segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Obrigações


Muita gente vai atrás das religiões pagãs atraída pelo que parece um caminho de liberdade irrestrita, diferentemente dos dogmas e mandamentos das crenças mais convencionais - a frase da Wicca "se não causar mal a ninguém, faça o que quiser" é o irresistível canto da sereia para essas pessoas - mas já vimos em postagens anteriores que há códigos éticos muito claros em todas essas religiões, incluindo o Druidismo, não existe isso de vale-tudo irrestrito; depois do choque que essa revelação traz aos mais deslumbrados, mesmo aqueles que conseguem absorvê-la sem abandonar decepcionados o caminho acabam perplexos diante do mistério dos geasa.
Geasa (singular geis) é o termo Irlandês para certas compulsões ritualmente impostas, seja na forma de atos proibidos ou obrigatórios, e que devem ser seguidas à risca sob pena de ruína pessoal ou catástrofe: o exemplo clássico é o de Cuchulainn, o herói do Ulster, que está sob os geasa de não poder comer carne de cão (o seu animal tutelar) e ter de aceitar qualquer comida oferecida por uma mulher, e tem seu destino selado quando três velhas no caminho oferecem a ele cozido de lontra (que em Irlandês é literalmente o "cão das águas"), ou seja, ele é forçado a escolher qual geis violar para cumprir o outro; guerreiros como ele podem ter dois ou mais geasa, mas os reis estão sob dúzias deles ao mesmo tempo, e assim a probabilidade de conflito insolúvel aumenta exponencialmente. Mas então, dirão vocês, qual é o propósito disso, senão uma armadilha que vai arruinar sua vítima mais cedo ou mais tarde?
Maria Nazareth Alvim Barros, autora de Uma Luz sobre Avallon, considera que os geasa servem como mecanismos de controle social sobre aqueles indivíduos ou classes sociais mais poderosos (reis) ou potencialmente perigosos (guerreiros), restringindo seu poder para o bem da tribo, mas logo à frente ela diz que os Druidas não estão sujeitos a nenhum geis - mas se eles são a classe suprema da sociedade Celta, se nem mesmo o rei pode falar em assembléia antes que o Druida se pronuncie, não deveriam eles ser restringidos por centenas de geasa, ou talvez um ou dois particularmente restritivos, segundo este raciocínio? Nenhum relato descreve algum Druida sob geasa, é verdade, mas ausência de evidência é o mesmo que evidência de ausência? Minha teoria é que os Druidas tem um ou mais geasa, sim, mas diferentemente de guerreiros ou reis tais injunções são mantidas em segredo absoluto, e por isso não foram registradas nas histórias: tanto os geasa druídicos quanto o sigilo sobre os mesmos tem um motivo de ser, e é isso que vamos tentar descobrir aqui.
Primeiro, como uma pessoa adquire geasa? A maioria aparentemente vem desde o nascimento, e é revelada ao indivíduo por divinação druídica, possivelmente fazendo parte do dán desse indivíduo e até mesmo sendo essencial para o seu cumprimento; outros são impostos por Druidas, Divindades, Ancestrais ou Espíritos, seja como maldições ou desafios a serem superados; outros, enfim, viriam com a definição social do indivíduo, como o ingresso num bando guerreiro ou a coroação do rei. Todos estes casos tem exemplos atestados nas histórias, mas eu quero postular para os Druidas a assunção voluntária de geasa, como parte da sua iniciação ou relativos a trabalhos específicos (e neste caso talvez eles seriam temporários, terminando com o trabalho cumprido).
Segundo, qual é o mecanismo dos geasa, e do possível segredo sobre eles? Aqui eu vou apelar para duas fontes, uma ficcional, outra mágica, que me parecem relevantes e plausíveis.
Marion Zimmer Bradley (sim, a das Brumas de Avalon) era uma autora de fantasia extremamente prolífica, e em um de seus livros, Lythande (existe em português, mas fora de catálogo há anos), ela fala do Templo da Estrela Azul, uma ordem/escola de magos onde na iniciação final, quando o aprendiz finalmente recebe a marca da Estrela Azul na testa e o poder a ela vinculado, esse poder é selado por um segredo, conhecido apenas pelo Mago e pelo Mestre do Templo, e que ninguém mais pode conhecer: se alguém descobrir e falar esse segredo em voz alta, o Mago perde permanentemente seu poder, e segundo Bradley é a tensão psíquica do segredo guardado que mantém o poder do Mago acumulado e selado dentro dele, como o grão de areia na ostra que forma a pérola (procurem o livro, é muito legal!)
Ian Corrigan, Druida da ADF, um dos mais originais e criativos magos do nosso tempo, ao falar sobre sacrifícios/oferendas neste podcast, teorizando sobre o mecanismo implicado no ato da oferenda, menciona que "(...) os Espíritos parecem totalmente fascinados quando nos privamos de algo (...)" - como seres imateriais que são, muitos deles jamais tendo encarnado no mundo material, eles não concebem que um ser material pode carecer, voluntária ou involuntariamente, de comida, abrigo, ou seja lá o que for, porque no Outro-Mundo o desejo é satisfeito assim que surge; o que valeria na oferenda, assim, não seria a coisa ofertada em si mesma ou a emoção devocional do presentear, mas o ato de se privar voluntariamente de algo de valor - segundo Corrigan, isso é que atrairia a atenção e a curiosidade dos Espíritos, que compensariam essa carência voluntariamente assumida com bênçãos espirituais e materiais; quanto mais "sacrifício" houvesse na oferenda, maior seria o poder investido no ato, e mais garantida seria a resposta ao mesmo.
Juntando ambos os postulados, o que obtemos? O geis é uma privação mais ou menos severa da liberdade do indivíduo, e isso por si só já geraria uma resposta favorável do Outro-Mundo, que retiraria sua bênção com a violação do geis e a cessação da privação; se esse geis estiver sob sigilo, a tensão psíquica ampliaria o poder investido e a resposta ao mesmo.
Na prática, como usar essa teoria? Não é sensato fazer votos a torto e a direito sem pensar muito bem, e por muito tempo, se isso é adequado ou não - muita meditação, aconselhamento com gente sábia (incluindo divinação extensiva sobre o alcance, riscos e adequação do ato) são preparações recomendadas antes de assumir um geis (e eu aconselharia fazer os primeiros geasa de curta duração, talvez uma lunação no máximo, e só um de cada vez, para evitar conflitos); escreva no seu diário (como assim, você AINDA não tem um???) cuidadosamente o que você deseja, qual é o geis (positivo ou negativo) ao qual você vai se submeter, e o período exato da obrigação, faça oferendas às entidades guardiãs, ore às três Almas para estarem alinhadas neste propósito, e vá prestando muita atenção no período a eventos/presságios do dia-a-dia; se tudo correr bem, e o geis tiver sido mantido sem falhas, ao fim do período agradeça o auxílio obtido e declare oficialmente a obrigação encerrada. Se a Inspiração apontar, depois de alguns geasa temporários, que é hora de assumir um geis vitalício, confirme por divinação/meditação/aconselhamento a veracidade disso, faça o voto - e se prepare, porque com o aumento do poder interior decorrente do geas e do sigilo, novas responsabilidades surgirão no seu caminho, como partes do seu dán, e você terá que estar à altura delas...



quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Equinócio de Primavera



Ela despertou aos pés do cipreste na escuridão que precede a aurora, e por um tempo não sabia quem era ou onde estava - sonhos vagos, sensações de perda, procura e esperança, eram tudo o que ela lembrava.
Levantou-se, notando pela primeira vez os muitos véus que a cobriam, como os fios do casulo que envolvem a crisálida, bem como o fruto em sua mão (sem que tivesse vindo de nenhuma das árvores que ali cresciam com o cipreste prateado), e caminhou pela trilha aberta à sua frente, de modo hesitante no começo e com passos cada vez mais seguros a cada instante.
Ouviu vozes - humana, animal, Outra - vindas de algum ponto à sua frente, que na luz crescente do amanhecer parecia um espaço aberto entre as árvores, e avançou com um pressentimento súbito.
Viu a clareira perfeitamente circular no coração da floresta, viu as muitas trilhas que convergiam para a pedra cinzenta no centro do círculo, viu as manchas escuras que a recobriam e não precisou adivinhar sua natureza, porque o combate entre o Javali e o Senhor Negro, que ali transcorria, chegava ao auge com o passo estudadamente em falso da besta, que abriu o flanco para ser transpassada pela lança do Caçador, que a retirou da ferida e recuou, dando espaço para o Javali ferido se arrastar até a pedra e lá verter a maior parte do sangue.
O sacrifício está feito, disse o Senhor Negro numa voz inesperadamente triste.
E então ela se lembrou de quem era, e se lembrando ela O reconheceu, e no reconhecimento Ela despertou para a verdade daquele dia e ato; caminhou até o centro, estendendo a mão velada e ofertando o fruto a Ele, que a olhou longamente antes de prová-lo.
Quem de Meu fruto comer, ainda que morto, viverá, disse ela.
Não tinha comido metade quando o negror de Sua face e manto acendeu-se num fogo radiante e vivo, enquanto punha a outra metade entre as presas do Javali caído; em instantes ele se levantou, o pêlo negro e vermelho de sangue tornado como ouro, fez uma reverência a Eles, que montaram em seu dorso e seguiram juntos para o horizonte oriental, de onde a Luz do Sol traria a Vida renovada na Primavera.
Porque é esse sacrifício recorrente, Deus e Fera, desde o início dos tempos, que mantém a Roda girando; é o sangue que impulsiona cada volta, e assim será para sempre.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Alma: Conexão



Mas então, dirão vocês, toda essa questão das Três Almas é muito interessante, mas qual é o valor prático dessa idéia, como posso usar esses conceitos na minha vida?
Primeiramente, quero deixar claro que isso não é um dogma, uma revelação divina, um artigo de fé - eu fui apresentando exemplos do dia-a-dia que todo mundo já vivenciou, de modo a fundamentar a teoria na experiência de quem a lê, para que sua validade, ou ausência da mesma, seja fruto de observação pessoal e não algo no que crer sem discussão. O Druidismo é uma forma de espiritualidade que, não à toa, tem a árvore como símbolo: uma criatura viva que, não importando quão alto seus ramos alcancem, está profundamente enraizada no solo, sem o que o menor sopro de ar pode derrubá-la por terra.
Assim sendo, a questão passa a ser esta: como podemos usar o conhecimento da triplicidade da alma de modo útil e benéfico? Já vimos antes que uma definição de Druidismo é centrada no relacionamento correto entre todas as coisas, e já tivemos alguns insights sobre a dinâmica da relação entre as Três Almas: falta apenas explorar a possibilidade de um contato consciente e imediato da Alma Oceânica com suas parceiras Telúrica e Celeste, e pensar em métodos práticos para esse contato. O exercício abaixo foi adaptado da Tradição Feri de bruxaria, que também reconhece a alma tríplice e trabalha extensivamente com isso.
Um passo inicial seria uma declaração de propósito: respirar fundo, concentrar-se, e dizer algo como

"é minha intenção conhecer todas as partes de meu ser, para que as Três Almas sejam como uma, alinhadas em harmonia"

...como se sente ao dizer isso? Alguma reação física, pressentimento, imagem vem à percepção? Anote o que ocorreu, relace, tire isso da cabeça por enquanto, deixe essa idéia-semente afundar e criar raízes no fundo da mente.
Quando estiver acostumado com a idéia, você vai ser "avisado" via sonhos, presságios ou uma sensação do tipo "é hora!" - arranje tempo & um lugar tranquilo, possivelmente já na cama, pronto para dormir.
Respire fundo três vezes, repita a sua declaração de propósito, e fique quieto. Centrado no peito, ponha a mão no coração e sussurre "eu", toque no umbigo e diga "nós", toque no alto da cabeça e diga "um". Expire e sinta um fluxo de calor descer do coração ao umbigo, inspire e sinta que ele retorna do umbigo ao coração, repita devagar até sentir que o elo se formou. Faça o mesmo entre o coração e o espaço acima da cabeça, respirando calmamente. Agora expire do coração, passsndo pelo umbigo, e subindo ao alto da cabeça, expire daí ao coração passando pelo umbigo, sinta os três pontos conectados e em comunicação plena, contemple a união (se quiser pode usar as palavras eu/nós/um do começo na fase da respiração, como um mantra).
Quando achar que já foi o bastante, solte o ritmo respiratório, sinta os pontos unidos e diga "que eu me conheça em todas as minhas partes", agradeça, encerre, durma (e preste atenção nos sonhos!).
Com o tempo, você vai conhecer suas outras Almas a ponto de poder dar nome a elas (ou aprender os nomes delas, o que dá no mesmo) e aí poder abrir o contato simplesmente chamando-as pelo nome: "X, ajude-me a me recuperar deste resfriado", "Z, qual é a conduta correta a seguir neste caso?"
Tente pensar em si mesmo cada vez menos como "eu" e cada vez mais como "nós", uma parceria, um casamento a três para a vida toda, e cresça fortalecido pelo Mistério desta união.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Alma: Morte



E o que acontece na hora da morte, qual o destino das Três Almas? Vamos usar a estrutura já vista dos Círculos da Existência como base para discutir isso num esquema mais amplo.
Para a Alma Telúrica, a aproximação da morte é recebida com o pavor do instinto de preservação ativado, e ela vai lutar enquanto puder, mas paradoxalmente o instante da morte em si é recebido com algo próximo da aceitação, sobretudo após uma longa doença; já vimos que o senso de "eu" é exclusivo da Alma Oceânica, não está aqui, porque ela sabe instintivamente que, muito embora ela vá se dissolver e os elementos densos e sutis que a compôem vão se separar e ser reabsorvidos no círculo de Annwn, o abismo primordial de onde vieram, a experiência de vida que ela acumulou será preservada e, digamos assim, "reciclada" para formar novas Almas Telúricas, cada uma com fragmentos das Almas que a antecederam - é interessante lembrar que, como nossos avós diziam, antigamente os bebês nasciam de olhos fechados e só os abriam dias depois do nascimento, e que isso já não ocorre, o que aponta para uma progressiva ampliação da consciência coletiva que é individualizada nas Almas Telúricas.
O verdadeiro terror da morte, no entanto, está no coração da Alma Oceânica, que tem um senso de "eu" e teme sua extinção após a morte, especialmente se não tiver alguma religião ou filosofia que ensine a imortalidade da alma - mas, como já vimos, se o ser vive várias existências, e em cada uma delas começa do zero, isso sugere que ela não sobrevive intacta à morte, porque seu plano de existência é o círculo do Abred, a roda dos renascimentos, a cada vez com uma nova identidade sem lembrança consciente das identidades anteriores.
É na Alma Celeste que o medo da morte inexiste, porque ela já habita, mesmo durante a encarnação, o círculo de Gwynfyd, o mundo da vida eterna, e no momento da morte ela, num último gesto, toca as Almas Telúrica e Oceânica e recolhe as memórias e experiências de vida relevantes, a sua colheita daquela encarnação, guardando-as consigo junto com todas as experiências das vidas anteriores, sem contudo identificar-se com alguma em particular.
É curioso notar que a Alma Telúrica é imortal mesmo que não perene, e a Alma Celeste é verdadeiramente imortal e perene, e é a Alma Oceânica, aquela que chamamos de "eu" e que é geralmente a única da qual temos conhecimento, aquela que nem é imortal nem perene, que só persiste como memória guardada pela Alma Celeste...
Mas vejam, isto só se aplica aos casos de morte natural, por velhice ou doença - e quanto às mortes súbitas e violentas, por agressão ou acidentes? Nestes casos, é possível às Almas Telúrica e Oceânica persistirem algum tempo após a morte, dando origem ao fenômeno das aparições de "fantasmas" - a Alma Telúrica, ou a sua parte sutil, permanece como um amálgama de instintos, apego/aversão e energia vital não- desgastada pelos processos de morte natural, sem as Almas superiores para guiá-la, e vai estar suficientemente próxima do mundo material para ser capaz de manifestação física, gerando ruídos, toques, às vezes aparições do tipo poltergeist, mas sem nada que sugira uma inteligência ou identidade por detrás, durando até gastar a energia vital e então se dissolvendo no abismo do Annwn; a Alma Oceânica pode persistir, quanto mais apegada à existência for a sua personalidade, e quando aparece pode até ser capaz de comunicação, mas o que se observa mais parece uma gravação, repetindo frases e padrões de comportamento, sem originalidade ou vontade própria, até se dissolver no Abred. As aparições da Alma Celeste são raríssimas, sempre com um propósito maior que o mero apego à existência terrestre, e aí ela se vale da memória para "recriar" a personalidade original da Alma Oceânica como uma interface para a comunicação, que é verdadeiramente original e criativa: o exemplo de Fergus mac Roich , surgindo em seu túmulo e ensinando a narrativa do Táin Bó Cuailnge ao Bardo que sem querer o evocou, seria um exemplo clássico na tradição Druídica.
Quando chega a hora, se a Alma Celeste ainda não está pronta para permanecer definitivamente no Gwynfyd, ela escolhe cuidadosamente as condições da nova encarnação, com ajuda dos Deuses, Ancestrais e Espíritos, e desce para se unir às novas Almas Oceânica e Telúrica recém-formadas, e a Roda das Existências dá um novo giro.

Alma: Memória



Outra manifestação humana que vai ser expressa de modo diferente pelas Três Almas é a memória, ou talvez devesse dizer memórias...
A Alma Telúrica tem uma memória poderosa, e não apenas a dos instintos atávicos de milhões de anos, mas a memória das crianças, que aprendem com facilidade qualquer coisa e nunca esquecem - pense nas coisas que você aprendeu na escola e que, mesmo que nunca vá precisar delas, estão fixadas para sempre - uma memória quase automática, especialmente das coisas feitas pela pessoa com as mãos ou a voz, porque a repetição é a chave (e é por isso que crianças querem a mesma história repetida vezes sem fim).
A Alma Oceânica já não tem a mesma facilidade para lembrar, e foi por isso que várias culturas criaram métodos de memorização que apelam para a lógica e associações de idéias similares (lembrar do número 51 como "uma boa idéia", por exemplo); essa é a memória do adulto, já não automática, exigindo estratagemas para se manter e reforços periódicos para não se perder.
A Alma Celeste, por sua vez, apresenta uma memória que é mais típica do idoso, a memória afetiva/moral - as coisas são lembradas pelo sentimento que evocaram, assim como pelas consequências dos eventos e atos ocorridos, e o que se aprendeu com as mesmas; uma memória que, à primeira vista, parece menos prática que as outras duas, mas que, se tudo correu bem, é a base da sabedoria adquirida ao longo da vida, e vai ser importante quando formos analisar o próximo tema.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Alma: Amor



Outra situação de vida onde podemos analisar a tripla Alma é a dos relacionamentos de amor/amizade.
A Alma Telúrica acredita no amor à primeira vista - como já vimos, ela é capaz de avaliar a sua contraparte nas pessoas que encontra e instantaneamente desenvolver apego ou aversão (a tal da "química"), muitas vezes arrastando consigo as Almas acima dela em situações dramáticas, intensas, e quase sempre efêmeras (parece que há um componente bioquímico envolvido que é programado para deixar de funcionar após alguns anos...); mesmo nas relações de amizade esta afinidade bioenergética tem seu papel, a Alma Telúrica passa a ver o novo amigo como sendo da mesma matilha, por assim dizer, e o encara de modo possessivo e protetor, fundamentada em instintos tribais com milhões de anos de prática.
Para a Alma Oceânica, são os fatores pessoais/culturais que pesam: o amigo/amante o será se tiver gostos, hábitos, preferências similares ou no mínimo compatíveis, e muitas vezes uma preocupação com a "conveniência" ou não daquele relacionamento também terá um papel na decisão de ir em frente com isso ou não - diferentemente da sua parceira instintiva, ela precisa de tempo (e muuuuita conversa...) para avaliar sua contraparte e decidir se ambas combinam ou não.
Em ambos os casos, a Alma Celeste simplesmente olha para baixo e observa o que acontece - por sua própria natureza, as Almas Celestes são todas compatíveis entre si, podem fazer par com qualquer outra e tudo bem - mas lhes interessa, e muito, o que podem aprender com o outro indivíduo e as características das suas Almas Oceânica e Telúrica, e quando encontram aquela combinação de traços de personalidade que pode lhes dar a experiência que buscam, elas sinalizam para as Almas abaixo, que recebem isso como um pressentimento ("é essa pessoa!").
Mas a questão é que muitas vezes o relacionamento não dura: as Almas Telúricas perdem a química (e então simplesmente desapegam uma da outra, sem ressentimentos), as Almas Oceânicas mudam de gostos e de caminhos (e aí ou se separam amigavelmente, ou acusam uma à outra de "não ser mais a mesma", ou se apegam por convenção social ou conveniência pessoal - tudo é sempre complicado com elas!), e as Almas Celestes simplesmente agradecem uma à outra pelo plano bem-sucedido e seguem seus caminhos um pouco mais sábias pelo encontro.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Alma: Sono



Tendo analisado as características das três Almas humanas, e esboçado um pouco das relações entre as mesmas, vamos prosseguir examinando uma situação universal, um estado de ser que ocupa um terço do nosso tempo de vida : o sono.
Do ponto de vista da Alma Telúrica, o sono é simultaneamente repouso e trabalho - ao mesmo tempo em que ela baixa a guarda e interrompe a observação constante do meio, ela também se ocupa da restauração fisiológica: ninguém se dá conta do desgaste sofrido pelo organismo durante o dia porque o cortisol, o hormônio diurno, inibe a resposta inflamatória e permite que permaneçamos ativos e funcionais até a hora de dormir (quando o cortisol decresce e nos damos conta de estarmos literalmente "quebrados"); então, durante o sono, o hormônio noturno, o hormônio de crescimento, assume a vez e inicia o reparo dos tecidos inflamados e a depuração das toxinas produzidas, para que, se tudo correr conforme o esperado, o indivíduo acorde pela manhã completamente restaurado e pronto para mais um dia.
Para a Alma Oceânica, o sono é muitas vezes visto como um transtorno indesejado - se dependesse dela, permaneceríamos acordados o tempo todo, empenhados em mil atividades diferentes - mas ela necessita desta parada compulsória para classificar e arquivar o registro de tudo o que fez, pensou, falou e aprendeu na memória profunda (uma das primeiras consequências da privação de sono é a perda da memória de fixação, o indivíduo começa a se aperceber de que esquece facilmente das coisas e não aprende coisas novas direito). O processamento emocional também ocorre à noite, em sonhos/pesadelos emocionalmente carregados, e muitas vezes expressando as emoções reprimidas em vigília de modo camuflado em sonhos simbólicos acessíveis à interpretação em processos psicoterapêuticos.
Para a Alma Celeste, que já está meio fora do corpo, é hora de rever o dia e seus aprendizados, planejar o dia seguinte, e mandar mensagens, que a Alma Telúrica veste em roupagens simbólicas e apresenta à Alma Oceânica nos sonhos - aí se faz necessário discernir quais sonhos são o reflexo do dia passado e quais são mensagens de níveis transcendentes de consciência (dentre esses, os que contém mensagens de fora, dos Deuses, Ancestrais e Espíritos da Natureza).
Assim sendo, qual seria a preparação ideal para o sono? Dar à Alma Telúrica o conforto necessário para o sono restaurador, meditar um pouco para desacelerar o diálogo interior da Alma Oceânica, e rezar para as três Famílias para inspirar a Alma Celeste para que ela oriente todo o planejamento do dia seguinte - experimentem isso por uma ou duas semanas e vejam o que acontece...