(SPOILERS à frente, NÃO digam que eu não avisei)
Irmãos gêmeos voltam à sua cidade natal, após uma vida de crimes, aventuras, guerra e paz, para recomeçar suas vidas: um tema bastante explorado nas artes em geral e no cinema em particular.
Mas, e se os irmãos forem negros, e a cidade natal for no sul dos EUA, nos anos 30, em território da Ku Klux Klan?
E se, além disso, eles e seus amigos e familiares forem atacados por um bando de vampiros errantes e famintos?
E se tudo isso tiver sido desencadeado por uma noite de puro blues, executado por um músico tão poderoso que, naquela noite, abriu as portas entre os mundos e atraiu o que não devia?
Esse é o contexto de Pecadores, o novo filme de Ryan Coogler, e estes são os temas que vamos examinar mais de perto.
O diretor já tem um currículo sólido em falar dos negros e da opressão a que são sujeitos há séculos, e este filme não é exceção: a comunidade da cidade sofre violências de vários tipos, e a casa de blues que os irmãos abrem é um escape, uma libertação das amarras do cotidiano, e por isso mesmo fadada ao fracasso.
Mas naquela que seria a primeira e última noite da casa, na mais incrível cena do filme, a apresentação de Sammie como que rompe não só os grilhões invisíveis dos clientes, mas as próprias barreiras entre tempos, lugares e mundos.
E isso atrai um visitante especial: Remmick, imigrante irlandês e mestre vampiro, que diz ter sido chamado pela música de Sammie para incluí-lo no seu grupo de desmortos errantes, para que seu dom os ajude a refazer o mundo à sua imagem -- sem muitas palavras, o filme lembra que os irlandeses também foram um povo oprimido na Irlanda e marginalizado nos EUA, e deixa claro que a sede de Remmick é por vingança mais que por sangue.
Numa curiosíssima inversão, o tradicional clichê do blueseiro na encruzilhada buscando a música do Diabo dá lugar ao Diabo buscando a música do blueseiro na encruzilhada em que a casa de blues se tornou naquela noite.
Porque a pergunta-chave aqui é "o que fazer com meu talento?": Sammie está numa encruzilhada, um jovem dividido entre a herança da vida religiosa com o pai pastor e a sedutora devassidão do mundo do blues -- curiosamente, ambos os lados concordam que sua música tem poder, mas um quer que ele renuncie a isso sob risco de perdição e outro insiste que ele abrace sua vocação mesmo que isso não vá lhe trazer felicidade, e só descobrimos qual é a sua escolha no fim do filme (que tem 2 CENAS PÓS-CRÉDITOS, não saiam da sala antes do final!)
Nem drama histórico, nem terror, nem musical -- e ao mesmo tempo todos os três --interpretações impecáveis, trilha sonora irresistível (incluindo, numa das cenas pós-créditos, um convidado muito especial...), possivelmente o melhor filme do ano -- ou seja, VÃO VER!
Divination For 2026
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Há 12 horas
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