberta: "Ooooohhhhhh..." mas não me lembrei de nada assim.
Não é que não me lembre propriamente, porque eu tenho o costume de anotar toda a minha prática em diário há quase 20 anos, e essas anotações incluem vários episódios de graças concedidas; a questão é que virtualmente todas elas ocorrem de modo tão simples e direto, sem trovões ou raios de Luz divina vindos do alto (ou, no caso Dela, de baixo...) que poderiam perfeitamente bem passar desapercebidas como tal sem o hábito do registro diário.
A Senhora da Colheita obviamente não se manifesta literalmente assim na minha vida de urbanícola, mas a minha "colheita" vem na forma de oportunidades pessoais e profissionais que surgem "casualmente" no meu caminho, com sinais que só são claramente Dela para mim e passariam desapercebidos a observadores externos; quanto à Rainha dos Mortos, eu frequentemente A invoco para recém- falecidos para que sejam bem-recebidos em Seu reino, mas acho que só vou saber da eficácia destes pedidos quando for a minha vez de chegar lá.
Este é o meu testemunho de Ategina.